06 abril 2016

Além das palavras

Pesquisadores da USP elaboraram lista de gestos, posturas e outras pistas visuais que podem auxiliar o médico na avaliação dos pacientes e diagnóstico da depressão.

Falta de sorrisos e contato ocular, como sugere o quadro ‘Melancolia’, do pintor norueguês Edvard Munch, podem sugerir doenças mentais. (Imagem: domínio público)

No consultório psiquiátrico, apenas uma parte das informações é verbalizada pelos pacientes. Outra tem a ver com o olhar do médico: uma avaliação de gestos, posturas e outros sinais que podem ajudar a compreender o estado de saúde mental em que uma pessoa se encontra. Uma proposta de sistematização desse ‘olho clínico’ foi apresentada por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), que elaboraram um checklist de posturas, gestos e expressões típicos de pacientes com depressão.

O estudo foi realizado no Hospital das Clínicas e no Hospital Universitário, ambos ligados à USP, sob a supervisão da farmacologista Clarice Gorenstein. Em vez de seguirem apenas o protocolo corrente de diagnóstico de depressão, baseado em perguntas e respostas, avaliadores preencheram um formulário detalhado sobre as expressões faciais e corporais dos pacientes durante entrevistas clínicas. As entrevistas também foram filmadas, para análise objetiva do comportamento dos pacientes.

 “Elaboramos uma lista de comportamentos corporais favoráveis ou não ao contato social para analisar os pacientes, além de fazer as perguntas padrão”, relata a pesquisadora e psicóloga Juliana Teixeira Fiquer, que realizou seu pós-doutorado com o estudo. “Sinais como inclinar o corpo para frente na direção do entrevistador, ou encolher os ombros, fazer movimentos afirmativos ou negativos com a cabeça, fazer contato ocular ou não, rir ou chorar são alguns dos 22 comportamentos que selecionamos”, exemplifica.

O novo protocolo foi aplicado a dois grupos, o primeiro formado por 100 pessoas previamente diagnosticadas com depressão e o segundo, por 83 indivíduos sem o distúrbio, que compuseram o grupo controle. Todos passaram por entrevistas de 15 minutos, nas quais tiveram seu comportamento filmado. Em seguida, avaliadores treinados para detectar os padrões corporais selecionados pelos pesquisadores registraram a frequência dos comportamentos em um trecho de cinco minutos de cada vídeo.

Os avaliadores não foram informados sobre o objetivo da análise das expressões não-verbais nem sobre o estado de saúde mental de cada paciente – isso garantiu que a observação de gestos, posturas e outros sinais fosse o mais isenta possível. Cada paciente recebeu, então, escores de 0 a 10, a partir da quantidade de repetições de cada comportamento.

Pacientes com depressão evitaram mais o contato ocular, choraram mais e sorriram menos que os participantes do grupo controle

Se comparados ao grupo controle, os pacientes com depressão atingiram escores mais altos em comportamentos sugestivos de desinteresse social, isolamento e afetos negativos – característicos da depressão. Por exemplo, pacientes com depressão evitaram mais o contato ocular, choraram mais e sorriram menos que os participantes do grupo controle.

Para avaliar a eficácia do novo método diagnóstico, os dados obtidos na análise das expressões não verbais foram comparados aos resultados obtidos por cada participante nos testes tradicionais de diagnóstico da depressão. As duas metodologias obtiveram resultados concordantes, o que indica que a observação de parâmetros não verbais pode ser um bom teste complementar aos questionários tradicionais.

Acompanhamento

Depois da entrevista inicial e ao longo de pelo menos oito semanas, cada paciente com depressão foi tratado com medicações indicadas – especificamente o cloridrato de sertralina e o escitalopram, que aumentam a disponibilidade de serotonina no cérebro e aliviam sintomas depressivos e de ansiedade – e, em alguns casos, com estimulação transcraniana de corrente contínua – método que utiliza eletrodos para gerar uma corrente de baixa intensidade no córtex cerebral e restabelecer o funcionamento normal dos neurônios. Esse acompanhamento permitiu verificar se, após o tratamento, os pacientes mudavam seu comportamento expressivo não-verbal.

Fiquer contou à CH Online que todos os pacientes do grupo com depressão tiveram melhora nos parâmetros sugestivos de contato social. “Os pacientes mostraram, após o período de tratamento, um aumento no contato ocular com o entrevistador, além de sorrir mais e demonstrar avanços em relação a outros comportamentos sugestivos de interesse social”, relata.

“Queremos criar um método científico que considere aquilo que até então é colocado no território das impressões no diagnóstico da depressão”

Para a pesquisadora, o trabalho representa um passo importante na sinalização de que informações emocionais relevantes são transmitidas no contato interpessoal entre clínico e paciente, que até então eram atribuídas exclusivamente à subjetividade do médico na hora de fazer o diagnóstico. “Queremos criar um método científico que considere aquilo que até então é colocado no território das impressões no diagnóstico da depressão”, conta. 

O psiquiatra e psicanalista Elie Cheniaux, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sugere que a linguagem não verbal é uma ferramenta importante para mensurar a tristeza, que é um dos componentes da depressão, mas não a única. “A linguagem não verbal não dá uma visão global do quadro do paciente”, argumenta.

João Paulo Rossini
Instituto Ciência Hoje/RJ

 
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