31 agosto 2011

Ensino em dia, pesquisa madura

Estudo conduzido nos Estados Unidos mostra que estudante que também ensina desenvolve boas habilidades para gerar hipóteses e realizar experimentos. Pesquisadores/professores no Brasil também valorizam a dupla atuação.

Melhor desenvoltura na escrita e na defesa de teses e capacidade de rever conceitos são algumas das qualidades mais comuns em professores-pesquisadores do que nos que só se dedicam à pesquisa. (foto: Jade Gordon/ sxc.hu)

Alvo de discussão recorrente entre acadêmicos e estudantes, a dobradinha ensino/pesquisa foi o foco de artigo publicado recentemente na revista Science (19/8). Os autores do estudo, dos departamentos de educação de diversas universidades dos Estados Unidos, analisaram propostas de pesquisa de 95 alunos recém-integrados a cursos de pós-graduação em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (campo de conhecimento agregado na sigla STEM, em inglês), em três estados daquele país. 

Alguns deles se dedicavam apenas à pesquisa. Outros se dividiam entre ela e as atividades em sala de aula – tanto em cursos de graduação quanto de ensino médio. A partir de diversos critérios e análises estatísticas, os autores avaliaram a qualidade dos projetos em dois momentos do ano letivo. A conclusão foi: “Estudantes que ensinavam e conduziam pesquisas demonstraram significativo amadurecimento em suas habilidades para gerar hipóteses e realizar experimentos”. 

Estudo comprovou o que defensores da sala de aula já defendem há tempos: lecionar ajuda a desenvolver qualidades de pesquisa

O resultado não surpreende aqueles que batem na tecla da importância do ensino para a carreira acadêmica. “Há anos formando gente, observo que quem tem prática de sala de aula tem menos dificuldade na hora da redação e da defesa da tese, por exemplo”, diz o nosso colunista Carlos Alberto dos Santos, físico e professor visitante da Universidade Federal da Integração Latino Americana. 

“Mas essas constatações são sempre num universo muito pequeno”, pondera. Esse artigo é importante por fazer uma avaliação sistêmica; é interessante sair numa revista como a Science, porque mostra que a discussão está no mundo todo.”

Santos cita ainda a necessidade de se mobilizar recursos financeiros para essa área na universidade. Conforme apontado por outro estudo publicado na Science no começo do ano (que rendeu bastante discussão em matéria na CH On-line), a publicação de trabalhos em revistas científicas e a participação em congressos são itens mais valorizados no Currículo Lattes do que o ensino universitário, a divulgação científica e a orientação de alunos. 

‘Buracos’ conceituais

Outro veterano defensor do ensino, o professor Leopoldo de Meis, do Instituto de Bioquímica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ficou entusiasmado com os resultados do estudo. Mas lamenta que, na realidade brasileira, o magistério é muitas vezes desvalorizado pelos estudantes: “Os alunos-professores que têm dificuldade de se expressar se intimidam com a sala de aula. Assim, passam a achar que o ensino atrapalha, ao invés de ajudar a pesquisa”.

Pesquisador em laboratório
Sistema acadêmico brasileiro não favorece em nada o acúmulo de atividades de pesquisa e ensino. Uma boa saída é o oferecimento de bolsas para os alunos dispostos a lecionar. (foto: Jean Scheijen/ sxc.hu)

A experiência de Vivian Rumjanek, do mesmo departamento, vai de encontro à dos críticos à rotina dupla. “Muitas vezes atingimos um grau de ‘especialização’ em que nem ao menos nos damos conta de certos ‘buracos’ conceituais que ficam pelo caminho. Ao ensinar, temos que voltar e repensar.”

Cobrança não é a solução

Keila Grinberg, colunista da CH On-line e coordenadora da pós-graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, acha que em sua área o trabalho do professor é mais valorizado do que nas ciências exatas. Mas observa que a incidência de pesquisas que tratam de metodologia de ensino é maior, por exemplo, na matemática. 

Ensino ajuda na formação de uma rede de contatos e na busca de futuros empregos

“Há algumas ações conjuntas da Capes e do CNPq para ampliar a possibilidade de estudantes acumularem bolsa de pós-graduação com sua atividade como professores, mas em geral o sistema não favorece em nada o acúmulo de atividades”, diz a historiadora, para quem o ensino ajuda na formação de uma rede de contatos e até na busca de futuros empregos. 

Apesar de ser entusiasta da sala de aula, Grinberg não acha que a cobrança é a melhor saída. “Dar aula exige mesmo muito investimento. O ideal é estimular adesões espontâneas, de preferência com oferecimento de bolsa específica para essa atividade.”


Helena Aragão
Ciência Hoje On-line

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