27 julho 2017

Estratégia antiviral polivalente

Estudo feito por pesquisadores de Brasil e Portugal identifica moléculas promissoras para o desenvolvimento de fármacos e vacinas contra diversos tipos de vírus.

Uma classe de moléculas, as chamadas porfirinas, é capaz de interagir com a camada mais externa de vários vírus e provocar sua inativação, o que evidencia o potencial dessas moléculas para o desenvolvimento de fármacos antivirais de amplo espectro. (foto: Laszlo Baranyai/ Freeimages)

Apesar do elevado número de fármacos antivirais disponíveis atualmente, o tratamento contra doenças causadas por vírus muitas vezes falha, devido ao desenvolvimento de resistência por esses agentes infecciosos. Uma estratégia promissora para superar esse problema é criar drogas que atuem sobre a camada mais externa de vários vírus, o chamado envelope viral, e assim sejam eficazes contra diversos tipos desses agentes.

Nesse sentido, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto de Medicina Molecular (Lisboa) identificaram os mecanismos de ação de uma classe de moléculas, denominadas porfirinas, capazes de interagir com o envelope viral e inativar o vírus da estomatite vesicular.

A estomatite vesicular é uma doença que afeta principalmente animais domesticados, como bovinos, equinos e suínos, podendo causar prejuízo ao setor agropecuário. Ela provoca vesículas (bolhas), que podem evoluir para úlceras, no corpo dos animais, principalmente na língua, nos lábios e na mucosa bucal.

“O envelope é importante para a entrada dos vírus na célula. Se destruirmos o envelope viral, não ocorrerá infecção”

O estudo, publicado este ano e financiado em parte pelo projeto internacional Inpact, constatou que as porfirinas têm alta afinidade por lipídios (moléculas estruturais presentes nas membranas das células). Dessa forma, podem interagir com o envelope viral, já que este é constituído por uma dupla camada lipídica.

“O envelope é importante para a entrada dos vírus na célula. Se destruirmos o envelope viral, não ocorrerá infecção”, explica a líder da pesquisa, a bióloga Christine Cruz-Oliveira, da UFRJ.

Segundo ela, a caracterização dos mecanismos antivirais dessas moléculas contra o vírus da estomatite vesicular pode ser extrapolada para outros vírus com estrutura semelhante. “Dessa forma, essas moléculas podem ser melhoradas para o desenvolvimento de drogas de amplo espectro que podem ser aplicadas no tratamento de diversas doenças virais”, acrescenta.

 

Versáteis e poderosas

Além da capacidade de agir contra vários vírus, as moléculas estudadas pelos pesquisadores podem ser ativadas pela luz, o que as torna mais potentes. “A ativação dessas moléculas pela luz leva à geração de outras moléculas, denominadas radicais livres, que potencializam o dano ao envelope dos vírus”, esclarece a pesquisadora.

Cruz-Oliveira ressalta ainda que essa característica pode ter várias aplicações. “A propriedade de fotoativação dessas moléculas antivirais pode ser aproveitada, por exemplo, na elaboração de formulações de uso tópico, como cremes e pomadas”, exemplifica. Além disso, a fotoativação dessas porfirinas pode ser empregada também no processo de inativação de vírus, caso essa técnica seja futuramente utilizada para produção de vacinas.

 

Margarida Martins
Instituto de Medicina Molecular (Lisboa/ Portugal)
Especial para CH On-line

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