A pré-história do mal de chagas

Populações que habitavam a América do sul há 9 mil anos já conviviam com a doença de Chagas. A descoberta foi feita por pesquisadores dos Estados Unidos, Chile, Colômbia e Itália, que encontraram resquícios de DNA do parasita causador da doença ( Trypanosoma cruzi ) em múmias do norte do Chile e sul do Peru. O estudo, realizado com a aplicação de técnicas de biologia molecular às pesquisas paleontológicas, se enquadra numa disciplina que estuda as relações entre populações ancestrais e parasitas causadores de doenças: a paleoparasitologia.

Múmia escavada no deserto do Atacama e analisada em busca de vestígios do causador do mal de Chagas (foto: A. Aufderheide)

Os cadáveres estudados foram encontrados no deserto do Atacama (norte do Chile e sul do Peru) e faziam parte da cultura Chinchorro, primeiro grupo humano a povoar a zona costeira desse deserto. Ao todo, foram coletadas amostras de tecido de 283 múmias, das quais 40,6% apresentaram resultado positivo nos testes para presença do protozoário T. cruzi . Estágios avançados da doença foram identificados em 3% da população contaminada.

O coordenador da pesquisa Arthur Aufderheide, professor do departamento de patologia da Universidade de Minnesota, EUA, explicou à CH On-line que o clima adverso da região contribuiu para a mumificação dos cadáveres, que ocorreu de forma natural. “Condições climáticas específicas fazem do deserto do Atacama uma das regiões mais áridas do mundo, o que, somado à alta ocorrência de sais de nitrato, promove o ressecamento e a conservação dos tecidos moles, essenciais a esse tipo de pesquisa.”

As análises foram feitas em exemplares com idade entre 1.500 e 9.000 anos de idade. Estudos comparativos concluíram que não houve variação significativa de contágio nesse período, inclusive entre as categorias sexo, idade e subgrupo cultural.

Os resultados da pesquisa, publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences em 19 de dezembro de 2003, indicam que o ciclo selvagem do parasita (de contaminação de mamíferos silvestres) já estava bem desenvolvido. “Nosso estudo revelou que a presença do T. cruzi é anterior à dos primeiros homens da região”, constata Arthur. “Os colonos provavelmente tiveram contato com o inseto transmissor da doença (o barbeiro) ao habitarem áreas próximas a animais silvestres contaminados. Mais tarde, o barbeiro se adaptou às moradias rudes dos habitantes e disseminou a doença de homem para homem, infectando inclusive animais domésticos.”

Apesar de milenar, a doença só seria identificada e descrita em 1908, pelo sanitarista brasileiro Carlos Chagas, e ainda não tem cura. “A doença de Chagas, que afeta aproximadamente 18 milhões de pessoas atualmente, já podia ser considerada epidêmica há 9.000 anos”, diz o professor.

Julio Lobato
Ciência Hoje On-line
04/03/04