11 julho 2016

Portugueses e brasileiros

O português que se fala aqui é realmente uma versão empobrecida da língua falada na terrinha? Sírio Possenti problematiza a questão em sua coluna.

(fotos: gaby_bra e Paul Fenton / Flickr / Creative Commons)

Estamos acostumados a pensar que as diferenças entre o português do Brasil (PB) e o de Portugal (o europeu, PE), são lexicais e relativas ao gerúndio. Onde dizemos “fila” eles dizem “bicha”, onde dizemos “camiseta” eles dizem “camisola” (Cristiano Ronaldo joga com a 7) e muitos outros casos.

O Dicionário contrastivo Luso-Brasileiro de Mauro Villar que dorme na minha biblioteca tem 320 páginas.  É verdade, no entanto, que às vezes falta-lhe critério, como vejo abrindo-o ao acaso e encontrando “ginecómano”, significando “ginecômano” – ou seja, trata-se apenas de uma diferença de pronúncia. O volume poderia ser menor, provavelmente.

Aprendemos também que, onde empregamos gerúndios, eles empregam infinitivos (“jogando” x “a jogar”). E veio daí também uma ojeriza total aos gerúndios todos, em época recente, porque pensaram alguns que, se os portugueses não os empregam, devemos fazer o mesmo – e com todos!

Mas isso é quase folclore. Estudos mais sofisticados de história e da variação nas duas ‘variedades’ de português mostram que os fenômenos não são tão simples. Há quem defenda que o PB é uma continuação do PE, já que todas as variantes que se encontram aqui se encontram também lá (por exemplo, concordâncias do tipo “Os menino”, que aqui há quem chegue a pensar que se resumem a São Paulo). Mas nem todos pensam assim, e postulam que há uma ruptura entre as duas variedades (línguas?), decorrente do contato aqui havido com línguas africanas. Tudo depende um pouco dos dados postos em relevo.

Quem anda uns dias pela terrinha sabe que há muitas diferenças de pronúncia pouco tematizadas (porque os lugares comuns se repetem), algumas das quais não serviriam como fundamento para quem desejasse que o português de Portugal fosse nosso modelo, como querem alguns quando se discute, por exemplo, a colocação pronominal. Lá se pode ouvir “irunia”, “jurrar” (jorrar), “curreto”, “bunomia", “ocurrrência”, “anáfura”, “culaboram”, “cunhecimento”, “prutagonista”, “surriso”, “pusição” etc., formas que eu duvido que fossem aqui alçadas a modelos.

Também se pode ver anúncios modestos em modestos botecos do tipo “Há sumo de laranja” (e muita gente fica com saudade do verbo “haver” empregado segundo as regras, como se eles escrevessem isso por causa da escola...).

 

Notas sobre o português brasileiro

Há alguns dias soube de mais coisas sobre o tema, lendo “Gramática pedagógica do português brasileiro: apontamentos portugueses”, uma resenha da gramática de Marcos Bagno de autoria de Fernando Venâncio, publicada em Gramáticas brasileiras, volume organizado por Faraco e Vieira e publicado pela Parábola.

Um dos panos de fundo da abordagem de Venâncio ao livro de Bagno é uma certa insistência do autor em caracterizar certas formas aqui ensinadas como antigas e/ou típicas de Portugal, ou seja, ausentes da variedade/língua (não vou comentar este tópico) falada no Brasil.

Pois Venâncio insiste muito na grande identidade das duas, destacando um conjunto de casos de que trata a obra que comenta. Bagno “defende” a co-ocorrência de “você/teu”, Venâncio responde com a co-ocorrência quase absoluta de “vocês/vossos” (como em “Mas, deviam estar a interrogar-se vocês, qual o objectivo da senhora ao querer saber das vossas preferências e habilidades”).

Venâncio mostra, depois, com numerosos exemplos, que há muitas outras semelhanças e coincidências. Por exemplo, lá também se diz, como cá, “vi ele chegar”, “ouvi ele dizer”, “vi eles a rirem”, “vi ele a passear com a mulher” (e também “passeando”!), “para trazer elas para a fábrica” etc.

Bagno anota construções como a “falta” de concordância de verbo com sujeito quando este é posposto, e lá vem Venâncio com sua vasta amostra portuguesa do mesmo fenômeno: “A cidade onde surgiu os jogos”, “Talvez a impacientasse as janelas bloqueadas”, “como prevê os contratos” etc.

O que mais me espantou foram as relativas cortadoras. Em minha total ignorância, acreditava que esta era uma ponta-de-lança do PB, apesar de saber de sua existência em outras paragens desde os estudos de Fernando Tarallo.

Bagno anota que “cada um faz o que gosta”, que o resenhista cita. Cita também uma afirmação do autor: que nossa tradição gramatical “se inspira nos usos literários, antigos e portugueses”.

Muitas das coisas que dizemos dos portugueses talvez devam deixar de ser repetidas

Venâncio anota calmamente que em Portugal também os “doutrinários do português europeu” são reticentes com essas construções. Mas “as peças estão a mover-se”, acrescenta. E lá vêm os exemplos: “Uma realidade que a diplomacia portuguesa tem de dedicar todos os esforços”, “É um processo judicial que ele está envolvido”, “São perguntas que aguardamos vossas respostas”. E assim por diante.

Muitas das coisas que dizemos dos portugueses talvez devam deixar de ser repetidas. Inclusive em relação à colocação dos pronomes, porque, segundo Venâncio, a mesóclise (que aqui voltou a ser celebrada) lá “é igualmente possidônia”.  

Não sabia o que quer dizer esta palavra. O Houaiss informou: quer dizer “cafona”.

Fora!

 

Sírio Possenti
Departamento de Linguística
Universidade Estadual de Campinas

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