29 agosto 2016

Finalizando para recomeçar

A última parte do relato do colunista Alexander Kellner sobre a expedição à Antártica apresenta alguns dos resultados obtidos e dá pistas de preparativos para uma nova campanha.

Vértebra de peixe encontrada durante a expedição. (foto: Acervo pessoal/ Alexander Kellner)

Se você leu as duas colunas anteriores, já sabe que, apesar das incertezas iniciais, uma equipe de 12 pesquisadores e três alpinistas, envolvidos em dois projetos distintos – um de coleta de solos e outro que visa à descoberta de fósseis, o Paleoantar  –, chegou à ilha de James Ross, na Antártica, durante a primeira semana de janeiro de 2016. Ficamos acampados na Baía de Santa Marta, região muito promissora para novas descobertas, por longos 43 dias...

Montamos o acampamento com alguma dificuldade, nada que já não fosse esperado, sobretudo levando-se em conta o grande número de pessoas. Apenas no quarto dia pudemos, finalmente, ir a campo. O tempo estava bom, ensolarado e o vento ameno, mas sabíamos que tudo podia mudar muito rapidamente naquela parte do mundo. O grupo de prospecção de fósseis se dividiu em dois: uma parte foi se dirigiu às margens do córrego Tiburon, um dos maiores daquela área, enquanto a outra subiu uma encosta nas proximidades do acampamento. Tivemos sorte.

Já no final desse dia conseguimos coletar um bom número de fósseis que encheram três marfinites (caixas de plástico brancas utilizadas para transporte de praticamente tudo na Antártica, desde amostras até garrafas com água potável). Eram restos de invertebrados e nódulos calcários, que serão importantes para estudos relativos à formação de depósitos fossilíferos. Estávamos satisfeitos, mas ainda apreensivos: nosso objetivo principal eram os vertebrados – ossos e dentes de animais que há milhões de anos viveram nessa parte do continente gelado. Nem sinais deles até então.


Os quadriciclos foram indispensáveis na coleta de fósseis. (foto: Acervo pessoal/ Alexander Kellner)

A rotina no acampamento incluía levantar entre sete e oito horas da manhã, fazer café (que acabou antes do tempo), comer alguma coisa e sai para prospectar, voltando apenas no final da tarde. Entre os muitos problemas enfrentados, registramos um pneu furado de quadriciclo e algumas tempestades – dos 43 dias acampados, pudemos realizar prospecção em apenas 23.

 

Primeiros achados

Cinco dias depois de termos chegado a James Ross, foi encontrado o primeiro dente: pertencia a um tubarão extinto. No dia seguinte, estávamos a cerca de três quilômetros do acampamento, explorando um morrote, quando Taissa, um membro da equipe, deu um berro: ossos! Foi um momento bem bacana – em uma semana já havíamos descoberto uma boa concentração de restos de vertebrados. Na Antártica, o material fóssil geralmente está bastante fragmentado, o que é resultante das condições locais. Nos dias de verão, a neve derrete e a água invade frestas dos ossos. À noite, essa água congela e se expande, gerando o rompimento do material.

Geralmente, os ossos encontrados
na Antártica estão quebrados e
precisam ser remontados em
laboratório. (foto: Acervo
pessoal/ Alexander Kellner)

Nesse mesmo dia, quando voltávamos para o acampamento, outro membro da equipe avistou um dente alongado e bem espesso, diferente dos dentes de tubarão que tínhamos encontrado até então. Era o vestígio comprovado de um réptil marinho, possivelmente um plesiossauro – animais com pescoço comprido e que estavam entre os maiores predadores dos mares antárticos do passado.

Nunca é demais enfatizar que as rochas onde estávamos prospectando foram formadas entre 70 e 80 milhões de anos atrás e representam um mar próximo da costa. O clima naquele tempo era mais ameno, possibilitando o desenvolvimento de uma extensa floresta, da qual restaram inúmeros troncos petrificados. Um deles, coletado em um ponto mais afastado, é o que restou de uma árvore com uma altura estimada em torno de 10 metros. Tal situação contrasta bastante com o deserto branco e desprovido de plantas (com exceção dos musgos) no qual a Antártica se transformou.

 

Gol de placa

À medida que o tempo passava, os achados se multiplicavam. Um dos principais foi realizado pouco menos de três semanas após a nossa chegada. O dia estava ensolarado, mas o vento dava sinais que poderia aumentar de intensidade. Como a equipe estava um pouco desgastada – algo natural naquelas condições adversas de trabalho – a maior parte ficou no acampamento. Para não perder oportunidades de coleta, eu, o Luiz, geólogo da equipe, e o Vandeira, grande alpinista, fotógrafo e descobridor de fósseis!, resolvemos explorar uma área um pouco mais remota, às margens da baía de Santa Marta.

Depois de algumas horas de caminhada em terrenos de rochas vulcânicas, exploramos uma região escarpada. Não encontramos nada, a não ser muitas focas mortas, como na expedição de 2006/2007, que serviram de inspiração para o romance Mistério sob o gelo. Assim, resolvemos nos dirigir para perto da costa. No caminho, avistamos, de longe, um pequeno morrote, que indicava a presença de camadas de rocha sedimentar, e resolvemos explorar aquele local. Acabamos nos distraindo e passando do ponto. Tivemos que voltar. Logo na base, uma grata surpresa: havia conchas fósseis. Era algo interessante, pois depósitos similares haviam sido encontrados em outras partes da ilha. Decidimos coletar algumas amostras. Como eram pesadas, solicitamos por rádio a vinda do alpinista Renato, que maneja o quadriciclo como ninguém, juntamente com Luiza, a especialista de invertebrados do grupo. Leizer, o terceiro alpinista, ficara no acampamento com o restante da equipe. Também começamos a encontrar alguns dentes de tubarões, o que fazia daquele ponto uma área muito promissora. Em um dado momento, Vandeira me trouxe uma amostra que ele havia achado diferente. E era mesmo: um amonita (grupo de moluscos extinto), o melhor preservado que havíamos encontrado até aquele momento. A procura se intensificou e, de repente, ouvimos um grito de Luiza: ela havia encontrado uma grande acumulação de amonitas, todos bem preservados! Era um achado e tanto, mas não acabou por aí...


Este exemplar – um amonita, invertebrado muito comum na região – foi um dos maiores achados da expedição: mede cerca de 50 centímetros de diâmetro. (foto: Acervo pessoal/ Alexander Kellner)

Ao passar para o outro lado do morrote, avistei pedaços de ossos, os primeiros daquele ponto. Nada demais, estavam fragmentados. Ao subir, comecei a ver outros. Estava ficando mais interessante, principalmente quando descobri que alguns se encaixavam. Mais um pouco e me assustei: havia localizado a fonte daquele material! Ossos maiores que não estavam fragmentados! Era a minha vez de gritar...

Posso imaginar uma certa surpresa daqueles quem leem esse texto: por que às vezes gritamos quando fazemos um achado? Em tempos de pós-olimpíadas, acho que é comparável com a atitude de muitos atletas, uma forma de extravasar a alegria de algo bem feito. O nosso "gol", "ponto no jogo" ou "manobra perfeita" é o encontro de fósseis. Ainda mais em um local tão difícil, ficando longe da família e dos amigos, vivendo em condições precárias, o que exige sacrifício e dedicação. Todos os demais colegas da equipe de paleontólogos – Juliana, Douglas e Rodrigo – passaram pelo seu "momento olímpico" com importantes achados!

 

Malas cheias

Depois de quase um mês e meio, contabilizamos perto de três toneladas de rochas e fósseis, que foram armazenadas em 58 marfinites. Troncos, conchas diversas, amonitas gigantes, dentes e dezenas de ossos, sem contar com milhares de fotografias e filmes, foi o saldo extremamente positivo dessa expedição. Bem melhor do que poderíamos imaginar quando iniciamos esse projeto! Os trabalhos científicos estão a pleno vapor e, em breve, algumas "surpresas" bem bacanas serão anunciadas.


O grupo do projeto Paleoantar alguns dias antes da retirada. (foto: Acervo pessoal/ Alexander Kellner)

Claro que, com um material dessa qualidade, também gostaríamos de montar uma bela exposição, a exemplo do que fizemos em 2010! Diferente daquela, queremos que a nova mostra viaje pelo país – uma maneira de compartilhar essa experiência fantástica com a população. Também cobiçamos fazer um novo documentário. Será que alguma empresa se candidata a financiar essas atividades de divulgação científica? Cartas para a redação!!!

E, como não poderia deixar de ser, uma nova expedição está sendo organizada. Um grupo de sete pesquisadores acaba de concluir o Treinamento Pré-Antártico na Ilha da Marambaia, no Rio de Janeiro. Caras novas para ajudar nessa maravilhosa aventura que é a descoberta de fósseis no continente gelado!

 

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

 

Paleocurtas

As últimas do mundo da paleontologia
(clique nos links sublinhados para mais detalhes)

Uma recente descoberta realizada no sul da França revela que o homem de neandertal ocupava cavernas bem antes do que se imaginava: há mais de 175 mil anos! Veja o vídeo resumindo a descoberta.

Está em plena organização o IX Congresso Latino-americano de Paleontologia, que acontece de 20 a 24 de setembro no Museo de La Nación, em Lima, Peru. Mais informações no site do evento.

Jonathan Bloch (Florida Museum of Natural History, Estados Unidos) e colegas publicaram na Nature a descoberta dos primeiros restos de primatas do Canal do Panamá, em rochas formadas há 20,9 milhões de anos. Panamacebus transitus, como a nova espécie foi chamada, reacende a discussão
sobre a dispersão dos primatas do Novo Mundo.

Pesquisadores acabam de publicar na revista Gaea o desenvolvimento de um novo aplicativo para gerenciar coleções paleontológicas. Estudos desse tipo são muito bem-vindos e possibilitam uma melhor e mais rápida maneira de acesso a dados de coleções, agilizando a pesquisa científica.

Uma mandíbula do dinossauro Maxakalisaurus topai
o Dinoprata, que foi o primeiro dinossauro de grande porte a ser montado no Brasil – acaba de ser descrita por Marco França (Universidade Vale do São Francisco, Petrolina/PE) e colegas na PeerJ. A mandíbula foi encontrada no município do Prata (Minas
Gerais) e o estudo apresenta novas interpretações
sobre as relações de parentesco da espécie.

Lúcio Roberto da Silva (Universidade Federal de Santa Maria/RS) e colegas acabam de publicar nos Anais da Academia Brasileira de Ciências um estudo sobre estruturas cranianas de répteis predadores encontrados em rochas do período Triá­ssico, em que se originaram os primeiros dinossauros.

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