03 novembro 2015

Que raio de história!

Livro narra como o Brasil viu e estudou os raios e tempestades em diferentes períodos históricos

Em batalhas na Baía de Guanabara, ocorridas entre os séculos 16 e 18, muitas vezes as tempestades aumentavam o tumulto. Naquela época, acreditava-se que o barulho dos canhões espantava os raios. (imagem: Casa Geyer)

A quantos relatos da história do Brasil o leitor já teve acesso? Para além dos textos didáticos, muitas outras publicações já se dispuseram a contar o que se passou ao longo dos cinco séculos desde a chegada dos europeus por essas terras. Eis uma proposta de inovar nessa empreitada: o livro Brasil: que raio de história, do engenheiro eletricista Osmar Pinto Jr. e da jornalista Iara Cardoso, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), traz um relato inusitado da história do Brasil, apresentando diferentes episódios em que tempestades e raios foram protagonistas.

À primeira vista, parece pretensioso que um livro com pouco mais de 80 páginas conte 500 anos de história. Mas, ao longo da leitura, é fácil deixar de lado a preocupação com uma linha do tempo completa – que, afinal, já foi feita e refeita em tantas outras publicações – e se envolver com as curiosidades apresentadas.

Milhares de anos antes da chegada dos europeus, os índios que habitavam o Brasil já se relacionavam com esse fenômeno. Em sua maioria, as lendas que explicam a origem dos raios trazem referências a Tupã e muitas apresentam os trovões como uma manifestação de insatisfação dessa divindade. Também veio dos indígenas o mito de que “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”, persistente até hoje. Acreditando nisso, os índios guardavam pedaços de trocos de árvores carbonizadas por raios como poderosos amuletos de proteção.

Observatório dos jesuítas no antigo Morro do Castelo
Observatório dos jesuítas no antigo Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, onde foram realizadas as primeiras observações de raios no Brasil. (foto: Observatório Nacional)

Para os escravos trazidos da África, os raios também eram manifestações dos deuses, sabidamente Xangô, o deus do trovão, e Iansã, a senhora dos raios. Já os católicos portugueses trouxeram também sua contribuição religiosa para o tema: a figura de Santa Bárbara, protetora contra os raios – uma jovem egípcia do século 4 executada por seu próprio pai, a quem um raio fulminou pouco depois do assassinato.

O conto do rei medroso

Um dos episódios narrados na obra é o da viagem da comitiva da família real portuguesa ao Brasil, no início do século 19, fugindo das tropas invasoras de Napoleão Bonaparte. A corte veio disposta em 46 navios, que traziam, com o rei Dom João VI, cerca de 15 mil pessoas. Pouco depois de partir de Lisboa, a esquadra enfrentou uma grande tempestade, que causou náusea e pânico entre os passageiros. Depois do contratempo, embora a viagem tenha sido tranquila, os navios voltaram a ser atingidos por raios, sem grandes prejuízos.

Nunca saberemos se foi trauma desta viagem, ou de outro episódio da vida do monarca, mas Dom João VI notadamente tinha medo de raios e trovões. Há relatos de que, quando interrompido por uma tempestade, o rei isolava-se em seus aposentos, fechando as janelas, e cancelava todos os seus compromissos. Dizem até que, ao chegar ao Rio de Janeiro, Dom João queria instalar a família real no Mosteiro de São Bento, ideia da qual desistiu após a conversa com um monge que – obviamente com medo de perder a casa – explicou-lhe ser o monastério, por estar no alto de um morro, particularmente vulnerável às descargas elétricas.

As primeiras observações sistemáticas de tempestades no Brasil foram realizadas na década de 1850

Ao mesmo tempo, o monarca foi um grande incentivador das ciências, tendo fundado  instituições de pesquisa e atraído o trabalho de um grande número de cientistas, que realizaram diversas expedições exploratórias no Brasil, inclusive aquelas que deram início ao levantamento de informações sobre a incidência de raios no país.

Ciência em foco

As primeiras observações sistemáticas de tempestades no Brasil foram realizadas na década de 1850, no então Observatório Imperial (hoje Observatório Nacional), que, à época, localizava-se no Morro do Castelo, no Rio de Janeiro. Antes disso, padres jesuítas já haviam, no mesmo local, se dedicado à observação da luminosidade dos raios. Mas foi somente no final do século 19 que os estudos de raios e tempestades ganharam visibilidade junto ao público, em particular em relação à prevenção de acidentes meteorológicos.

Em 1887, uma grande tempestade no litoral do Rio Grande do Sul havia causado o naufrágio de um navio e a morte de 160 pessoas. O jovem estudante de engenharia Henrique Morize, responsável pela primeira fotografia de um raio no país, dois anos antes, foi o líder de uma pesquisa que buscou entender as condições meteorológicas que levaram ao fenômeno. Não por acaso, Morize tornou-se, mais tarde, diretor do Observatório, e hoje é considerado um dos pioneiros no estudo da eletricidade atmosférica no Brasil.

Primeira fotografia brasileira de um raio
Esta foi a primeira fotografia de um raio feita no Brasil, em 1885, pelo cientista Henrique Morize, que mais tarde se tornou diretor do Observatório Nacional. (foto: Observatório Nacional)

 

Durante a maior parte do século 20, no entanto, as pesquisas sobre raios não avançaram muito – um cenário que só mudou quando as descargas começaram a causar grandes prejuízos nas redes elétricas. Na década de 1970, portanto, houve uma retomada do interesse na pesquisa sobre o tema, voltada especialmente à proteção das redes. Nos anos que se seguiram, foram implantadas diferentes tecnologias de observação, incluindo um sistema de monitoramento em tempo real e, já na década de 1990, o lançamento de foguetes para a indução de raios, que permitiu a experimentação controlada sobre o fenômeno. Hoje, o Brasil possui a terceira maior rede de detecção de descargas atmosféricas do mundo, capaz de monitorar, em tempo real, a incidência de raios em todo o país.

Raios no Brasil
O Brasil registrou, de 2000 a 2014, uma média de 111 mortes anuais causadas por raios. O número poderia ser muito menor se a população tivesse acesso a informações sobre como se proteger durante as tempestades. (foto: ELAT / INPE / Fedrizzi Junior)

Divulgação científica e prevenção

Nos últimos 15 anos, o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Inpe, do qual os autores do livro fazem parte, desenvolveu um estudo sobre as mortes causadas por raios no Brasil. De 2000 a 2014, houve, em média, 111 mortes por ano relacionadas a acidentes deste tipo – um número que, segundo os especialistas, poderia ser 80% menor se as vítimas tivessem acesso a mais informações e regras básicas de proteção

Para reduzir o número de acidentes com raios no futuro, os autores apostam na importância da divulgação científica. Por isso, a pesquisa por eles realizada, antes de virar livro, tornou-se, em 2013, um documentário, Fragmentos de paixão, e uma série para a televisão, “País dos raios”, exibida no Fantástico.

Clique aqui para ler o texto que a CHC preparou sobre este tema.

Catarina Chagas
Instituto Ciência Hoje/ RJ

 
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