Pequena história da individualidade genética humana

Nerso da Capitinga, personagem da extinta Escolinha do Professor Raimundo na Rede Globo, gostava de dizer: “eu é eu, e o sinhorr é o sinhorr ”. Meu ilustre conterrâneo mineiro não estava mais que registrando a irredutível dimensão de sua individualidade.

Mesmo no meio de uma multidão nós preservamos nossa individualidade, que tem sólido substrato genético.

A individualidade não é nem uma qualidade nem uma categoria; é um modo de ser. Caracterizar algo com tendo individualidade é apontar sua relação especial com tudo aquilo que não é. Assim, podemos definir a individualidade humana como o conjunto de qualidades que distinguem uma pessoa da outra. Estas incluem características físicas, metabólicas e comportamentais. A individualidade do ser humano emerge da interação do seu genoma singular com a sucessão de ambientes em que viveu, sua história de vida. A singularidade genética não é suficiente para explicar totalmente a individualidade humana, mas certamente constitui o elemento mais fundamental da mesma.

Cada genoma humano é único – com exceção de gêmeos monozigóticos, nunca existiram nem vão existir na humanidade dois genomas iguais. Em outras palavras, o genoma de cada pessoa é uma coisa nova neste mundo e nunca vai se repetir.

O foco da nossa coluna este mês será a história de como evoluíram os nossos conceitos sobre a individualidade genética humana.

Gênese do conceito de individualidade genética
Tudo começou bem no inicinho do século passado, com um artigo publicado em 1902 na revista The Lancet pelo médico inglês Archibald Garrod (1857-1936). O artigo (que vale a pena ser lido e pode ser baixado aqui ) tinha um título particularmente ambicioso: “The incidence of alkaptonuria: a study in chemical individuality” (A incidência da alcaptonuria: um estudo em individualidade química).

Archibald Garrod (1857-1936), o genial médico inglês responsável pelo conceito de individualidade genética humana.

Nele, a partir da observação da alcaptonuria, do albinismo e da cistinuria – três doenças que mais tarde (1909) viria a chamar de “erros inatos de metabolismo” – Garrod chegou à seguinte conclusão (minha tradução): “o pensamento naturalmente nos ocorre que essas doenças são apenas exemplos extremos de comportamento químico que provavelmente estão presentes em todos em um grau menor, e, assim como nunca dois indivíduos de uma espécie são absolutamente iguais em estrutura corporal, seus processos químicos também não são feitos da mesma maneira”.

Passaram-se 60 anos antes que obtivéssemos as evidências experimentais que pudessem comprovar a tese de Garrod, a partir de duas grandes descobertas em genética humana. Uma foi o achado, feito por Harry Harris (1919-1994) e seu grupo em Londres, de uma enorme abundância de variabilidade genética nas proteínas do corpo humano. A outra foi a descoberta e caracterização, por Jean Dausset (1916-) em Paris, dos altamente variáveis antígenos de histocompatibilidade humana, o chamado “sistema HLA”.

Para defender o corpo do mundo exterior – isto é, o “não-eu” – o sistema imune precisa aprender a reconhecer o “eu”, senão corre o perigo de atacar a si próprio. Para tal, as células do corpo, que constituem o “eu”, são rotuladas em sua parte externa por arranjos específicos e altamente personalizados de moléculas de HLA, como códigos de barra nos produtos comerciais. O sistema HLA assim constitui o marcador que o corpo humano usa para registrar a sua própria individualidade biológica e proteger sua integridade.

 

A era do DNA

A partir de 1960 o nosso entendimento das bases genéticas da individualidade humana cresceu rapidamente. Com o florescimento da engenharia genética na década de 1980 passamos a estudar a variação genética humana diretamente no DNA, em nível genômico. Descobrimos assim uma riqueza de variabilidade nunca antes sonhada. Através de vários tipos de marcadores [minissatélites, microssatélites, polimorfismos de seqüência (SNPs), polimorfismos de inserção-deleção (indels) – para informações sobre estes de marcadores, veja o glossário] podemos hoje caracterizar no laboratório a individualidade genômica humana e aplicar esse conhecimento em criminalística, testes de paternidade, estudos de ancestralidade e investigações de doenças genéticas.

Nos últimos cinco anos tornou-se evidente que uma grande parte do genoma humano está composta por “blocos haplotípicos” nos quais os marcadores de variabilidade estão fortemente ligados, quase nunca ocorrendo recombinações entre eles. Assim, é possível visualizar cada genoma humano como um mosaico composto de milhares desses blocos, cada um com seu padrão peculiar de variabilidade e origem genealógica própria (para saber mais clique aqui).

Emerge daí um “paradigma do genoma variável mosaico” (GVM) que conceitualiza os seres humanos não como membros de populações específicas, mas como pessoas singulares, portadoras de genomas altamente individuais compostos de diferentes e extremamente variáveis segmentos com genealogias independentes. É óbvio que, dentro desse paradigma, conceitos populacionais tais como “raças” se desvanecem. A única divisão biologicamente coerente da humanidade é em 6,5 bilhões de indivíduos.


Variabilidade genômica e a ancestralidade do brasileiro

O nosso grupo de pesquisa na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tem se dedicado a estudar o povo brasileiro em sua formação e estrutura. Como no Brasil somos produto da intensa mistura de três raízes ancestrais – ameríndia, européia e africana –, a nossa gente tem um dos maiores níveis de variabilidade genética do planeta. Os leitores interessados podem baixar todos os nossos artigos originais referentes a essa área no seguinte site: http://laboratoriogene.info/Genealogia_por_DNA/artigos.htm.

 

O famoso quadro Operários , pintado em 1933 por Tarsila do Amaral (1886-1973), mostrando o mosaico de faces altamente individuais dos operários brasileiros. Subjacente a essa individualidade morfológica está a singularidade genômica que caracteriza cada ser humano.

Dois pontos principais resumem nossos resultados: primeiro, o nível de mistura gênica do povo brasileiro é muito maior do que anteriormente imaginado; segundo, a correlação entre cor e ancestralidade no brasileiro é tênue, ou seja, em nível individual é praticamente impossível inferir a ancestralidade genômica de um brasileiro a partir de sua cor.

A partir daí, vejamos então quais são as nossas conclusões principais. Conclusão 1: independentemente da cor de sua pele, a vasta maioria dos brasileiros tem um grau significativo de ancestralidade africana. Conclusão 2: independentemente da cor de sua pele, a vasta maioria dos brasileiros tem um grau significativo de ancestralidade européia. Conclusão 3: independentemente da cor de sua pele, uma grande porção dos brasileiros tem um grau significativo de ancestralidade ameríndia.

Assim, não faz sentido falar sobre “populações” de brasileiros brancos ou de brasileiros negros por causa da pobre correlação entre cor e ancestralidade. Também não faz sentido falar em afrodescendentes, eurodescendentes ou ameríndio-descendentes, porque a maioria dos brasileiros tem simultaneamente uma proporção significativa de ancestralidade africana e européia e ameríndia. A única maneira possível de conceitualizar cada brasileiro é no âmbito de sua individualidade, como um ser humano único em seu genoma singular genealogicamente mosaico e em sua história de vida.

Se nos fosse possível comunicar com os mortos, poderíamos, no espírito de Rolando Lero (também personagem da Escolinha do Professor Raimundo) enviar a Archibald Garrod um e-mail: “Amado mestre…Captamos! Captamos a vossa mensagem!”


Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais
13/10/2006

 

Matéria publicada em 13.10.2006

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