Abismo cognitivo

Qual o impacto de um ambiente com restrições econômicas na formação cognitiva de uma criança? Em pesquisa inédita no país, fonoaudiólogos e psicólogos de três universidades brasileiras e da Universidade de Luxemburgo avaliaram a influência dos meios familiar e escolar no desenvolvimento da linguagem e de funções executivas de estudantes dos primeiros anos do ensino fundamental, como habilidades ligadas à memória, inibição de distrações e criatividade. O estudo sugere que a intervenção na pré-escola pode ser eficiente para contornar eventuais danos e, em longo prazo, um elemento para reverter o quadro de desigualdade social do país. 

O relatório A pobreza e a mente analisou o vínculo entre as disparidades sociais e a educação para entender o quanto o desenvolvimento cognitivo é afetado por situações de vulnerabilidade socioeconômica. O estudo, que contou com a participação de especialistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coletou dados de 355 estudantes. Os alunos estavam matriculados no primeiro e segundo anos do ensino fundamental de 17 escolas públicas e privadas localizadas em São Paulo e Salvador. 

A linguagem e as funções executivas dos estudantes foram analisadas por meio de diversos testes. Além de questionários destinados aos professores, pais e responsáveis, as crianças passaram por avaliações sobre desempenho emocional, memória operacional, flexibilidade de pensar para atender a situações diversas e a capacidade de concentração para prestar atenção em determinada tarefa, entre outros. A partir dos dados coletados, foi estabelecida a comparação de desempenho entre os estudantes das escolas públicas e particulares. 

Linguagem é a habilidade mais prejudicada

O maior contraste foi no quesito linguagem, cerca de 50% mais desenvolvida entre os alunos de instituições particulares. “O que estamos mostrando é que metade da nossa habilidade de linguagem é moldada pelo ambiente em que vivemos”, explica Marina Puglisi, professora do Departamento de Fonoaudiologia da Unifesp e uma das autoras do relatório, apontando que a qualidade e a quantidade dos estímulos às crianças por meio de trocas e interações são os principais fatores envolvidos no desenvolvimento da linguagem.  Em relação aos testes de funções executivas, a disparidade foi menor, mas ainda assim preocupante – os estudantes de escolas privadas obtiveram notas cerca de 30% melhores. “Habilidades como a memória dependem menos do meio”, avalia Puglisi. 

A pesquisa é a primeira no Brasil a explorar o impacto da baixa renda e pouca escolaridade dos pais no desempenho escolar infantil. “Por mais que as pesquisas internacionais nos informem acerca do impacto do nível socioeconômico sobre a cognição, é fundamental que possamos replicar essas investigações, considerando nossas especificidades de ordem econômica, social e educacional”, comenta a psicóloga Natália Dias, coordenadora do Grupo de Investigação em Neuropsicologia, Desenvolvimento e Educação do Centro Universitário da Fundação Instituto de Ensino para Osasco, de São Paulo.

“É um mecanismo que perpetua as desigualdades, em que crianças de famílias mais desfavorecidas tendem a ter funções executivas pobres”

Apesar de ressaltar o potencial transformador da educação para o desenvolvimento social do Brasil, o relatório é taxativo: com a configuração atual, o abismo socioeconômico do país será mantido. “É um mecanismo que perpetua as desigualdades, em que crianças de famílias mais desfavorecidas tendem a ter funções executivas pobres, o que por sua vez, lhes confere menor chance de sucesso escolar e social, perpetuando 

A solução para um problema dessa magnitude não é simples. Entretanto, o relatório aponta direções promissoras, como a implementação de políticas públicas educacionais para que, independentemente da classe social, as crianças possam ter condições de aprender de forma contínua ao longo da vida. “A educação infantil de alta qualidade, especialmente aquela inspirada em programas mais direcionados e com fundamentação científica, pode desempenhar um papel importante no estabelecimento de uma base cognitiva sólida”, afirma o documento.

Além disso, os pesquisadores sugerem a capacitação dos professores e o incentivo à participação de profissionais de outras áreas na educação. “É crucial entender que o problema da educação é um problema multidisciplinar, e não de um ou outro profissional. A formação dos professores da educação básica carece de um melhor entendimento sobre aspectos relacionados ao desenvolvimento infantil e àquilo que chamamos de distúrbios do desenvolvimento”, destaca Carolina Nikaedo, que atua no Departamento de Psicobiologia da Unifesp e também assina o estudo. 

Iara Pinheiro
Especial para a CH Online

Matéria publicada em 06.01.2016

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