12 agosto 2015

Três versões de Alice

O sobreCultura de agosto aborda a famosa obra de Lewis Carroll, que completa 150 anos em 2015.

Publicado pela primeira vez em 1865, 'Alice no País das Maravilhas' foi originalmente ilustrado pelo caricaturista John Tenniel. (imagem: Wikimedia Commons)

Em 1862, durante um passeio de barco em Oxford, Inglaterra, Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) contou a estranha aventura de Alice para três menininhas, uma delas Alice Liddell, que emprestou o seu nome à heroína da história. Mais tarde, a pedido da menina Alice, Carroll passou para o papel essa história, sob o título Alice no País das Maravilhas, que foi lançada em livro, ilustrado pelo caricaturista John Tenniel, no Natal de 1865. Logo tornou-se um clássico.

Ao longo dos anos, Alice ganhou muitas adaptações, desde as ‘simplificadas’, para crianças – como se o livro não tivesse sido escrito a pedido de uma criança, a própria Alice Liddell –, até versões muito mais enigmáticas e soturnas, para outro tipo de leitor. Destacarei aqui três adaptações de Alice, uma feita pelo próprio Lewis Carroll, outra de um autor anônimo, e uma terceira, a mais recente delas, para o cinema, assinada pelo cineasta tcheco Jan Svankmajer.

 

No jardim de infância

Em 1890, Carroll decidiu recontar Alice para crianças de zero a cinco anos, ainda não alfabetizadas, cujo contato com o livro seria, por conta disso, intermediado por pais, professores etc. Essa versão foi intitulada pelo autor de The nursery Alice (Alice no jardim de infância, título adotado pela primeira tradução em português, assinada por Sérgio Medeiros e publicada pela Iluminuras em 2013). Uma versão muito mais curta do que o livro original, Alice no jardim de infância inclui as ilustrações originais, mas desta vez colorizadas. Consta, em uma das biografias de Carroll, que ele teria achado inicialmente as cores muito berrantes, mas, ao mesmo tempo, considerou que as crianças apreciariam essas ilustrações chamativas.

Alice Liddel
Alice Liddel, fotografada aqui pelo próprio Lewis Carrol, emprestou seu nome à protagonista da história. Foi a pedido dela que o autor passou a narrativa para o papel. (foto: Wikimedia Commons)

Em quase todas as páginas de Alice no jardim de infância, o autor faz texto e ilustração dialogarem intimamente, até mais do que na versão de 1865: ele chama a atenção do leitor, por exemplo, para as cores – “Você há de concordar comigo que Alice está muito bonita nadando nessa ilustração, não é mesmo? Você pode ver as meias azuis lá embaixo na água” –, e também para os detalhes que enfatizam o caráter grotesco e onírico da história – “E agora olhe para o sorriso dela [Duquesa]! É maior do que a cabeça da Alice, e você só está vendo a metade dele!”

Em Alice no jardim de infância, há passagens em que Carroll deixa, contudo, a história da Alice de lado, para narrar casos inéditos, ‘impulsionado’ certamente pelo diálogo virtual com os ouvintes de pouca idade. Isso acontece, por exemplo, quando ele decide contar a história de um cãozinho chamado Colisão, que não aparece em Alice no País das Maravilhas.

Nessa versão, Carroll parece particularmente empenhado em mostrar às crianças como se envolver performaticamente com o livro, folheando­-o, dobrando­-o, amarrotando­-o: “O Coelho sabia que se ele a fizesse esperar ela [a Duquesa] ficaria furiosa com ele. Por isso o pobre coitado estava muito, muito assustado. (Você não percebe o quanto ele está trêmulo? Basta mexer o livro para cima e para baixo que você imediatamente o verá tremer.)”.

Certas passagens ambíguas de Alice são clarificadas por Carroll nessa nova obra, sem que a aventura perca o apelo e o encanto: “A toca era exatamente como um poço muito profundo, mas sem água. Se alguém realmente caísse nele, provavelmente não iria resistir: mas você já percebeu que uma queda num sonho não provoca nenhum ferimento, porque enquanto você sente que está caindo, você está deitado em outro lugar, são e salvo, e profundamente adormecido!”.

Lewis Carroll toma o cuidado, porém, de não explicar demais, mantendo assim as características nonsense do livro e estimulando a criança a aceitar as situações absurdas. Carroll era um escritor talentoso demais para cair na cilada de rechear Alice no jardim de infância com ensinamentos politicamente corretos.

Na terra de Carroll

Das inúmeras adaptações de Alice assinadas por outros escritores, que surgiram no século 20, nenhuma talvez tenha sido tão bem-sucedida quanto a que foi publicada na Inglaterra em 1903, pela editora Macmillan & Co. Ltda. Não sem razão, na terra de Carroll, ela se tornou à sua maneira um clássico e agora sairá pela primeira vez em português, pela editora Rafael Copetti Editor, em uma tradução integral assinada por mim.

Das inúmeras adaptações de Alice assinadas por outros escritores, talvez a mais  bem-sucedida seja a publicada na Inglaterra em 1903, pela editora Macmillan & Co. Ltda

Nessa adaptação, de cujo autor nada se sabe, o leitor encontrará todos os personagens e as cenas do romance original, embora em uma narrativa bem menor. A sua importância está em oferecer ao leitor de todas as idades, crianças e adultos, os aspectos mais importantes do romance, sem diminuir – e isso é notável – o seu caráter nonsense, não se afastando, portanto, da proposta original do livro, nem procurando explicar situações naturalmente inexplicáveis. Ao condensar o enredo, contudo, torna­-o mais ágil para os leitores iniciantes e para aqueles adultos que ainda se sentem, em algum grau, ‘desconfortáveis’ com Alice.

As ilustrações são aquelas célebres, assinadas por Sir John Tenniel; no entanto, nessa adaptação, pela primeira vez Alice aparece com um vestido vermelho em vez do famoso vestido amarelo que Carroll acrescentara à sua própria adaptação da obra.

 

Na grande tela

Alice chegou ao cinema, porém vou me limitar a comentar a versão que mais me agrada, a do diretor tcheco Jan Svankmajer, de 1988, a qual combina técnicas de animação com a atuação de uma atriz mirim, Kristyna Kohoutova, o que, num primeiro momento, pode levar o espectador a associar o filme diretamente ao público infantil. Esse, porém, não é o caso dessa adaptação cinematográfica, que, do enredo original de Carroll, ressaltou o seu aspecto onírico, explorando o que nele tem de mais sombrio e apavorante.

Confira um trecho (assustador, é bom avisar):

No filme de Svankmajer, Alice não é mais uma inocente garotinha (tal como ela foi retratada originalmente por John Tenniel) que se vê de repente sozinha num mundo que não segue mais as regras de convivência social. Nessa adaptação, Alice é um ser enigmático e se revela, aos poucos, tão ou mais apavorante do que os outros personagens desse estranho País das Maravilhas.

Outro personagem de Alice, o Coelho Branco, que na versão original parece mais assustado do que assustador, no filme de Svankmajer é tão ameaçador quanto a Rainha de Copas, e está sempre carregando facas, tesouras, alfinetes. Nesse pesadelo tcheco, que certa mente paga tributo a Franz Kafka, o espectador não encontra nenhum momento de conforto, ao contrário do que acontece com o leitor de Alice, de Carroll, que sempre tem motivos para sorrir, mesmo quando ele se depara com personagens absolutamente agressivos, como são o Grifo, a Lagarta etc.

De fato, a história de Alice se proliferou, ganhou versões para todos os gostos. O que prova que continua viva até hoje.

 

Este artigo foi originalmente publicado no sobreCultura 20, de agosto de 2015. Clique aqui para acessar o suplemento na íntegra e ler os outros textos da edição.


Dirce Waltrick do Amarante
Departamento de Artes e Libras,
Universidade Federal de Santa Catarina.

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