28 novembro 2016

Quem era o homem de Anticítera?

Restos de homem que permaneceu 2 mil anos sob as águas nas redondezas de uma ilha grega podem fornecer DNA para análise genética detalhada e confiável, capaz de gerar pistas sobre sua ancestralidade e o movimento de populações no mundo.

Mergulhador coleta material dos escombros de navio naufragado há 2 mil anos perto da ilha de Anticítera (Grécia). (foto: EUA/WHOI/ARGO)

Um pedaço de crânio, com três dentes; dois ossos de braço; lascas de costelas; dois fêmures. Antropólogos estão radiantes com esses restos de um homem que permaneceu 2 mil anos sob as águas nas redondezas da diminuta e bela ilha grega de Anticítera. Tudo indica que, pela primeira vez, será possível extrair de um humano com essa idade material genético de boa qualidade – e sem contaminantes.

A descoberta desses restos humanos foi feita recentemente pela equipe de antropólogos mergulhadores que estudam o que talvez seja o navio afundado mais famoso do mundo. Com cerca de 40 metros de comprimento, a embarcação mercante, descoberta em 1900 por caçadores de esponjas, tornou-se famosa pelo fato de nela ter sido encontrado o chamado ‘mecanismo de Anticítera’.


Mecanismo de Anticítera, capaz de reproduzir o movimento do sol, da lua e dos planetas. (foto: Wikimedia Commons)

Datado como sendo do ano 65 a.C., o artefato é tido como um ‘computador primitivo’ capaz de modelar os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. A engenhosidade da máquina – que lembra o mecanismo de um despertador – é tal que, ao longo deste último século, ela tem causado um misto de espanto, mistério e admiração. Um filme sobre ela (em inglês) está disponível na internet. Vale a pena ver.

Viajando pelo Mediterrâneo, o navio levava itens de luxo (vidros, peças de bronze, jarros, joias, jogos etc.) – provavelmente, para Roma.

Outros restos humanos já foram encontrados em outros navios naufragados – por exemplo, ‘Mary Rose’ e ‘Vasa’, embarcações com três ou quatro séculos de idade. Mas, até agora, não foi possível fazer uma análise genética detalhada e confiável desse material, por problemas técnicos. Muitas dessas peças acabaram lavadas, mantidas em conservantes e a temperaturas inadequadamente altas, sem contar a possível contaminação do DNA antigo com novo, o que não pode ser separado em métodos como o chamado PCR.


Pesquisador manipula osso encontrado na embarcação. (foto: Brett Seymour)

Segundo especialistas, as partes relativas ao crânio são as mais promissoras para a extração de DNA. Por que é tão importante assim obter o sequenciamento do material genético de uma pessoa que provavelmente viveu antes de Cristo?

Caso os pesquisadores norte-americanos e gregos consigam extrair e sequenciar o DNA, eles poderão inferir, por exemplo, a idade, a cor dos olhos e do cabelo, a ancestralidade e mesmo a origem daquele homem

Caso os pesquisadores norte-americanos e gregos consigam extrair e sequenciar o DNA, eles poderão inferir, por exemplo, a idade, a cor dos olhos e do cabelo, a ancestralidade e mesmo a origem daquele homem – que, por sinal, foi batizado Pamphilos, em referência a um nome encontrado num copo de vinho em meio aos destroços. Com esses dados, será possível levantar hipóteses sobre variação e movimento de populações, por exemplo.

É possível que Pamphilos tenha sido um escravo, pois seus ossos têm uma coloração avermelhada, típica da ação do ferro de grilhões sobre eles.

Acredita-se que o navio tenha sido jogado contra as rochas em uma tempestade, e que o evento tenha sido rápido, a ponto de não permitir que escravos acorrentados saíssem da embarcação. Ou, quem sabe, Pamphilos seja o astrônomo responsável pelo – ou construtor do – mecanismo de Anticítera.

Os pesquisadores – que são do Ministério da Cultura e dos Esportes da Grécia e da Instituição Oceanográfica de Woods Hole (EUA) – acham que pode haver mais restos humanos sob os escombros.

 

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/ RJ

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