19 fevereiro 2016

Linguistas na escola

Diante da falada crise escolar enfrentada no Brasil, o ensino da língua portuguesa é, talvez, o mais questionado e debatido. Por que não se convidam linguistas para tomar parte na discussão e atuar dentro das escolas? Sírio Possenti discute a questão em sua coluna de fevereiro.

Os linguistas estudam a aquisição da linguagem, o que pode ajudar a ver os erros cometidos pelas crianças com outros olhos. (foto: Instant-Shots / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Na última coluna, mencionei um texto de Arnaldo Niskier que “comenta” uma disputa entre linguistas e gramáticos que, segundo ele, prejudica a escola. Quero fazer uma defesa da presença da linguística na escola. Alinho alguns fatos, que explico brevemente.

a) Os linguistas estudam as línguas do ponto de vista científico; isso quer dizer que não se preocupam centralmente com erro e acerto, nem com julgamentos estéticos ou morais, mas com as regras tais como são empregadas pelos falantes. Onde um gramático vê um erro, um linguista vê uma diferença. Isso não quer dizer que o linguista despreze esse problema ou pense que não é um problema. A diferença é que ele sabe que o que se chama de erro decorre de uma avaliação social e histórica (não estrutural), e que ela pode mudar. Camões escreveu “alevanta” (“que outro valor mais alto se alevanta”): “alevantar” era uma forma socialmente correta, hoje é avaliada com o erro, soa ‘caipira’. Assim, o erro é da ordem do social, não da estrutura. Não é trivial saber fazer essa separação. As consequências do erro de julgamento são dramáticas.

Onde um gramático vê um erro, um linguista vê uma diferença. Isso não quer dizer que o linguista despreze esse problema ou pense que não é um problema

b) Os linguistas estudam a aquisição da linguagem – incluindo a aquisição da escrita. Sem contar a questão dos estágios: o ‘erro’ da criança pode ser mais bem avaliado como um sintoma do que estaria ocorrendo na mente do aprendiz. Se uma criança diz “abriva”, e não “abria”, o linguista, em vez de cortar a sobremesa ou levar o pimpolho ao fonoaudiógo ou ao psicólogo, explica o erro. Sua hipótese provavelmente será que o erro se deve a que a primeira conjugação é produtiva e as outras, não – todos os verbos novos em português são da primeira conjugação; uma criança que diz “abriva” (por analogia com “amava”) nunca diz “amia” (por analogia com “partia”). Basta isso para olhar para a criança com outros olhos.  

c) Os linguistas sabem que a variedade de pronúncia provoca erros de ortografia (que até podem ser previstos): “minino”, “vendaval”, “curuja”, “bicicreta”, “forão” são previsíveis (tanto quanto “caza” e “queicha”); além disso, sabem que certos ‘problemas’ de divisão de palavras, somados à pauta acentual, podem produzir erros como “vendeuse” e “acasa”, ao mesmo tempo em que podem gerar “em controu” (“se” e “a” são átonos, o que é bem relevante). Saber de onde vêm esses erros ajuda enormemente a tomar decisões sobre como “corrigir”.

De onde vêm os erros de português?
Saber de onde vêm os ‘erros’ ajuda a decidir como corrigi-los. (foto: Raquel Camargo / Flickr / CC BY-NC 2.0)

d) Os linguistas sabem que saber gramática (classificar palavras, analisar a sintaxe das orações etc.) não tem nada a ver com saber uma língua. Pode-se saber a gramática do inglês sem falar a língua (acontece muito...) e pode-se falar inglês sem saber sua gramática (acontece com todos os falantes antes de irem à escola e aconteceu com Platão e Camões (não falavam inglês, claro), por exemplo, que escreveram antes de haver gramáticas de suas línguas... Os gramáticos é que explicam os dois, não são os dois que obedecem às gramáticas. Essa inversão é tudo! 

e) Os linguistas sabem (sabem melhor, pelo menos) quando certos fatos sugerem que há distúrbios (como a já popular dislexia) e quando se trata de erro de avaliação de psicólogos, neurólogos e outros -ólogos que não estudam linguística, especialmente certos aspectos da relação fala-escrita; as trocas de letras têm diversas naturezas e motivações, e tais questões não são estudadas nos cursos que formam alfabetizadores; o resultado não é bom.

f) Não se mede competência de escrita com ditado de lista de palavras (os linguistas sabem disso) – como fazem muitas empresas que assessoram departamentos de pessoal. Quando se quer saber se um candidato a um emprego sabe escrever, pede-se que escreva – ora! – uma carta, uma história etc. Todo mundo pode ser derrotado num ditado; é uma questão de escolher bem as palavras.

g) Linguistas sabem que frases como “Meu carro furou o pneu” são comuns em português e que não são ‘erros’ nem barbaridades nem sinais de que os falantes pensam mal. Uma boa hipótese é que haja tais construções no português do Brasil por influência de línguas africanas. Portanto, não são erros, são efeitos do contato entre línguas.

Linguistas sabem que as decisões sobre o que se aceita e o que não se aceita numa prova são decisões políticas

h) Linguistas sabem que as decisões sobre o que se aceita e o que não se aceita numa prova (uma frase como “meu carro furou o pneu” é ou não um erro numa redação do Enem?) são decisões políticas. Se a decisão for pela avaliação como erro, ele sabe sugerir como fazer para que alunos aprendam uma construção alternativa (“O pneu do carro furou”), o que não se consegue com exercícios nem com uma condenação com base em regra de gramática.

O país vive uma crise escolar. Ela se manifesta mais claramente na questão do ensino de português, até porque todos acham que sabem tudo sobre língua. Esta crise parece nova porque antigamente pouca gente ia à escola.

Quando há um problema com as plantas, chamam-se botânicos e engenheiros florestais. Quando há um problema “de zica”, chamam-se os médicos e os geneticistas. Mas quando há um problema com a escrita, não se chamam os linguistas: chamam-se jornalistas e donos de cursinhos. 

Assim não dá!!


Sírio Possenti
Departamento de Linguística
Universidade Estadual de Campinas

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