07 janeiro 2011

A segunda revolução das pílulas

Pesquisas já mostraram que o ciclo menstrual influencia a sexualidade humana. Mas será que o uso de pílulas anticoncepcionais, que atuam diretamente sobre esse ciclo, pode afetar a seleção de parceiros? Jerry Borges levanta a questão.

As pílulas anticoncepcionais, amplamente disseminadas desde a década de 1970, trouxeram vários benefícios para as mulheres, apesar de alguns riscos associados ao seu consumo. (foto: Wikimedia Commons – CC BY NC 2.0)

O emprego de métodos contraceptivos modernos, principalmente as pílulas anticoncepcionais, amplamente disseminadas desde a década de 1970, é responsável por uma grande revolução para a humanidade, pois reduziu o número de gestações indesejadas e o total de mortes maternas.

Desde a sua adoção, esse método contraceptivo tem permitido às mulheres um controle sobre a sua fertilidade e a possibilidade de ter, de forma segura, um número maior de parceiros sexuais.

As pílulas anticoncepcionais também tornaram possível controlar a taxa de natalidade da população, programar melhor as gestações e mesmo interromper, de forma relativamente simples, o ciclo reprodutivo feminino.

O uso disseminado de pílulas anticoncepcionais também tem sido responsável por elevar o nível de escolaridade feminina

Cientistas sociais consideram que o uso disseminado de pílulas anticoncepcionais também tem sido responsável por elevar o nível de escolaridade feminina, contribuindo, assim, para o crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho.

Além disso, o uso de pílulas anticoncepcionais traz benefícios à saúde feminina, pois diminui os riscos de câncer ovariano em cerca de 40% e os de câncer no endométrio em torno de 50%.

Por outro lado, existem alguns riscos associados ao consumo de anticoncepcionais orais. O seu emprego frequente pode aumentar os riscos de câncer de mama e, quando associado com o fumo (principalmente em mulheres jovens), pode elevar as ocorrências de doenças cardiovasculares.

Contudo, deve-se considerar que esses riscos são pouco significativos perto dos benefícios proporcionados pelo uso das pílulas anticoncepcionais.

Ciclo menstrual e sexualidade humana

Apesar da ampla disseminação do uso das pílulas e do número expressivo de estudos sobre seus efeitos sociais e colaterais, os impactos potenciais psicológicos e comportamentais desses medicamentos ainda não foram testados de forma ampla e profunda.

No entanto, pesquisas recentes lançam luz sobre as influências do ciclo menstrual na sexualidade humana e indicam que o uso de pílulas anticoncepcionais pode influenciar de forma surpreendente alguns aspectos da vida de suas usuárias e mesmo de seus parceiros sexuais.

Ciclo menstrual
Esquema do ciclo menstrual. Os hormônios folículo estimulante e luteinizante produzidos na hipófise controlam e, ao mesmo tempo, são influenciados pelos hormônios ovarianos progesterona e estradiol. Os contraceptivos orais alteram esse balanço hormonal natural.

Análises indicam que o período fértil induz modificações físicas sutis na face, no odor e no timbre de voz da mulher. Durante esse período, as mulheres tendem a se preocupar mais com a aparência, buscando se tornar mais atraentes. Até as suas fantasias sexuais, em geral, aumentam. Supõe-se que, dessa forma, a natureza estaria dando uma ajuda na reprodução de nossa espécie.

Pesquisas em que voluntárias avaliaram o grau de atratividade masculina a partir de fotos de desconhecidos, manipuladas ou não por ferramentas computacionais, indicam que a escolha de parceiros também varia de acordo com a fase do ciclo menstrual da mulher.

As mulheres preferem parceiros com características mais masculinas, de aspecto mais simétrico e menos relacionados geneticamente com elas durante a fase fértil de seus ciclos menstruais (em torno do 14º dia após a menstruação). Em outras fases, contudo, elas elegem parceiros com características masculinas menos marcantes. (Leia outra coluna em que o tema é explorado)

Essas características masculinas são consideradas pelos estudiosos do assunto um sinal do bem-estar genético e da saúde reprodutiva humana. Portanto, haveria, durante o período fértil feminino, uma preferência entre as mulheres por parceiros que oferecem maiores benefícios genéticos, ao contrário do que ocorre nas outras fases do ciclo, quando há uma predileção por parceiros menos avantajados geneticamente, mas que possam, por outro lado, ser "bons pais" e manter relações mais duradouras.

Pesquisas indicam que o período fértil feminino tem também uma poderosa influência sobre o sexo masculino

Outras pesquisas indicam que o período fértil feminino tem também uma poderosa influência sobre o sexo masculino. Nessa fase, observa-se nos homens um aumento da agressividade e de comportamentos voltados para a manutenção de seus relacionamentos sexuais. Além disso, eles consideram mulheres que estão próximas do seu período fértil mais atraentes. Talvez isso explique por que, de vez em quando, você, leitor do sexo masculino, ache aquela amiga com quem convive diariamente simplesmente linda...

Estudos mais polêmicos indicam, inclusive, que durante o período fértil as mulheres apresentam uma maior motivação para relações extraconjugais. Contudo, surpreendentemente, o número de relações sexuais entre as mulheres e seus parceiros habituais ─ maridos e namorados ─ não aumenta com a proximidade da ovulação.

Deve ser enfatizado, no entanto, que a consumação efetiva de uma relação extraconjugal depende da qualidade do parceiro efetivo e dos custos envolvidos. Quem alguma vez traiu provavelmente sabe disso... A suspeita ou mesmo a certeza da infidelidade responde pela maior parte dos conflitos matrimoniais e é o principal motivo das separações.

Pílulas e seleção de parceiros

Aparentemente, o uso de pílulas anticoncepcionais – que altera o balanço hormonal natural do ciclo menstrual – afeta as variações observadas no meio do ciclo, evitando que parceiros com melhor qualidade e menor compatibilidade genéticas sejam escolhidos.

O uso de pílulas anticoncepcionais afeta as variações no meio dociclo menstrual, evitando que parceiros com melhor qualidade e menorcompatibilidade genéticas sejam escolhidos

Isso poderia resultar em efeitos negativos para os casais formados durante o uso da pílula e para a sua prole. A escolha de parceiros com genótipos mais similares aumenta, por exemplo, os riscos de pré-eclampsia e a incidência de partos prematuros e abortos espontâneos.

Ela contribui também para a geração de filhos com variantes gênicas (alelos) iguais, ou seja, com um grau menor de variabilidade genética e, consequentemente, para uma imunidade mais baixa nesses indivíduos.

Se pesquisas mais amplas e aprofundadas demonstrarem que de fato o uso de pílulas anticoncepcionais afeta a seleção de parceiros, deveremos, no futuro, analisar a influência desses medicamentos sobre o grau de satisfação feminina em seus relacionamentos afetivos e a sua contribuição para a ocorrência de divórcios.

Relevância do contexto social

Cabe lembrar que nem sempre as mulheres escolhem parceiros que apresentam as características físicas que as atraem mais e que, na escolha de parceiros, estão envolvidos diversos outros aspectos, como apoio financeiro e psicológico e a proximidade social e geográfica.

O contexto social também deve ser levado em conta. A importância das preferências femininas na seleção de seus parceiros depende da oportunidade que a sociedade lhes dá para fazer as suas escolhas.

Coinventor da pílula
O químico mexicano Luis Miramontes (1925-2004) foi um dos inventores da pílula anticoncepcional. (foto: Wikimedia Commons)

Somente a realização de estudos mais amplos e detalhados poderá esclarecer se as variações hormonais observadas durante o ciclo menstrual podem afetar os diversos aspectos da sexualidade humana e indicar se o uso de pílulas anticoncepcionais pode realmente influenciar a escolha de parceiros sexuais em nossa espécie.

Se isso for verdade, seremos obrigados a concluir que o uso das pílulas anticoncepcionais tem causado transformações mais radicais e profundas em nossa sociedade do que imaginávamos.

Jerry Carvalho Borges
Departamento de Medicina Veterinária
Universidade Federal de Lavras


Sugestões para leitura

Feinberg, D.R. et al. Correlated preferences for men’s facial and vocal masculinity. Evolution and Human Behavior, 29, p. 233-241, 2008.
Gangestad, S.W. et al. Changes in women’s mate preferences across the ovulatory cycle. Journal of Personality and Social Psychology, 92, p. 151-163, 2007.
Goldin, C.; Katz, L.F. The power of the pill: oral contraceptives and women’s career and marriage decisions. J. Polit.Econ, 110, p. 730-770, 2007.
Haselton, M.G.; Gangestad, S.W. Conditional expression of women’s desires and men’s mate guarding across the ovulatory cycle. Hormones and Behavior, 49, p. 509-518, 2006.
Huber, J.C. et al. Non-contraceptive benefits of oral contraceptives. Expert Opinion on Pharmacotherapy, 9, p. 2317-2325, 2008.
Ooki, I. et al. Studies on the compatibility of HLA-Class II alleles in patient couples with severe pre-eclampsia using PCR-RFLP methods. American Journal of Reproductive Immunology, 60, p. 75-84, 2008.
Roberts, S.C. et al. Female facial attractiveness increases during the fertile phase of the menstrual cycle. Proceedings of the Royal Society B, 271, p. 270-272, 2004.

 

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