07 novembro 2016

Matar o semelhante: genética ou cultura?

Violência letal pode ter sido herdada dos primatas ao longo da evolução.

(foto: Lioness65 / Freeimages)

Resultado que acaba de ser publicado em uma prestigiosa revista científica faz um debate secular tender mais para o lado dos que acreditam que a violência letal praticada por humanos contra humanos está incrustada em nosso código genético, pois foi herdada de nossos ancestrais. Portanto, conflitos, genocídios e guerras não seriam apenas (e simplesmente) uma inovação cultural, mas, sim, resultado de algo que é parte indissociável de nossa natureza.

A equipe de José María Gómez, da Universidade de Granada (Espanha), decidiu abordar a questão do comportamento violento letal por um viés bem peculiar (e, tudo indica, novo): usando ferramentas da biologia evolucionária, os pesquisadores reconstruíram a ancestralidade da violência, examinando esse tópico desde o surgimento dos mamíferos – há mais de 100 milhões de anos – até o do Homo sapiens, entre 160 mil e 200 mil anos atrás. O método parece ter funcionado, pois os resultados estão em Nature (28/09/16).

O grupo reuniu informações sobre mais de 4 milhões de mortes que ocorreram em 1.024 espécies (incluindo, macacos, baleias, morcegos, coelhos, cavalos, camundongos etc.) e 137 famílias de mamíferos. Esses dados também vieram de 600 estudos relativos a humanos que abrangiam desde o Paleolítico, Mesolítico e Neolítico até as Eras do Bronze e do Ferro, chegando a amostras com poucos séculos de idade. Para o H. sapiens, foram analisados cerca de 50 mil anos de história.

Ao esparramar os dados sobre violência letal contra membros da mesma espécie na árvore filogenética dos mamíferos, Gómez e colegas chegaram aos seguintes números: a taxa de violência letal contra um igual na origem dos mamíferos era da ordem de 0,3%, ou seja, 1 em cada 300 mortes teve esse padrão. Mas, à medida que os ramos da árvore se aproximavam dos primatas, esse percentual tendeu a subir: 1,1%, para os ancestrais dos roedores, lebres e primatas; 2,3%, para ancestrais de primatas e musaranhos; 1,8%, para os ancestrais dos grandes primatas.

Para humanos, esse percentual, segundo o estudo, ficou na casa dos 2% (duas mortes em cada 100), cerca de seis vezes maior do que aquele para os mamíferos em sua origem. A explicação para nosso patamar tão alto seria a seguinte: humanos descendem de uma linhagem com um longo histórico de violência letal contra o próximo. Por exemplo, chimpanzés e até mesmo bonobos tidos como pacíficos – demonstram comportamento violento contra semelhantes. Segundo os autores, conta também o fato de as espécies terem passado a viver em grupos e demarcarem territórios.


Os humanos descendem de uma linhagem com um longo histórico de violência letal contra o próximo. Os chimpanzés, por exemplo, demonstram comportamento violento contra semelhantes. (foto: Ryan Summers/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

O modelo também indicou algo que é amplamente observado na natureza: carnívoros são mais violentos que herbívoros. Mais: espécies aparentadas tendem a ter níveis de violência letal semelhantes. Para humanos, os resultados, segundo a equipe, também se ajustam a dados antropológicos relativos a sociedades de caçadores-coletores, para as quais há evidências de constantes conflitos violentos.

Os pesquisadores dizem que testaram o modelo para vários vieses (tamanho e tipo de amostragem, incertezas quanto à filogenia dos mamíferos etc.). Mas essas variações não alteraram significativamente a conclusão dos resultados.

 

Hobbes ou Rousseau?

O que está em jogo aqui são dois pontos de vista contraditórios que têm se arrastado por séculos ao longo da história: i) somos naturalmente violentos, como acreditava o filósofo britânico Thomas Hobbes (1599-1679)? ii) ou somos ‘neutros’, mas moldados pelo ambiente, como defendia o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)?

Sintetizando: a violência letal e suas consequências seriam natureza ou criação?

Recentemente, esse embate causou chispas entre dois intelectuais de alto calibre: o filósofo político britânico John Gray e o psicólogo e linguista norte-americano Steven Pinker. O primeiro resenhou o livro do segundo. E aí começaram os atritos entre os dois nas páginas do diário britânico The Guardian.

A obra em questão: Os anjos bons de nossa natureza (São Paulo: Companhia das Letras, 2013). Nela, Pinker mostra – ou tenta mostrar –, por meio de dados, gráficos, tabelas etc. – ou seja, pelo viés da estatística – que, ao longo dos séculos, a violência (guerras de grande escala, conflitos, genocídios etc.) estão diminuindo. É a chamada ‘Longa Paz’.

Na resenha, em essência, Gray repete algo que disse em entrevista à esta revista (CH 298). E aqui vale repetir a resposta desse filósofo: “Não está havendo declínio na violência, apenas mudanças nos modos como ela está sendo cometida. Em relação ao total da população, os Estados Unidos têm a maior proporção do mundo de presos – um nível extraordinário de violência. O tráfico humano é apenas outro nome para a escravidão, que é também uma forma de violência. México e Colômbia estão sofrendo uma terrível violência por causa de uma absurda ‘guerra contra as drogas’. Aqueles que dizem que entramos em um ‘longo período de paz’ são tão infantilmente míopes quanto os economistas que nos diziam que havíamos entrado em um ‘longo período de vertiginoso crescimento econômico’.”

Indo na inércia de Gray, vale consignar aqui o caso brasileiro. Em 2011, artigo escrito por brasileiros para a revista The Lancet (v. 377, n. 9.781, p. 1.962-1.975) mostrava números (certamente, desoladores e vergonhosos) relativos a homicídios por arma de fogo no Brasil: 21,7 para cada 100 mil habitantes, só perdendo, no mundo, para a Colômbia (30,34) – à época, o Japão tinha a menor taxa: 0,06. Com a crise econômica e social dos últimos anos, esse percentual pode ter crescido por aqui. Em 2014, foram cerca de 60 mil homicídios. Números epidêmicos dignos de uma guerra civil. Mas não são classificados assim.

Com uma espécie que talvez tenha matado cerca de 160 milhões de semelhantes só no século passado, fica difícil – sem hipocrisia, quase impossível – acreditar que não somos aquilo que Gray denomina a espécie mais rapinadora e bem-sucedida evolutivamente

Dados com esse perfil parecem reforçar o argumento de Gray de que guerras em larga escala, entre grandes potências, estão sendo substituídas por outras formas de violência. Segundo Gray, Pinker não teria computado conflitos mais recentes. É o caso daquele na Síria, que já matou quase 400 mil pessoas, segundo estimativas mais recentes (e realistas). Quando o número de mortos eram 240 mil, havia aproximadamente 12 mil crianças mortas – é uma cifra não só embaraçosa para políticos e diplomatas, mas imoral para a humanidade.

Some-se à Síria, Irã-Iraque, Afeganistão, EUA-Iraque, Congo, Ucrânia-Rússia, só para ficar nos mais recentes.

Com uma espécie que talvez tenha matado cerca de 160 milhões de semelhantes só no século passado, fica difícil – sem hipocrisia, quase impossível – acreditar que não somos aquilo que Gray denomina a espécie mais rapinadora e bem-sucedida evolutivamente. Fica também difícil acreditar nas tabelas de Pinker e na noção – muito criticada por Gray – de que ‘o amanhã será melhor’, quase uma crença religiosa que nos guia desde o Iluminismo e que pôs o H. sapiens acima de tudo, incluindo fauna e flora. Ideias baseadas em ensinamentos de iluministas que, vale lembrar, defenderam o racismo, o antissemitismo e a discriminação. O nazismo, com seu ‘racismo científico’, teve raízes nesses pensadores.

Até Pinker concorda que qualquer progresso – noção que se aplica apenas ao campo da ciência e da tecnologia – seria destruído por uma guerra nuclear. Impossível? Basta lembrar que a Primeira Guerra Mundial (10 milhões de mortos), cruenta e sanguinária, era tida como muito improvável. A Segunda (50 milhões), de certa forma, também. A Europa foi devastada duas vezes. Deixem­se de lado as dezenas de milhões de mortes do stalinismo e os 70 milhões de mortes do maoísmo com sua ‘revolução’ cultural.

“Um mundo sem a violência e a loucura da utopia é, em si, uma utopia; talvez, a mais inacreditável de todas elas”, disse Gray à CH.

Na Europa de meados do século passado – e não dá para espernear –, o tal mundo melhor propiciado pelo “progresso civilizatório” dos sociólogos e “avanços tecnológicos” dos humanistas virou escombros e ferro retorcido por bombas. Sobraram ossadas em larga escala.

 

Dúvidas e mais dúvidas

Estamos nos tornando menos violentos e mais altruístas, como defende Pinker? Os ‘primitivos’ eram violentos e os ‘civilizados’ tendem ao pacifismo? Conflitos violentos entre sistemas políticos rivais estão fadados a desaparecer para sempre, marcando, como se diz agora, “o fim da história”? Ou a tal ‘Longa Paz’ seria apenas um artigo de fé e não da razão, sendo, como aponta Gray na resenha, só mais uma ortodoxia contemporânea, fadada a esmaecer, como tantas outras?

As guerras poderiam ser cessadas caso houvesse um engajamento maciço de intelectuais em movimentos pacifistas, com queria o físico Albert Einstein (1879-1955) e apontou o linguista norte-americano Noam Chomsky, em seu (ignorado) A responsabilidade dos intelectuais?

Gómez e colegas mostram que os tais 2% mudam ao longo da história, flutuando em conjunção com mudanças sociopolíticas sofridas por populações humanas. Há períodos, segundo os autores, em que aquele percentual vai a 15%, 30%, mesmo que as incertezas aí sejam significativas.

A guerra é somente uma resposta ao meio de uma espécie que nem é boa, nem má em sua essência? Ou o ambiente apenas modula uma violência que é ‘genética’ e que não pode ser extirpada do H. sapiens?

Essas variações reforçam a argumentação dos rousseaunianos, mostrando que a guerra é somente uma resposta ao meio de uma espécie que nem é boa, nem má em sua essência? Ou mostram que o ambiente apenas modula uma violência que é ‘genética’ e que não pode ser extirpada do H. sapiens?

Essa segunda questão acima já causou espasmos de raiva no jornalista científico norte-americano John Horgan, que defende que a guerra é uma inovação cultural, com menos de 12 mil anos de idade, fato corroborado, segundo ele, por um sem-número de evidências antropológicas e arqueológicas. E não algo arraigado profundamente em nossas raízes genéticas. Ele escreveu (em inglês) extensivamente sobre isso, pondo o problema do fim das guerras – e nisso temos que concordar com ele – como o mais premente a ser resolvido pela humanidade. Veja aqui uma coleção desses textos.

Pinker respondeu à resenha de Gray. Escreveu que a verdade está nos números, nos dados. E não adianta vituperar. O mundo está se tornando menos violento, com menos conflitos, menos guerras civis, menos genocídios e sem guerras em larga escala, como as mundiais. Pare ele, isso é fato. E diz que a culpa de uma impressão contrária a isso é, em parte, da... mídia, com seu noticiário focado, digamos, só na desgraça da guerra (e não na graça da paz).

Fica a questão para pensar: a paz é algo obtido pelo esforço dos pacifistas ou algo concedido – temporariamente – pelos belicistas?

Mark Pagel, da Universidade de Reading (Reino Unido), finaliza seu excelente comentário – na mesma edição da Nature – sobre os resultados de Gómez e equipe do seguinte modo: “Hobbes deferiu um golpe muito forte contra Rousseau, mas não chegou a nocautear este último”. A pontuação para esse combate fica por conta do(a) leitor(a).

 

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/ RJ

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