03 setembro 2010

O incrível poder dos números

Proteger o planeta não é mais luta solitária de ambientalistas. Jerry Borges fala da virada que tornou empresas aliadas na conservação, e de como a associação de números à natureza ajuda a conscientizar sobre o que temos a ganhar – ou perder.

O valor da conservação: se antes atividades econômicas eram associadas à degradação do planeta, hoje empresas mudaram de atitude ao perceber o dinheiro que se queima com a destruição de ambientes ou espécies (arte: Henrik Jonsson/ iStockphoto).

Há décadas, os conservacionistas têm combatido, sem sucesso, a crescente destruição ambiental no planeta e procurado conscientizar a população a respeito dos enormes prejuízos que esse processo tem causado para as nossas vidas e para o futuro de nossos filhos e netos. Para eles, o responsável pela destruição ambiental sempre foi o desenvolvimento econômico, representado principalmente pelas grandes corporações e indústrias.

Contudo, nos últimos anos, tem ocorrido uma enorme reviravolta nesse quadro, e muitos dos antigos vilões têm se tornado os paladinos da preservação ambiental. Essa tendência, muitas vezes desconhecida do grande público, pode representar no futuro uma esperança para a preservação da biodiversidade e dos recursos naturais do planeta. Como será que ocorreu essa mudança que tem aliado dois antigos inimigos ferozes: ambientalistas e economistas/empresários?

Como ocorreu a mudança que aliou ambientalistas e empresários, dois antigos inimigos?

As raízes para a mudança de postura estão associadas ao trabalho pioneiro de Robert Costanza, um economista da Universidade de Vermont (Estados Unidos) que, em 1997, procurou pela primeira vez estimar o valor da biodiversidade. Segundo Costanza, os benefícios do meio ambiente para a humanidade, representados por todas as formas possíveis de utilização de seus recursos (alimentação, fármacos, controle climático, preservação da qualidade de água) somam, em valores atuais, cerca de R$ 78 trilhões.

Para se ter uma idéia da grandiosidade desse valor, ele alcança cerca de 78% do PIB mundial (que, segundo o Fundo Monetário Internacional, é de pouco mais que R$ 100 trilhões) e é três vezes maior que o PIB dos Estados Unidos, o país mais rico do planeta (R$ 24,5 trilhões).

Essa iniciativa, louvável, tem rendido frutos. Outros pesquisadores interessados na preservação ambiental têm tentado estimar os prejuízos que podem ser causados pela extinção de determinadas espécies ou, mesmo, pela destruição de ambientes específicos. Por exemplo, calcula-se que somente a destruição dos mangues representa uma perda anual para o planeta de R$ 7,8 trilhões.

Um exemplo da análise da importância econômica das espécies vivas é a avaliação do rendimento gerado pela abelha europeia Apis mellifera, cujas populações têm desaparecido em diversas regiões dos Estados Unidos, vitimadas pelo ataque do ácaro Varroa destructor e pelo uso desenfreado de pesticidas. Segundo estimativas, esses insetos geram anualmente, somente com a polinização de árvores frutíferas, mais de R$ 26 bilhões.

Apis mellifera
A ‘Apis mellifera’, cujas populações têm desaparecido em diversas regiões dos EUA, é um exemplo da importância econômica de uma única espécie: calcula-se que ela gere mais de R$ 26 bilhões ao ano somente com a polinização de árvores frutíferas (foto: Thomas Bresson).

De marketing a estratégia de lucros real

Essas pesquisas têm conseguido modificar a forma como o público relaciona-se com os problemas ambientais e como a sociedade pode enfrentar os desafios da preservação da biodiversidade. E têm levado a uma mudança de atitude de várias empresas de grande porte que, anteriormente, investiam na preservação ambiental apenas como uma estratégia de propaganda.

Atualmente, essas empresas têm se dado conta de que o investimento na conservação dos recursos naturais pode garantir ganhos futuros – e mesmo render lucros imediatos.

As empresas perceberam que investimentos em conservação podem garantir ganhos futuros e imediatos

Esses estudos podem auxiliar os órgãos públicos a definir mais claramente que punições e multas devem aplicar a desmatadores, traficantes de animais e outros criminosos contra o meio ambiente. Além disso, eles podem também sensibilizar mais pessoas a se comprometer com a captação de recursos ou com iniciativas para a preservação ambiental.

A avaliação econômica dos benefícios obtidos dos ecossistemas, conhecidos como serviços ambientais, também tem um enorme significado para auxiliar na resolução do chamado problema da arca de Noé – a definição da alocação eficiente de recursos financeiros limitados para a conservação da biodiversidade.

Andrew Balmford, um zoólogo da Universidade de Cambridge, é um exemplo dos adeptos da união entre economia e ecologia. Segundo ele, os cientistas interessados em conservação têm que aprender muito com os economistas para que possam estabelecer indicadores da importância da preservação ambiental que sejam ao mesmo tempo rigorosos, replicáveis e facilmente compreensíveis.

Balmford acredita que somente assim o público e os governantes poderão avaliar mais claramente as perdas e os riscos da destruição do meio ambiente.

Árvore retorcida
Árvore com os galhos retorcidos típicos do cerrado: exemplo de ambiente rico em biodiversidade no Brasil, mas pouco conhecido e valorizado. A destruição desse patrimônio representa um prejuízo incalculável (foto: Christoph Diewald – CC BY-NC-ND 2.0).

Não tem preço

Contudo, os economistas também têm muito a aprender com os ecólogos, pois infelizmente a importância de uma espécie para um ecossistema – e para a nossa própria espécie – é algo muito difícil de ser avaliado.

Podemos citar como exemplo as abelhas mencionadas anteriormente. Esses insetos não são importantes apenas como polinizadores, estando também envolvidos em uma série de outras interações ecológicas.

A importância de uma espécie para um ecossistema é algo muito difícil de ser avaliado

Assim, a sobrevivência de populações de outros insetos, animais e plantas está irremediavelmente associada com a preservação dessa espécie de abelha. E, obviamente, as abelhas europeias são apenas uma peça no quebra-cabeça monumental de um ecossistema.

Além disso, vários fármacos são produzidos a partir do veneno das abelhas, e é possível que novas drogas possam ser descobertas a partir do estudo desses insetos. Portanto, as abelhas (e qualquer outra espécie viva) possuem um valor incalculável que somente será conhecido quando todas as possibilidades de estudo de sua biologia forem esgotadas. E isso é uma meta quase impossível de ser alcançada...

Se há dificuldades para se avaliar corretamente o significado econômico de apenas uma espécie viva, imagine então para se fazer projeções para ambientes inteiros!

Amazônia desmatada
Floresta amazônica desmatada para dar lugar plantações de soja no Pará (foto: Leo F. Freitas – CC BY NC SA 2.0).

Prejuízo incalculável

A floresta amazônica, o cerrado, o pantanal e a caatinga, considerados por diversos estudos extremamente ricos em biodiversidade e que são, indubitavelmente, a maior fonte de riqueza do nosso país, são pouco conhecidos e valorizados. Por isso, a destruição desse patrimônio pelas queimadas e pelo desmatamento representa um prejuízo incalculável.

Uma pesquisa realizada por Thomas Hilker e equipe, do Departmento de Manejo de Recursos Florestais, da Universidade de Colúmbia Britânica (UBC), no Canadá, indica que o Brasil foi o país que sofreu a maior redução de suas matas entre 2000 e 2005, perdendo em torno de 0,6% de sua cobertura florestal a cada ano.

Segundo relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o total de queimadas no Brasil neste ano, acumulado até 17 de agosto, foi de 30.857 – alcançando um valor 94% acima do registrado no mesmo período de 2009. Estamos literalmente queimando dinheiro e prejudicando o futuro de nossos filhos e netos.

Estamos literalmente queimando dinheiro e prejudicando o futuro de nossos filhos e netos

Apesar dos problemas associados com análises econômicas da perda da biodiversidade, é claro que esses procedimentos são muito importantes para a preservação ambiental.

A visão dos serviços ambientais tem se modificado nos últimos anos. Muitos indivíduos que antes consideravam a preservação ambiental um entrave ao seu bem estar estão percebendo que esse processo pode trazer ganhos futuros, ou mesmo imediatos. É inegável que alguns dos grandes responsáveis por essa conscientização e por essa mudança de atitude são os economistas – e o poder de seus números amigos.

Jerry Carvalho Borges
Departamento de Medicina Veterinária
Universidade Federal de Lavras

Sugestões para leitura:

Carvalho, L. M. T. Mapping and monitoring forest remnants: a multiscale analysis of spatio-temporal data. 2001. 150 p. Tese de Doutorado, Wageningen University, Wageningen, The Netherlands. 2001.

Czech, B. et al. (2005). Establishing indicators for biodiversity. Science 308, 791-792. Hilker, T. et al. (2009). A new data fusion model for high spatial- and temporal-resolution mapping of forest disturbance based on Landsat and MODIS. Remote Sensing of Environment .113(8), 1613-1627.

Hilker, T. et al. (2009). A new data fusion model for high spatial- and temporal-resolution mapping of forest disturbance based on Landsat and MODIS. Remote Sensing of Environment .113(8), 1613-1627

Liu, S. et al. (2010). Valuing ecosystem services: theory, practice, and the need for a transdisciplinary synthesis. Ann. N. Y. Acad. Sci. 1185, 54-78.

Naidoo, R. et al. (2008). Global mapping of ecosystem services and conservation priorities. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A 105, 9495-9500.

Rockstrom, J.et al. (2009). A safe operating space for humanity. Nature 461, 472-475.

Suo, A. N. et al. (2008). Ecosystem health assessment of the Jinghe River Watershed on the Huangtu Plateau. Ecohealth. 5, 127-136.
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