09 dezembro 2015

Oportunidade na adversidade

Biólogo argumenta que crise do financiamento da ciência pode fortalecer práticas de divulgação científica nas campanhas de ‘crowdfunding’.

As grandes plataformas de 'crowdfunding' começaram a aparecer no final da década de 2000 e financiavam projetos principalmente de arte e tecnologia. A ciência, aos poucos, vem se apropriando da ferramenta. (ilustração: adaptado de Rocío Lara/CC BY-SA 2.0)

A situação não está nada fácil para o financiamento da ciência no Brasil. Além dos cortes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do início do ano, recentemente houve o anúncio de mais um possível corte na verba do Ministério para 2016, que pode chegar a mais de 35% do total destinado à pasta. Assim como não é possível fazer ciência de qualidade sem verba, também não há como fazer divulgação científica sem dinheiro. Então, como a falta de dinheiro poderia ajudar a comunicação com um público mais amplo?

Um caminho interessante e já explorado por alguns grupos de pesquisa brasileiros é o crowdfunding ou financiamento coletivo. Em vez de seguir o ritual tradicional de pedido de financiamento de suas pesquisas – escrever um projeto e submeter a uma agência de fomento –, qualquer cientista pode solicitar apoio diretamente ao público. Isso representa, obviamente, um caminho para conseguir verbas, mas vai além. Embora juntar dinheiro continue sendo a meta principal, um dos impactos mais relevantes de uma campanha bem planejada é convencer o público de que certo projeto é importante e merece apoio.

Na hora de criar uma campanha de arrecadação, a primeira pergunta a responder é: “Como vou conseguir fazer as pessoas entenderem o que eu faço?”

Há uma trajetória específica a percorrer para conseguir isso. Na hora de criar uma campanha de arrecadação, a primeira pergunta a responder é: “Como vou conseguir fazer as pessoas entenderem o que eu faço?” Esta é uma questão secundária na submissão de projetos a agências de fomento – onde serão avaliados por outros cientistas conhecedores da área –, mas fundamental numa proposta de financiamento coletivo. 

Todo cientista deveria saber que é essencial tirar o conhecimento científico de dentro das universidades e divulgá-lo à população. Seguindo a lógica do financiamento tradicional da ciência, esse seria o último passo de um longo caminho: em geral, o cientista primeiro divulga seus dados em periódicos científicos especializados, e só depois pensa em como conseguirá tempo, dinheiro e motivação para divulgar sua pesquisa para o público em geral.

No financiamento coletivo de ciência, acontece o oposto: a pesquisa só se concretiza se for, primeiro, bem divulgada. Nesse caso, a divulgação científica permeia toda as etapas do processo de geração do conhecimento, desde a escolha do projeto, até a publicação final dos dados. Os projetos mais interessantes envolvem a criação de uma boa campanha, metas e, claro, a recompensa para os investidores. É desejável que o cientista converse com o público em cada etapa do projeto – assim, os financiadores acompanham em tempo real como a ciência é produzida.

Financiamento coletivo de projetos de pesquisa
Entre as possíveis maneiras de interagir com o público estão publicar relatos sobre a pesquisa em um blogue, gravar vídeos, fazer encontros online, pedir a opinião dos financiadores sobre os rumos da coleta de dados, anunciar resultados inéditos, convidar colaboradores para conhecerem o laboratório, entre outras iniciativas. (imagem: Reprodução/ Catarse.me)

Parece muito trabalhoso, e é mesmo. Mas pode trazer bons resultados. 

Para ir atrás do público

Alguns argumentariam que é mais fácil conseguir apoio do público em projetos mais “carismáticos” como a preservação de bichos cativantes – pandas ou golfinhos, por exemplo. Mas não é só pesquisa com esses animais que é contemplada com o financiamento coletivo. Uma das campanhas de maior sucesso no Brasil foi a do mexilhão-dourado, um molusco nada fofo. A criatividade e qualidade de texto, vídeo e todo material da campanha foram importantes para que a meta fosse atingida.

Outro projeto brasileiro que está longe dos bichos fofos foi criado pelo laboratório de Ecologia Quantitativa da Universidade Federal de Alagoas. A campanha “Ciência livre: ecologia e bioestatística para todos!”, com o objetivo de comprar equipamentos e desenvolver materiais didáticos e de divulgação sobre o tema, teve um total de 159 apoios e 79% da meta atingida, o que é surpreendente para um assunto tão específico.

Mas não é só a escolha do tema que tira o escorpião do bolso dos financiadores. Em artigo publicado em 2014 no periódico PLoS One, um grupo de cientistas analisou 159 projetos de ciência publicados na plataforma de crowdfunding Rockethub e a principal conclusão foi que a conquista do engajamento é a chave das campanhas de sucesso.

Presença nas redes sociais
Participação ativa nas redes sociais é um dos fatores que ajudam a engajar o público em projetos de pesquisa com financiamento coletivo. (imagem: Reprodução/ Facebook)

Para engajar pessoas, não basta um bom texto e vídeo no site do projeto. Participação ativa nas redes sociais, em grupos de emails e busca de contatos na imprensa são fatores de extrema relevância. Outros fatores que foram considerados potencialmente importantes pelos autores do artigo são envolvimento com museus e centros de ciência, realização de palestras públicas, artigos para jornais e criação de blogues e canais de vídeo. Tudo isso ajuda a criar uma verdadeira base de fãs, que será responsável tanto por ajudar diretamente no financiamento do projeto como por espalhar para amigos, familiares e centenas de contatos virtuais como a sua pesquisa é interessante e relevante.

Alguns exemplos concretos mostram também que o público pode contribuir para a ciência com bem mais que uma contribuição financeira. Um dos primeiros projetos de crowfunding de ciência no Brasil não foi criado por um cientista, e sim por três adolescentes do interior de Santa Catarina. Ao descobrirem que a cidade onde vivem estava em uma boa região para estudar a influência do Sol no campo magnético da Terra, resolveram mandar um projeto para a Nasa. Ganharam um radiotelescópio, mas não tinham dinheiro para pagar os impostos do equipamento – entrou aí o financiamento coletivo. O projeto Alexa fez sucesso e atingiu mais que o dobro de sua meta original.

O recente projeto do grupo Protomatos foi outra iniciativa bem sucedida. Pessoas de todo o país ajudaram a pagar os custos de compra de material e da viagem de um grupo interdisciplinar de alunos da Universidade de São Paulo para participar de uma competição internacional de biologia sintética.

 

Controle de qualidade

Uma das principais críticas a essa forma de se financiar ciência é que ela não garante a validade científica dos projetos. Como não há um sistema de revisão por pares, algumas iniciativas baseadas em ideias controversas podem ser financiadas, o que seria mais difícil em agências de fomento tradicionais. Plataformas de crowdfunding específicas para projetos de ciência como o Experiment estão tentando novas formas de atacar esse problema, compondo uma espécie de banca formada por especialistas na área de conhecimento do projeto para autorizar sua publicação na plataforma. O cientista precisa também provar que tem capacidade e recursos além do financiamento coletivo para realizar de forma efetiva o projeto.

Projetos financiados por crowdfunding que acabam não virando realidade também podem se tornar uma preocupação, principalmente na modalidade “flexível”, onde, mesmo não atingindo a meta de orçamento, o responsável pelo projeto fica com o dinheiro doado. Várias campanhas recentes tiveram problemas dessa linha e uma das grandes plataformas de crowdfunding se pronunciou sobre o tema.

Embora o crowdfunding sozinho não possa financiar a ciência de um país, em uma situação de crise, qualquer aumento de caixa por um caminho novo pode ajudar. Acredito que a comunidade científica brasileira tem muito a ganhar se agarrar essa possibilidade não só de conseguir verba, mas de envolver o público em seus projetos. Como disse o biólogo Jai Ranganathan, cofundador do portal #SciFund Challenge, “um mundo com cientistas mais próximos da sociedade seria melhor. E o financiamento coletivo pode nos ajudar a conseguir isso”.

 

Luiz Bento
Museu Ciência e Vida
Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj)
Autor do blogue Discutindo ecologia

 
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