Como ensinar os alunos surdos em contextos inclusivos

Professor cria caderno de orientações e estratégias para que docentes de História possam desenvolver seu trabalho partindo do conhecimento das singularidades de seus alunos surdos

Nas últimas décadas, movimentos sociais e políticas públicas respaldadas pela legislação vêm preconizando a educação escolar inclusiva em unidades das redes regulares de ensino. Nesse contexto, ampliaram-se as matrículas de surdos nas escolas comuns. Dadas as necessidades educacionais específicas desses estudantes, que devem envolver metodologias de ensino e recursos humanos/tecnológicos diferenciados, governantes, gestores escolares e educadores se defrontam com uma série de desafios.


Não são poucos os relatos de professores que se sentem despreparados e inseguros ao atuarem em turmas com alunos surdos incluídos

Não são poucos os relatos de professores que se sentem despreparados e inseguros ao atuarem em turmas com alunos surdos incluídos. Eu mesmo fui um deles. Como forma de prover professores e licenciandos de História com informações básicas e sugestões capazes de auxiliá-los no trabalho, foi desenvolvido o Caderno de orientações e sugestões para o ensino de História em classes inclusivas com alunos surdos.

Fruto de uma pesquisa no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino de História (ProfHistória), esse produto foi construído com base no diálogo entre aportes teóricos e a prática de professores que atuam em uma escola polo na educação de surdos.

 

Para entender a surdez

O caderno foi dividido em sete seções. Na primeira, são expostas as motivações que levaram à sua criação. A seguir, são apresentados conceitos-chave relacionados a surdez, fundamentais para que o docente possa desenvolver o seu trabalho, partindo do conhecimento das singularidades de seus alunos surdos. Conhecer quem são esses estudantes constitui-se em pré-requisito obrigatório a quem irá lhes ensinar. Por serem majoritariamente ouvintes, os professores encontram-se distantes da experiência surda de estar no mundo. Portanto, nem sempre são capazes de perceber as reais necessidades do educando surdo. Um olhar menos atento e a incompreensão daqueles a quem a aula se destina podem comprometer o direcionamento do trabalho do professor, resultando, por exemplo, na indiferença de uma didática alheia à diversidade.

Hoje, os surdos se entendem e são entendidos não como pessoas com deficiência, mas como diferentes. Linguisticamente diferentes, porquanto usuários de uma língua de sinais, de modalidade gestual-visual, que lhes permite expressar-se, trocar informações e relacionar-se socialmente. Desse modo, sob a ótica da diferença, a tarefa maior do professor de alunos surdos não é superar incapacidades, mas despertar potencialidades.

Pontos fundamentais para uma aula inclusiva

O caderno, após as considerações iniciais, volta-se para o como ensinar os alunos surdos em contextos inclusivos, elencando uma série de diretrizes fundamentais para orientar as práticas dos professores de História. São elas: aprender e usar Libras; atentar para a presença de alunos surdos a partir do planejamento das aulas, programando ações que contemplem as especificidades desses discentes; pesquisar sobre os surdos e o ensino (de História) para tais sujeitos; utilizar estratégias e recursos pedagógicos diferenciados; promover a participação e a integração entre todos os alunos; redobrar os cuidados com a didática; considerar o aluno surdo na escolha do livro didático (nesse caso, nem sempre o que apresenta um texto de melhor qualidade é o mais adequado); ter respeito linguístico; compartilhar experiências e militar pela inclusão.

 

Ações pedagógicas necessárias

Ainda que incluídos nas classes comuns, os alunos surdos correm o risco de ser excluídos, caso, além do desamparo de recursos humanos e materiais, cuja provisão compete a gestores das escolas e redes de ensino, não contem com o uso de ações pedagógicas docentes, visando ao atendimento de suas especificidades e necessidades. Nesse sentido, o caderno apresenta três sugestões de estratégias voltadas ao ensino e à avaliação em turmas com educandos surdos incluídos. Todas originadas em práticas docentes.


Estudantes ouvintes foram desafiados a apresentar uma síntese da Segunda Guerra Mundial em língua de sinais

Na primeira, denominada ‘roteiro imagético’, os conhecimentos são construídos a partir da leitura de um conjunto de imagens, respeitando assim a importância da visualização dentre as formas de os surdos apreenderem o mundo. A segunda refere-se à produção de resumos de conteúdos curriculares em Libras, utilizando como modelo uma experiência pedagógica na qual estudantes ouvintes foram desafiados a apresentar uma síntese da Segunda Guerra Mundial em língua de sinais.

Fechando as sugestões, dois exemplos de instrumentos de avaliação que possibilitam a garantia aos estudantes surdos do direito de serem avaliados em Libras.

 

Desenvolvimento também para os ouvintes

As ações sugeridas no caderno foram mobilizadas a partir de uma preocupação com os alunos surdos, contudo não são necessariamente exclusivas a esses educandos, sendo capazes também de contemplar os demais. Uma pedagogia diversificada para surdos também produz bons resultados para os ouvintes que com eles estudam. A própria experiência em si da educação inclusiva possibilita a formação de sujeitos mais sensíveis, empáticos e que respeitam as diferenças humanas.

Embora o caderno destine-se ao ensino de História, as considerações e sugestões apresentadas podem ser adaptadas em contextos de outras disciplinas. Importante destacar ainda que não há aqui a intenção, e tampouco a pretensão, de oferecer respostas a todos os desafios relacionados ao ensino para alunos surdos ou preencher as lacunas de uma formação deficitária. Da mesma forma que a matrícula de um aluno surdo em uma escola regular não deve ser confundida com a inclusão em si, sendo apenas o seu início, as orientações apresentadas no caderno devem ser entendidas como um texto de sensibilização e apoio inicial aos professores e futuros docentes.


A matrícula de um aluno surdo em uma escola regular não deve ser confundida com a inclusão em si, sendo apenas o seu início

A partir dele, recomendamos que outras pesquisas e fontes de informação sejam consultadas, algumas indicadas na seção que encerra o material (todas disponíveis em meios eletrônicos).

O caderno vem sendo apresentado em formações continuadas promovidas por diferentes redes de ensino e em eventos acadêmicos, obtendo uma resposta bastante positiva junto aos professores participantes. Sua publicação deve ocorrer em breve. Por ora, pode ser acessado neste link.

Paulo José Assumpção dos Santos

Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Surdez – GEPeSS (DGP/CNPq)

Matéria publicada em 27.11.2020

COMENTÁRIOS

  • Anônimo

    Excelente aula

    Publicado em 28 de novembro de 2020 Responder

  • Vinícius Yuri

    Que orgulho!!! Melhor professor de História que eu já tive ♥️

    Publicado em 28 de novembro de 2020 Responder

  • Celeste Azulay Kelman

    Que trabalho maravilhoso!!! Excelentes dicas que também podem ser adaptadas para outras disciplinas. Viva a inclusão!!!!

    Publicado em 28 de novembro de 2020 Responder

  • Marcelo do vale

    Alô, Paulão !!! Vindo de você é a certeza de um trabalho de excelência !

    Publicado em 28 de novembro de 2020 Responder

  • Quedima Soares

    Orgulho desse amigo que sempre respeita o próximo e procura promover ações de conciliação entre oponentes, sua atitude ética é parte de sua personalidade. Daí esse maravilhoso trabalho que realmente o faz na prática. Parabéns!

    Publicado em 30 de novembro de 2020 Responder

  • IZADORA MOLAS ALVES

    Material excelente, sempre o utilizo como embasamento teórico para orientar professores na produção de aulas mais acessíveis a seus alunos com alguma necessidade educacional especial!

    Publicado em 2 de maio de 2021 Responder

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