18 abril 2016

Verão abaixo de zero

O colunista Alexander Kellner retornou, com seus colegas, de uma expedição à Antártica, que se tornou o maior acampamento já realizado pelo Brasil naquela região. Nesta e nas próximas colunas, ele relata a aventura no continente gelado, dos preparativos à viagem de volta.

Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, que leva as equipes que vão acampar na Antártica. (foto: Alexander Kellner)

Antártica! O continente dos superlativos: o mais frio, o mais seco, o mais ventoso e o mais isolado. Com uma área de aproximadamente 14 milhões de quilômetros quadrados – maior do que a Europa e praticamente o dobro da Austrália –, esse verdadeiro deserto gelado é uma das regiões mais desconhecidas do planeta.

Essa aura de mistério mexe com o imaginário das pessoas. Quem quiser entrar no clima pode ler algumas das inúmeras obras relativas ao período romântico da conquista da Antártica, que transformou muitos exploradores em figuras lendárias, incluindo James Cook (1728-1779), o primeiro que circundou o continente, e Ernest Shackleton (1874-1922), que passou maus bocados por lá; sem falar na disputa da primazia pela conquista do Polo Sul entre Roald Amundsen (1872-1928) e Robert Scott (1868-1912), vencida pelo primeiro enquanto o segundo, em meio a frustração, falta de comida e frio intenso, perdia sua vida juntamente com os demais membros de sua equipe.

Pioneiros na exploração da Antártica
Robert Scott e sua equipe, falecidos ao retornar da expedição ao Polo Sul. (foto: Wikimedia Commons)

O desconhecimento da Antártica atrai muitos pesquisadores, que procuram desenvolver projetos bem diversificados nessa região. São estudos tão diferentes como análises detalhadas relacionadas à fauna e à flora atuais – particularmente como esses organismos conseguiram se adaptar às condições extremas vigentes nessa região – e investigações sobre a influência do continente para o clima nos demais pontos do planeta, sem contar, é claro, as pesquisas sobre os efeitos do aquecimento global, incluindo o derretimento das geleiras.

Também os paleontólogos vêm aumentando o seu interesse pela Antártica. Pesquisadores americanos (cada vez mais ativos), chilenos, argentinos, ingleses e de diversas outras nacionalidades, têm realizado descobertas importantes sobre o desenvolvimento e evolução da vida em tempos passados naquela região. Uma tarefa para lá de difícil, não apenas pelas condições climáticas e dificuldades de acesso, mas, sobretudo, pela falta de exposições das camadas contendo fósseis. Nunca é demais relembrar que cerca de 98% da superfície do continente é recoberta por gelo, impedindo a visualização das rochas, e consequentemente, dos restos de organismos extintos que outrora habitavam o continente.

Biodiversidade a desvendar

As expedições para coleta de fósseis antárticos são desenvolvidas no verão austral, mais especificamente entre final de dezembro e início de março, onde a cobertura de gelo e neve é reduzida. Uma das melhores regiões para essa pesquisa é a Península Antártica, que fica próximo à América do Sul e apresenta excelentes exposições de rochas.

Cientistas brasileiros já estiveram por lá. Entre os pioneiros está Antônio Rocha Campos (Universidade de São Paulo), destacado geólogo que coordenou equipes para pesquisas de invertebrados fósseis como moluscos. Também esteve ali a colega Tânia Dutra (Unisinos), que realizou diversas incursões pelas ilhas na Península Antártica com objetivo de resgatar plantas fósseis. Muito do que se sabe a respeito da evolução da flora naquela região se deve ao empenho de Tânia e sua equipe.

Equipe brasileira
A equipe do projeto Paleoantar de 2015/2016 no navio Ary Rongel. (foto: Alexander Kellner)

Mais recentemente, paleontólogos brasileiros também começaram a se interessar pelos vertebrados antárticos extintos. A primeira dessas iniciativas ocorreu com o projeto Paleoantar, realizado em 2006 e 2007, durante a 25ª Operação Antártica (Operantar). O projeto, como um todo, é bastante abrangente e, de forma resumida, visa entender como se deu a evolução da flora e da fauna antárticas ao longo do tempo, com ênfase nos vertebrados.

Apesar de ser hoje um deserto gelado devido ao resfriamento que se iniciou há 35 milhões de anos e se intensificou quando o continente foi isolado dos demais pelo surgimento da passagem de Drake (há ~23 milhões de anos), no passado, a Antártica abrigava extensas florestas temperadas com fauna e flora bem distintas das atuais. Como se deu essa mudança, que envolve extinções e surgimento de novas espécies ao longo do tempo, é um tema fascinante para os paleontólogos!

Malas prontas, enfim

A nova versão do projeto Paleoantar levou quase dez anos para se concretizar, e foi realizada agora, na passagem de 2015 para 2016. É até difícil entender o porquê de tanta demora, se a primeira edição foi exitosa, com a coleta de dezenas de fósseis e a descrição de resultados em publicações, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Mas há explicação. Para se desenvolver um projeto na Antártica, ele deve ser aprovado no âmbito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que é feito por editais específicos em uma linha de financiamento de pesquisa denominada Proantar. A concorrência é ferrenha, pois há mais projetos do que recursos, o que culminou com essa espera de quase uma década...

Com o projeto (finalmente!) aprovado, uma equipe de sete pesquisadores e dois alpinistas (o mesmo número da primeira expedição) se preparou para essa nova etapa. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, os preparativos não começaram em campo, mas sim em... Brasília!

O ponto de partida foi uma reunião com os coordenadores de todos os projetos agraciados pelo Proantar – uma boa oportunidade de conhecer os outros grupos de pesquisa e trocar experiências. No encontro, foi estabelecido cronograma das atividades: quem vai para onde, o tempo de permanência, o número de pessoas por projeto e as vagas para o treinamento pré-antártico (TPA), sem o qual ninguém pode participar de uma missão no continente gelado. Todo o trabalho é coordenado pela Secretaria da Comissão Interministerial para Recursos do Mar, parte da Marinha do Brasil.

Ilha de James Ross
Mapa da ilha de James Ross. A seta azul marca o local do acampamento em 2007 e a vermelha, o local do acampamento de 2016, na baía de Santa Marta.

Calendário pronto, nossa previsão era sermos lançados na ilha James Ross na primeira semana de janeiro, sendo resgatados entre 13 e 29 de fevereiro. Outro projeto, coordenado por Carlos Ernesto Gonçalves Schaefer (Universidade Federal de Viçosa), iria para a mesma região. Carlos, que eu já conhecia desde a expedição passada (e que homenageei no meu romance Mistério sob o gelo), estuda solos e viajaria com uma equipe de cinco pesquisadores e um alpinista. Os dois projetos somavam 15 pessoas – os pares de olhos extras seriam uma ajuda valiosa na caça aos fósseis.

Apesar da expectativa, uma desconfiança nos preocupava. Nos últimos quatro anos, Schaefer vinha tentando chegar à ilha James Ross, sem sucesso, devido às condições meteorológicas. Os efeitos do El Niño também eram uma promessa de dificuldade à vista. E deveríamos chegar à ilha na primeira semana de janeiro, ou seríamos enviados de volta ao Brasil.

No meio do caminho tinha um... iceberg
Icebergs são muito comuns no trajeto até a Antártica. (foto: Alexander Kellner)

Carlos tinha um plano B e poderia ser levado a algum outro ponto na Antártica. O projeto Paleoantar também tinha outras opções, mas todas nas proximidades da ilha James Ross. Ou seja, se o navio não chegasse a essa ilha, então também teria dificuldades para chegar nas demais. Um banho gelado, ou melhor, antártico, para as nossas pretensões...

(continua...)

 

Alexander Kellner
Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Academia Brasileira de Ciências

 

Paleocurtas

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