03 junho 2016

43 dias

O colunista Alexander Kellner continua o relato do verão que passou na Antártica, participando do maior acampamento já realizado por equipe brasileira no continente gelado.

Se o leitor já acessou a coluna anterior, deve lembrar que o planejamento de uma viagem à Antártica é complexo e precisa levar em consideração uma série de incertezas. Em relação à nossa viagem, havia certo ceticismo em sobre se conseguiríamos chegar ao arquipélago James Ross. Nosso objetivo principal era a ilha James Ross propriamente dita, e todas a nossas alternativas, nossos "planos Bs", se concentravam naquela região. A determinação era clara: se, por algum motivo, não pudéssemos desembarcar rapidamente, teríamos que voltar. O navio precisava atender diversos projetos igualmente importantes em outras áreas do continente gelado.


Este foi o maior acampamento já realizado
por equipe brasileira no continente gelado.
(foto: Alexander Kellner)

Vocês já imaginaram, após uma espera de quase uma década para conseguir emplacar novamente o projeto Paleoantar e meses de preparação, voltar sem um fóssil sequer? Não dava. E, a julgar pelo sucesso da expedição de 2006/2007, que gerou, além dos resultados científicos, um documentário e uma bela exposição, a expectativa estava lá no alto!

Acho que o leitor pode ter uma ideia do nervosismo e da ansiedade que tomou conta da equipe. Ninguém queria cogitar a possibilidade de voltar de mãos abanando. Sabíamos que, sem resultados efetivos, dificilmente o Paleoantar sobreviveria.

 

Ponto de interesse

Possivelmente, as pessoas que leem esse texto não conseguem imaginar que não bastaria para nós chegar em um lugar qualquer na Antártica. Essa noção talvez possa ser aplicada em maior ou menor grau para alguns tipos de projetos, mas não para as atividades que envolvem a busca de fósseis!

Para começar, precisamos chegar a um local onde existam as rochas específicas nas quais fósseis poderiam se preservar, as rochas sedimentares – de nada adianta acampar numa área de rochas vulcânicas, tão comuns na Antártica, pois nelas não se preservam os registros da vida do passado. Depois, é necessário que essas rochas tenham a idade dos fósseis que queremos encontrar – neste caso, procuramos depósitos formados entre 120 e 66 milhões de anos atrás. Por último, é necessário que essas camadas estejam livres de gelo, possibilitando a observação de sua superfície. Senão, nada de fósseis e, consequentemente, nada de resultados...

Infelizmente, não existem muitas ilhas na Península Antártica – a única região onde o Brasil se aventura – que reúnam todas essas características e possam ser acessadas facilmente pelo navio. Uma das pouquíssimas possibilidades seria a Ilha Joinville. Porém, pelas informações que obtivemos de alpinistas, ali chove muito e as exposições de camadas não são as melhores.

Para algumas pessoas, viajar de navio remete a luxo, festas e mordomia, mas nada poderia estar mais longe da realidade de uma expedição científica

Imagine como estávamos ansiosos quando o barco zarpou, em 2 de janeiro!

Para algumas pessoas, viajar de navio remete a luxo, festas e mordomia, mas nada poderia estar mais longe da realidade de uma expedição científica. No navio, todos lavam sua própria roupa e devem zelar pelo seu camarote que, além de pequeno, é compartilhado por quatro a seis pessoas. Os horários de refeição são rígidos e as atividades de lazer são bem restritas. Vez por outra, problemas mecânicos obrigam a racionamentos de água e outras limitações. Resumindo: embarcar em um navio de pesquisa para a Antártica é sinônimo de muito trabalho e abnegação, tanto para os marinheiros quanto para os pesquisadores.

Em 6 de janeiro, data prevista para o desembarque na ilha de James Ross, havia muita tensão no convés. Mas o dia era ensolarado e o vento, ameno, o que facilitou o pouso e decolagem dos helicópteros. Ao contrário do que ocorreu em 2007, ficamos exatamente no ponto que queríamos: a baía de Santa Marta. Finalmente, estávamos em James Ross!
 


Na falta de quadriciclos, o jeito foi percorrer a pé
as grandes distâncias necessárias para varrer
a ilha à procura de fósseis. (foto: Alexander Kellner)

E o tempo fechou

A chegada tranquila não era motivo para baixar a guarda. Não demorou muito para surgirem as primeiras dificuldades...

Dos três quadriciclos que levamos, um apresentou vazamento de óleo e não chegou sequer a ser desembarcado. O segundo furou um dos pneus logo no início dos trabalhos. Assim, o terceiro precisava ser economizado a todo custo, pois seria imprescindível para carregar o material coletado. O jeito foi encarar a pé as longas distâncias a serem percorridas todos os dias, à procura de fósseis que não tinham endereço definido.

Mas a falta de transporte não foi nosso único problema. Constantes e inesperadas mudanças nas condições climáticas, com tempestades de neve e fortes rajadas de vento, também atrapalharam um bocado. Em vários momentos, ventos de mais de 40 nós – mais ou menos 75 km/h – atingiram o acampamento (veja o vídeo que abre esta coluna!), e nos momentos mais críticos a ventania ultrapassou os 100 km/h, quebrando algumas das barracas. Felizmente, havia sobressalentes!

Outro imprevisto foi um defeito em nosso rádio, que dificultou a comunicação com o navio – ainda bem que tínhamos à disposição telefones que permitiam ligações via satélite. Mas o mais chato foram... as botas.

Sem os quadriciclos, elas passaram a ser o equipamento principal do nosso projeto: todos os dias, precisávamos andar quilômetros. Mas os calçados disponibilizados pelo Proantar, embora sejam ótimos para suportar baixas temperaturas, não eram adequados à realização de longas caminhadas. Grande parte da equipe teve problemas com as solas, e não havia sobressalentes. Em muitos casos, tivemos que aplicar, digamos, uma "engenharia criativa" para mitigar o problema, nem sempre alcançando o resultado almejado. Acreditem, vocês não querem saber os detalhes...

Mas era preciso encarar. Depois de quase uma década, não podíamos desperdiçar a oportunidade. A pressão por resultados era tremenda. Se quiséssemos voltar à Antártica e, sobretudo, fazer com que nosso país passasse (finalmente!) a realizar uma atividade contínua de pesquisa com foco na evolução da vida no passado daquela região, precisávamos vencer as adversidades. O futuro do Paleoantar estava em jogo, e todos tínhamos consciência e sentíamos o peso dessa responsabilidade...

(Continua...)

Confira o vídeo para ter uma ideia do que a equipe do Paleoantar viu nessa viagem. Disclaimer: cenas de tirar o fôlego! :o)

PaleoAntar 2015-2016 from Matheus Barbosa on Vimeo.

 

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

 

Paleocurtas

As últimas do mundo da paleontologia
(clique nos links sublinhados para mais detalhes)

Vem aí a 76a Reunião Anual da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, o principal evento dessa área de pesquisa. O encontro acontece de 26 a 29 de outubro em Salt Lake City, Utah, nos Estados Unidos.

Falando em eventos, também está em plena organização o X Simpósio de Paleontologia de Vertebrados, que ocorrerá de 3 a 7 de outubro no Rio de Janeiro. Vale a pena conferir.

Lara Maldanis (USP-Campinas, São Paulo) e colegas relataram na eLife a descoberta de um coração fossilizado do peixe Rhacolepis da Formação Romualdo. A descoberta enfatiza a importância desse depósito paleontológico no nordeste do Brasil: a região é conhecida pela preservação excepcional de tecido mole fossilizado, incluindo fibras musculares e vasos sanguíneos de dinossauros.

Acaba de ser publicada na PeerJ a descrição de uma nova cobra marinha encontrada em rochas com cerca de 99 milhões de anos na Venezuela. Lunaophis aquaticus, como a espécie foi denominada, é uma forma rara desse grupo de répteis que vivia em mares tropicais. O estudo foi coordenado por Adriana Albino (Universidad Nacional de Mar del Plata, Argentina).

Juliana Sayão (UFPE, Vitória de Santo Antão, Pernambuco) e colegas estudaram lâminas de ossos de Susisuchus anatoceps, um crocodilomorfo encontrado nos depósitos da Formação Crato (~115 milhões de anos), da Bacia do Araripe. Análises paleohistológicas revelaram que, apesar do seu pequeno tamanho, o espécime representa uma forma sub-adulta e não um juvenil como se supunha anteriormente. Os autores concluíram, assim, que a espécie é um dos menores crocodilomorfos encontrados até agora – o estudo foi publicado na PLoS One.

Verónica Krapovickas (Universidad de Buenos Aires, Argentina) e colegas propõem um modelo integrado de pistas e pegadas em ambientes desérticos. O artigo, publicado na Earth Science Review, relata que, ao contrário do que se pensava, a diversidade de marcas deixadas por organismos que viviam em desertos do passado é bastante diversificada, e seu estudo pode ajudar a entender como esses ambientes foram colonizados ao longo do tempo.

Tags:
COMPARTILHAR