23 março 2016

Gosto em segundo lugar

Prazer não é o principal motivo que leva nosso cérebro a pedir açúcar. O gosto por doces é, antes disso, um mecanismo para garantir a ingestão dos nutrientes responsáveis pela geração de energia no sistema nervoso.

Segundo pesquisa, independentemente do prazer que sentimos ao saborear uma sobremesa, nosso corpo dá sinais de que precisa ingerir açúcar.(foto: Domínio público/Pixabay)

Ah, o açúcar! Vilão das dietas, amigo dos quilos a mais e muito presente na vida do ser humano. Onde quer que estejamos, os doces atraem nossos olhos por sua beleza e fazem a boca ficar molhada. Há quem pense que o prazer de comer algo muito gostoso é o principal motivo para consumirmos açúcar. Mas não é bem assim, de acordo com uma pesquisa realizada na Universidade Yale, nos Estados Unidos. Segundo o estudo, nossa paixão pelo sabor doce tem, mais do que com o agrado ao paladar, a ver com a busca por nutrientes vitais.

Um grupo de cientistas, liderado pelo neurologista brasileiro Ivan de Araújo, demonstrou que a percepção do prazer (hedônica) e a da nutrição se dão por vias diferentes do sistema nervoso. Isto é, independentemente do prazer que sentimos ao saborear uma sobremesa, nosso organismo sinaliza a necessidade de comer açúcar. O trabalho foi publicado na revista Nature Neuroscience.

Já se sabia da existência das duas diferentes formas, hedônica e nutricional, de estímulo do consumo dos alimentos, mas o estudo descreve sua ocorrência em locais distintos do estriado, uma região do sistema nervoso que é fundamental para o processamento de recompensas. A porção inferior do sistema, conhecida como estriado ventral, possibilita a percepção do prazer proporcionada pelo sabor doce, enquanto a superior, chamada de estriado dorsal, é responsável por reconhecer o valor calórico e nutricional dos alimentos. A pesquisa mostra que os vertebrados preferem comer algo com gosto menos agradável se o alimento em questão for mais nutritivo, e que a capacidade de distinguir entre paladar e valor nutricional se deve às funções complementares desempenhadas pelas duas partes do estriado. 

 A pesquisa mostra que os vertebrados preferem comer algo com gosto menos agradável se o alimento em questão for mais nutritivo

Para testar se as duas regiões cerebrais agiam em conjunto ou separadamente, a equipe realizou experimentos com camundongos, que sorviam de bebedouros duas soluções diferentes, uma de sabor doce (sucralose), e a outra amarga, de sabor aversivo (contendo benzoato de denatônio), ambas sem calorias. Para dissociar o sabor e o prazer do valor nutricional, os pesquisadores injetavam açúcar no estômago dos roedores.

Supreendentemente, a solução doce não fez tanto sucesso. Segundo o professor Ivan de Araújo, quando há informações contraditórias – sabor desagradável e infusão de açúcar intragástrico ou sabor agradável sem nenhuma infusão -, a reação do circuito dorsal se sobrepõe. “Descobrimos que os animais preferem consumir a solução amarga quando pareada com açúcar intragástrico, em vez da solução doce sem valor nutricional”, conta ele.

Dopamina no circuito

O estudo avaliou, a partir de técnicas de estímulo e inativação de neurônios das duas regiões (ventral e dorsal), a liberação de dopamina – o neurotransmissor ligado à sensação de prazer – no cérebro dos roedores após o consumo das soluções. Os resultados mostraram que há mais circulação de dopamina no circuito ventral (função hedônica) quando os camundongos ingerem a bebida doce, por ter o gosto mais agradável. A liberação de dopamina no circuito dorsal, por outro lado, depende do valor nutricional do alimento consumido, independentemente do sabor ser agradável ou não. 

Trata-se de uma solução da natureza para assegurar os níveis de energia necessários para o funcionamento do cérebro: como também são responsáveis por regular movimentos do corpo, neurônios dopaminérgicos, que carregam a dopamina, geram comportamento ingestivo quando os nutrientes corretos são ingeridos, mesmo que não haja estímulo ao paladar. Assegura-se, desta forma, o início do processo de busca por estes nutrientes.

Para os autores do artigo, a existência de uma área do cérebro estimulada pelo valor nutricional dos alimentos, presente em diversas espécies animais, é uma importante ferramenta evolutiva

Para os autores do artigo, a existência de uma área do cérebro especializada em detectar o valor nutricional dos alimentos, presente em diversas espécies animais, é uma importante ferramenta evolutiva. “Os estoques de glicose, principal fonte de energia do sistema nervoso, são relativamente baixos no organismo se comparados à gordura, por exemplo”, ressalta Araújo.  

Ainda não foram feitos testes em humanos, por conta da dificuldade de controlar as condições experimentais, mas os pesquisadores acreditam que o cérebro de nossa espécie atue da mesma maneira. “O sistema estriado é bem desenvolvido evolutivamente [nos animais]. Dados da literatura médica mostram que até invertebrados, como moscas alteradas geneticamente para não sentirem o sabor doce, possuem o mesmo mecanismo. Se as moscas e os camundongos têm, provavelmente os humanos também”, explica a neurobióloga Tatiana Lima Ferreira, do Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC, colaboradora do estudo.

Tendência evolutiva

“O estudo identifica a predominância dos circuitos de valor calórico aos de valor hedônico. Se a tendência for verificada em humanos, será mais uma confirmação da nossa tendência evolutiva de buscar nutrientes que possibilitam ao corpo armazenar energia”, comenta a neurocientista Penha Cristina Barradas, do Laboratório de Neurobiologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “Os seres vivos, em geral, são programados para aproveitar o máximo possível do alimento, guardando energia para órgãos nobres (como o cérebro) e momentos de maior necessidade”, destaca a neurocientista.

João Paulo Rossini
Instituto Ciência Hoje/RJ

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