Porco-monteiro: invasor ou vizinho?

A introdução de espécies não-nativas em ecossistemas quase sempre leva a efeitos danosos, pois o invasor pode competir com espécies locais por recursos. Dentre os vários invasores, o porco-monteiro — forma feral (que retornou ao hábitat selvagem) do porco doméstico ( Sus scrofa ) — é tido como um dos mais destrutivos. No Pantanal, ele é acusado de reduzir a população de seus ’primos’, os queixadas ( Tayassu pecari ) e caititus ( Pecari tajacu ), ambos da família dos taiassuídeos. No entanto, um estudo realizado por Luiz Flamarion Barbosa de Oliveira e Fernando Lencastre Sicuro, ambos do Departamento de Vertebrados do Museu Nacional/UFRJ, sugere uma nova visão dessa interação entre espécies.

O porco-monteiro (Sus scrofa) se originou dos porcos domésticos trazidos ao Pantanal pelos colonizadores no final do século 18

Os porcos-monteiros existentes no Pantanal se originaram dos porcos trazidos pelos colonizadores que fundaram Albuquerque (atual Corumbá), em 1778. Já os taiassuídeos são espécies nativas que ocupam nichos ecológicos diferentes, em função sobretudo da força de sua mandíbula associada a seus hábitos alimentares. “Os queixadas podem predar alimentos mais duros, e os caititus, que são mais generalistas, alimentos mais macios” explica Sicuro, doutorando do Museu Nacional. Como os porcos-monteiros podem consumir alimentos duros como os queixadas, são tão generalistas quanto os caititus e se reproduzem mais que ambos, acredita-se que eles estejam causando a redução na população dessas espécies em certas regiões do Pantanal.

O estudo de Oliveira e Sicuro, porém, sugere que as interações competitivas entre elas não são relevantes. Na Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal, anteriormente usada para a criação de gado, embora as três espécies coexistam, o número de taiassuídeos vem aumentando. De 2001 para 2002, a expansão na utilização da área pelos queixadas foi de 11,5 para 37,9%, e pelos caititus, de 39,6 para 53,1%. O uso da região por porcos-monteiros permaneceu estável (variou de 63,8 para 62,6%).

Queixadas ( Tayassu pecari ) e caititus ( Pecari tajacu ), ambos da
família dos taiassuídeos, são espécies nativas do Pantanal

“Há evidências de que a regulação entre as populações não se deve às interações interespecíficas”, reforça Oliveira, professor do departamento e orientador de Sicuro. “Precisamos levantar mais informações antes de iniciar qualquer projeto de erradicação que poderia desviar recursos de atividades de conservação mais efetivas.” Outros possíveis motivos para as diferenças entre as espécies podem ser a recuperação dos hábitats após a retirada do gado e o fato de a região ser relativamente seca — ambos favoreceriam os taiassuídeos.

As observações indicam que os porcos-monteiros podem estar dividindo o papel de presa com os taiassuídeos e aliviando assim a pressão de predação sobre eles. Relatos da população local sugerem que as onças preferem caçar porcos-monteiros a queixadas e caititus. Oliveira adverte, porém, que o estudo mede o impacto do porco-monteiro sobre espécies similares. “Até agora, há poucos dados sobre o impacto dessa forma feral no ecossistema pantaneiro como um todo; após mais de 200 anos de existência na região, devemos buscar entender a fundo as inter-relações envolvendo o porco-monteiro antes da criação de estereótipos.”

Fred Furtado
Ciência Hoje On-line
09/12/02

 

Matéria publicada em 09.12.2002

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

CONTEÚDO RELACIONADO

Estratégia antiviral polivalente

Estudo feito por pesquisadores de Brasil e Portugal identifica moléculas promissoras para o desenvolvimento de fármacos e vacinas contra diversos tipos de vírus.

Inovação no combate a doenças neurológicas

Novas estratégias para o transporte de fármacos até o cérebro abrem portas para o desenvolvimento de terapias para doenças como a de Alzheimer e tumores cerebrais.