06 julho 2012

Interdisciplinaridades; nem sempre fáceis

A ciência moderna, cada vez mais especializada, clama pelo diálogo entre saberes. Na prática, no entanto, as fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento são conflituosas e, muitas vezes, intransponíveis. O antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte trata a questão em sua coluna de julho.

A organização, distribuição e dinâmica das disciplinas em nossa cultura constituem processo complexo, o qual reflete as profundas diferenças que balizam o campo científico moderno. (obra: Escola dos animais, de Antônio Rodrigues | foto: Cícero Rodrigues)

Ao mesmo tempo em que se desenvolveu, no âmbito do empreendimento científico ocidental, uma intensa especialização dos saberes, essencial para a condução profissional da pesquisa e da reflexão, constituiu-se um discurso reativo, clamando pela reconexão dos saberes e pela reconstrução de vínculos de conhecimento mais integrados ou integradores.

Há uma série de expressões que transmitem essa ambição, tais como interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade. Cada uma enfatiza um determinado regime de contato e diálogo entre os saberes especializados, mas – para os fins desta coluna – empregarei o primeiro, como guarda-chuva geral. E o empregarei no plural, tal como consta do título, já que a pluralidade é uma das características mais marcantes desse processo.

A organização, distribuição e dinâmica das disciplinas de conhecimento em nossa cultura constituem processo complexo e, embora este tenda a se considerar igualitário e equânime, opera na verdade a partir de valorações diferenciais bem nítidas, de demarcações hierárquicas dos saberes, de suas prerrogativas acadêmicas, de seus privilégios institucionais, de suas prioridades estratégicas para as nações e instituições a que servem.

Tal processo não é novo e presidiu mesmo a essa grande divisão, ocorrida no século 19, entre as ciências naturais, experimentais, hard, e as ciências humanas, interpretativas, soft. As últimas, entre as quais a antropologia sociocultural, só se consolidaram tardiamente, muitas vezes em reação às ambições epifenomenistas, reducionistas, de suas irmãs mais velhas, firmemente ancoradas na aliança entre empirismo e iluminismo que marcou o advento da ciência moderna no século 17.

Os opostos se atraem

As interdisciplinaridades nas ciências naturais são resultado quase automático das exigências da pesquisa em determinados níveis ou condições da matéria examinada. Assim proliferam as combinações entre subsetores das grandes divisões da física, química e biologia (com a mediação da matemática), eventualmente se consolidando em rubricas institucionalizadas – em constante renovação, rearticulação, recomposição. É a continuidade do mundo natural em si mesma que exige sua observação, análise e modelização por ângulos disciplinares combinados, contíguos.

As pressuposições das ciências humanas são múltiplas, complexamente herdeiras de outras formulações cosmológicas da cultura ocidental

A situação é simetricamente inversa no campo das ciências humanas. Movendo-se na esfera do pensamento, dos valores, das crenças, do sentido das práticas e comportamentos, que são fundamentalmente descontínuos, em diversos níveis, dependem esses saberes de pressuposições analíticas abrangentes, de modo a captarem as totalidades intrínsecas em que se articula a via social.

As ciências naturais também operam com pressuposições, paradigmas abrangentes que sustentam a possibilidade de enunciar hipóteses e projetar experimentos, mas o fazem a partir de um campo altamente unificado: o do realismo e do naturalismo estruturantes da ciência moderna. As pressuposições das ciências humanas são múltiplas, complexamente herdeiras de outras formulações cosmológicas da cultura ocidental, como a filosofia romântica, por exemplo.

Nesse caso, portanto, alguma expectativa de interdisciplinaridade pode colidir com as fronteiras desses paradigmas maiores. É certamente muito mais difícil, por exemplo, fazer dialogar um cientista político formado no ‘individualismo metodológico’ e na ‘teoria da ação afirmativa’ com um antropólogo formado na tradição do ‘holismo metodológico’ e na ‘teoria da hierarquia’, do que um aracnologista com um bioquímico ou um neurocientista.

Interdisciplinaridade
A tabela de áreas do conhecimento da Capes lista algumas disciplinas consideradas oficialmente multidisciplinares. Segundo Duarte, a fronteira interdisciplinar mais ativa e fértil tende a ser a que emerge nos limites entre os saberes naturais e os humanos. (imagem: reprodução)

A fronteira interdisciplinar mais ativa e fértil tende a ser a que emerge nos limites entre os saberes naturais e os humanos. Relações entre a psicologia e a linguística, entre a medicina sanitarista e a antropologia da saúde, entre a biologia e a antropologia, entre a arqueologia e a física e entre a psiquiatria e a sociologia são regulares e caracterizam ricos veios de trabalho.

Uma outra fronteira importante é a das ciências humanas aplicadas, tais como o direito, a educação, o serviço social, ou de determinados saberes profissionais associados às ciências naturais, como a enfermagem, a educação física, a nutrologia e a saúde pública. Nesses campos são inevitáveis e constitutivos vínculos interdisciplinares de toda ordem. A antropologia, por exemplo, mantém interfaces com todos esses saberes, com maior ou menor rendimento.

Zonas de não-diálogo

Mas o quadro está longe de ser pacífico. Há efeitos de hegemonia no campo que induzem o surgimento de zonas de não-diálogo. A antropologia enfrentou, na segunda metade do século 20, o desafio da sociobiologia e enfrenta, nas últimas três décadas, o desafio das neurociências. Trata-se de derivações recentes da antiga ambição epifenomenista, ancoradas em desenvolvimentos tecnocientíficos novos (mapeamentos genéticos e do funcionamento cerebral), capazes de sugerir um conhecimento do humano exclusivamente baseado em seu suporte corporal, físico.

Um campo de batalha constante são as agências de fomento, onde os recursos escassos induzem a políticas de defesa disciplinar muito aguerridas

Essas zonas de anti-interdisciplinaridades têm frequentemente implicações graves, como no caso da subordinação da ética em pesquisas de ciências humanas a um conselho do Ministério da Saúde (assunto que abordei na coluna de setembro de 2011). Um campo de batalha constante são as agências de fomento (e suas instâncias de juízo pelos pares), onde os recursos escassos induzem a políticas de defesa disciplinar muito aguerridas. Um saber como o da psicanálise padece com a hegemonia da psicologia experimental; a medicina social e a psiquiatria social padecem com a dos demais ramos da biomedicina.

Em recente mesa realizada durante o XIV Simpósio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação e Psicologia (ANPEPP), em Belo Horizonte, tratei desse assunto, num contexto que sei ser muito conflitivo. O debate, no entanto, não foi muito a fundo, provavelmente porque a expectativa diplomática de uma pacificação ‘interdisciplinar’ acaba sempre prevalecendo sobre a consciência das profundas diferenças e clivagens que balizam nosso campo científico moderno.

Esta é uma dessas áreas delicadas em que um maior treinamento filosófico poderia servir como fundamento para mais autêntica disposição de trabalho. As dificuldades gerais são políticas, sem dúvida alguma, mas as bases de nossos dissensos se encontram no plano maior dos grandes paradigmas da construção do conhecimento na cultura ocidental moderna.

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sugestões de leitura:

Infante, Rafaelle. Ecologia da saúde mental: uma nova perspectiva interdisciplinar. Rio de Janeiro, Editora UFRJ / Istituto Italiano di Cultura, 1989.

Langdon, Esther-Jean e Garnelo, Luiza (orgs.). Saúde dos povos indígenas : reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: ABA / Contra Capa, 2004.

Lima, Manuel Ferreira; Eckert, Cornelia e Beltrão, Jane F. (orgs.). Antropologia e patrimônio cultural: diálogos e desafios contemporâneos. Blumenau, SC: Nova Letra, 2007.

Sahlins, Marshall. The use and abuse of biology: an anthropological critique of sociobiology. Ann Arbor: The University of Michigan Press,1976.

Victora, Ceres et al. (orgs.). Antropologia e ética: o debate atual no Brasil. Niterói, RJ: EDUFF, 2004.
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