04 abril 2015

As muitas vidas de Murilo Mendes

Reedição da obra – prosa e poesia – de Murilo Mendes é saudada como uma imensa contribuição cultural em resenha no sobreCultura. Os livros dão mostra do percurso singular desse poeta múltiplo e conciliador de contrários.

Retrato de Murilo Mendes (1930), de Alberto Guignard. (imagem: Museu de Arte Murilo Mendes)

No conhecido livro Por que ler os clássicos, o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) propõe que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Nessa acepção, não há dúvida: a obra de Murilo Mendes (1901-1975) – poesia e prosa – constitui um clássico da literatura brasileira. Poderíamos recorrer a outras tantas definições com igual resultado, mas esta interessa especialmente por realçar que, longe do sentido que liga o clássico a um cânone estático, anquilosado, Murilo Mendes é um clássico justamente por estar cada dia mais vivo, oferecendo-se a cada geração, desde a estreia em 1930, como um possível contemporâneo.

A reedição de sua obra, agora, pela editora Cosac Naify, mais de uma década após o último projeto editorial dedicado a seus livros – cinco títulos lançados em 2001 pela editora Record para comemorar o centenário do poeta –, só pode ser saudada como uma imensa contribuição cultural, mais ainda considerando o time de organizadores e ensaístas convocado, que enriquece o empreendimento atual.

Não deve ter sido tarefa fácil chegar a tal apanhado enxuto, mas a Antologia certamente oferece justa ideia sobre o percurso singular do poeta

Integram esse time Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura, dois dos maiores estudiosos do poeta, responsáveis pela seleção da presente Antologia poética. Organizada com critério cronológico e seguindo o texto das últimas edições em vida do autor, a compilação traz 142 poemas, extraídos de todos os livros de Murilo, inclusive os póstumos. Não deve ter sido tarefa fácil chegar a tal apanhado enxuto, mas a Antologia certamente oferece justa ideia sobre o percurso singular do poeta.

Significativamente, já que Murilo Mendes se dizia um ser “obsedado pelo Alfa e o Ômega”, a editora lança também o livro de estreia de Mendes (Poemas, 1930) e o último volume de poesia, em português, que publicou em vida (Convergência, 1970). Esses dois livros permitem acompanhar momentos fundamentais da trajetória do autor, do modernismo do primeiro tempo – com “aproveitamento convincente de lição surrealista”, como apontou à época o escritor Mário de Andrade (1893-1945) – ao experimentalismo construtivista no livro derradeiro.

Nesse arco temporal, atravessado desde sempre pela inquietação espiritual, em especial a partir de sua conversão ao catolicismo, em 1934, revela-se uma escrita marcada pela radicalidade, o que levou Haroldo de Campos (1929-2003) a declará-lo “um poeta inexoravelmente de vanguarda”. Ou, como escreve Castañon Guimarães no posfácio de Convergência, comentando tal percurso: “O contexto é outro, os dados são outros, mas o espírito inaugural é similar”.

Livros de Murilo Mendes
À esquerda, capa do livro de estreia de Murilo Mendes: ‘Poemas’, de 1930. À direita, o último volume de poesia, em português, que publicou em vida: ‘Convergência’, de 1970.

Faz parte ainda do rol dos lançamentos a prosa memorialística A idade do serrote (1968), em que o poeta visita os tempos da infância e adolescência em Juiz de Fora (MG) e revive personagens saborosos – Rainha do Sabão, Isidoro da Flauta, Sebastiana, Marruzko e outros – com humor peculiar e extensa carga afetiva.

Múltiplo, polêmico giróvago

“Pertenço à categoria não muito numerosa dos que se interessam igualmente pelo finito e pelo infinito. Atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentido de qualquer fato, a diversidade dos caracteres e temperamentos, as dissonâncias da história”, escreveu Murilo Mendes em uma ‘Microdefinição do autor’. O fragmento deixa ver a complexidade desse poeta, “conciliador de contrários”, como sintetizou o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) em poema que lhe dedicou.

Em Murilo, a espiritualidade é habitada de erotismo (“pernas rompendo a penumbra, sovacos mornos,/ seios decotados não me deixam ver a cruz”, em ‘O poeta na igreja’); o profano casa-se ao sagrado, o prosaico ao erudito, o raro ao cotidiano. Fundem-se o concreto e o abstrato, o visível e o invisível, a ordem e a desordem, inspiração e estrutura, a circunstância e o eterno. A convicção religiosa, que via no catolicismo “força violenta destinada a subverter a nossa tranquilidade e as próprias bases do mundo físico” – em tudo distante, portanto, da carolice com que o taxaram alguns de seus contemporâneos – incorpora permanente preocupação social. Os poemas escritos durante a Segunda Guerra Mundial vêm impregnados do ruído das bombas, como muitos outros que lhes seguem, em que se insurge contra a vocação humana à destruição. “Não abençoes a espada”, ordena, em ‘O padre cego’.

Mendes: “Atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentido de qualquer fato, a diversidade dos caracteres e temperamentos, as dissonâncias da história”

A poesia, para Murilo, tem papel civilizatório, de contraponto à barbárie. Ele a crê capaz de efetuar a “transfiguração da condição humana, elevando-nos a um nível espiritual mais alto”. No artigo ‘A poesia e o nosso tempo’, publicado originalmente no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, em 1959, e reproduzido na Antologia poética, enfatiza que a poesia é uma “chave do conhecimento, com a ciência, a arte ou a religião”.

Ao mudar-se, em 1957, para Roma, onde viveu até sua morte, em 1975, Murilo já contava com uma obra poética consolidada. Durante a estada europeia, além de A idade do serrote, compôs outros livros em prosa, como Poliedro, Carta geográfica, Espaço espanhol, Retratos-relâmpago e Janelas verdes. Escreveu ainda numerosos artigos sobre artes plásticas, reunidos em A invenção do finito. Produção de farta inventividade que também mereceria integrar o projeto de reedição.

O afastamento da cena brasileira, nos últimos anos, contribuiu para que sua obra pouco circulasse no país. No artigo publicado no Jornal do Brasil, preparado por ocasião da reedição de sua obra completa até então (Poesias, José Olympio, 1959), ele dizia que esperava que a iniciativa o tornasse mais conhecido da “atual geração brasileira”, que não tinha acesso a seus livros, então esgotados há muitos anos.

Hoje, objeto de algumas dezenas de estudos universitários, a obra de Murilo continua, porém, pouco conhecida dos leitores. Aos que atribuem o fato ao hermetismo de sua poesia, ele próprio respondeu que “toda poesia válida é num certo sentido hermética”. A reedição atual poderá dar-lhe nova vida, comprovando que “nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” e que, justamente por ter sido profundamente do seu tempo, é que sua poesia tem sido sempre capaz de ultrapassá-lo.

Sheila Kaplan
Programa Nacional de Apoio a Pesquisadores Residentes
Fundação Biblioteca Nacional
Autora de ‘Murilo Mendes – poeta colecionador’, tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras da PUC-Rio em 2009

Texto originalmente publicado no sobreCultura 18 (jan/fev 2015).

Tags:
COMPARTILHAR