Um rosto para a múmia

Expostas nos museus, é difícil de imaginar que um dia as múmias já foram seres humanos. Por mais preservadas que estejam, o aspecto cadavérico e o corpo muitas vezes encoberto por bandagens lembram mais monstros de filmes de terror. Para mudar essa ideia, pesquisadores investem na reconstrução facial das múmias. Aqui no Brasil, ganhamos mais uma, a da múmia egípcia Tothmea.

A múmia feminina, que está exposta, desde 1995, no Museu Egípcio da Ordem Rosacruz, em Curitiba, teve o rosto recriado digitalmente em 3D pelo arqueólogo Moacir Santos, do Centro Universitário Campos de Andrade, e o designer Cícero Moraes. 

Datada do século 6 a.C., Tothmea foi encontrada em uma das necrópoles da antiga Tebas, atual cidade de Luxor. Antes de chegar ao Brasil, passou pelas mãos de diferentes instituições dos Estados Unidos. Quando Santos se debruçou para estudá-la, a múmia já não tinha a maior parte das suas bandagens e estava com os ossos do rosto quebrados.

Para fazer a reconstituição facial em 3D, o pesquisador teve que recompor os ossos da face, juntando e colando-os como num quebra-cabeça. Normalmente, nas reconstituições feitas fora do país, são usadas imagens de tomografia para gerar um modelo tridimensional do esqueleto, que serve como base para recriar a aparência externa da múmia.

Reconstrução
Arqueólogo restaura os ossos do rosto da múmia egípcia Tothmea. (foto: Liliane Cristina Coelho)

Mas as imagens de tomografia de Tothmea disponíveis tinham sido feitas antes de os ossos do rosto serem restaurados, em 1999, e não tinham o detalhamento necessário. “Tivemos que usar nossa criatividade e improvisar”, diz o designer Cícero Moraes. 

Para preencher as lacunas, os pesquisadores tiraram fotografias de diferentes ângulos do crânio de Tothmea e as usaram para gerar uma figura tridimensional com um software livre. Como a múmia ainda tem algumas bandagens cobrindo parte do crânio, os pesquisadores usaram também as imagens de tomografia que tinham para determinar o contorno dos ossos. 

Com a forma de todo o crânio desvendada, os pesquisadores aplicaram à anatomia óssea cálculos já estabelecidos para recompor os relevos faciais de pessoas de etnias africanas. Assim obtiveram uma imagem tridimensional de toda a cabeça da múmia, levando em consideração os músculos, a camada de gordura e a pele.

Confira a reconstituição facial da Tothmea

“Com base em alguns pontos cranianos, é possível calcular certos aspectos da face, como a projeção do nariz”, explica Santos. “Outras características, como a forma e a distribuição dos dentes, nos permitem saber o tamanho aproximado da boca e dos lábios, por exemplo.”

Assim como muitos egípcios, Tothmea tinha a cabeça raspada e provavelmente usava uma peruca no seu dia a dia. Para deixá-la mais parecida com a aparência que devia ter em vida, os pesquisadores inseriram na reconstituição uma peruca como as usadas na época e um colar, também baseado no tipo de joia do período. “A reconstituição é a mais fidedigna possível, baseada nos dados materiais que temos e na literatura científica, até mesmo esses detalhes de acessórios foram inseridos com pesquisa histórica”, diz Santos.

Quem foi Tothmea?

A vida de Tothmea não está totalmente esclarecida pelos pesquisadores, tampouco a causa de sua morte. Pela análise anatômica de seus ossos e pela observação do nível de desgaste de seus dentes, Santos calcula que ela tenha morrido por volta dos 25 anos de idade. Pelas características de seu embalsamamento e pelos registros históricos de sua descoberta, o pesquisador também estima que a jovem tenha vivido provavelmente no século 6 a.C., no chamado período Intermediário egípcio. 

“Não sabemos muito sobre sua vida, até mesmo seu nome verdadeiro não é conhecido”, diz o arqueólogo. “Ela recebeu o apelido de ‘Tothmea’ de um de seus donos, o senhor Farrar, em 1888, como homenagem aos faraós Tothmés que governaram o Egito durante a 18ª dinastia, entre os anos de 1504 e 1425 a.C. Ainda assim, ela é uma das múmias mais bem documentadas que temos no Brasil.”

Santos: “Conseguimos humanizá-la e com isso torná-la mais próxima dos visitantes”

O pesquisador, que estudou a fundo as documentações existentes sobre a múmia, conta que reportagens de jornais da época em que foi encontrada a descreviam como uma sacerdotisa de Isis. Mas ele ressalta que a informação não pode ser tomada ao pé da letra, pois, na época que Tothmea viveu, já não existiam mais sacerdotisas egípcias. “Existe a possibilidade de que ela tenha sido cantora ou musicista de um templo egípcio, mas para ter certeza precisaríamos das inscrições de seu caixão, que já se perdeu há muito tempo.”

Mesmo sem muitos detalhes sobre a vida da múmia, Santos acredita que a reconstituição digital tem instigado o interesse do público por sua história. “Antes da reconstrução, as pessoas olhavam para Tothmea apenas como uma múmia”, diz. “Agora conseguimos com que elas vejam que ela já foi uma pessoa um dia, que teve uma vida. Conseguimos humanizá-la e com isso torná-la mais próxima dos visitantes.”

Clique aqui para ler o texto que a Ciência Hoje das Crianças publicou sobre esse assunto. 


Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

Este texto foi atualizado para incluir a seguinte alteração:
Diferentemente do que informamos anteriormente neste texto, a múmia Tothmea não foi encontrada com as múmias de Séti I, Ramsés II e Nefertari. Essa informação estava nos documentos que vieram com a múmia para o Brasil, mas, segundo o arqueólogo Moacir Santos, está incorreta. (23/08/2013)

Matéria publicada em 22.08.2013

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