à espreita do momento decisivo

Assim como os fotógrafos Henri Cartier-Bresson e Robert Doisneau contribuíram para a fixação de algumas das imagens mais emblemáticas da França do século 20, o mesmo período, no Brasil, deve muito ao olhar do gaúcho Flávio Damm. Do lírico ao irônico, suas lentes acompanharam – e continuam acompanhando – boa fatia da história brasileira, não tanto a que pode ser divisada dos palácios, mas, sobretudo, a que acontece pelas ruas afora.

Do lírico ao irônico, suas lentes acompanharam – e continuam acompanhando – boa fatia da história brasileira

Cenas cotidianas, como a de um casal que se beija ou de duas freiras caminhando, lado a lado, ganham sentidos insuspeitos pelo requinte estético, alcançado pela ênfase na composição somada ao momento preciso do clique. Também é de Flávio Damm a famosa fotografia de Juscelino Kubitschek à frente de gigantesca águia de bronze – uma das oito que decoram o alto do Palácio do Catete –, cujas asas parecem pertencer ao “presidente voador”, como era então conhecido JK.

Flávio Damm é um dos integrantes da exposição ‘Um olhar sobre O Cruzeiro: as origens do fotojornalismo no Brasil’, que, depois de exibida no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro, segue para o mesmo instituto em São Paulo, onde fica de novembro a março do próximo ano. Seu trabalho também pode ser conhecido na mostra ‘Passageiro do preto e branco’, já apresentada em Curitiba e que aporta em novembro na Caixa Cultural do Rio de Janeiro.

Flávio Damm, nascido em 1928 no Rio Grande do Sul, começou sua atividade jornalística em 1946 na Revista do Globo, em Porto Alegre. De 1949 a 1960, trabalhou na revista O Cruzeiro, ao lado de outros ícones da fotografia nacional, como José Medeiros, Henri Ballot, Pierre Verger, Eugenio Silva, Jean Manzon e Marcel Gautherot. A revista foi um divisor de águas no fotojornalismo brasileiro, antes “estanque e medíocre”, nas palavras de Damm.

Boa parte do acervo fotográfico d’O Cruzeiro, bem como o de outros importantes fotógrafos, pertence hoje ao Instituto Moreira Salles. “O IMS tem um papel importante e certamente definitivo na preservação desse patrimônio”, diz o fotógrafo. Ele observa que o IMS usa tecnologia de ponta na manutenção dos negativos, o que pode compensar o modo nem sempre satisfatório como foram processados em sua origem. “Quando não ocorre um processamento muito correto – muitas vezes o filme tinha que ser revelado às pressas –, algumas substâncias químicas permanecem na película e esse resíduo continua atuando ao longo do tempo; hoje, é possível corrigir isso pela digitalização”, explica.

Damm tem arquivados cerca de 60 mil negativos, que constituem o seu acervo pessoal. Como até o momento não recebeu proposta de compra, faz blague, dizendo que “quem compra prefere negociar com uma viúva, pois ficará mais barato”.

Breviário

Desde que saiu d’O Cruzeiro, Flávio Damm nunca deixou de trabalhar como fotojornalista, mas preferiu ser independente. “Sou desempregado há 59 anos, desconheço o que é patrão”, brinca.

“A gente retira os enfeites da cor para privilegiar o conteúdo e a composição”

Nesse período, ilustrou 26 livros – incluindo quatro de Jorge Amado –, fez inúmeras exposições, vendeu para galerias e colecionadores no Brasil e no exterior. E muito raramente, nesse percurso, foi infiel ao preto e branco. “Quando entrei para O Cruzeiro, coloquei a condição de só operar em P&B”. E qual a razão dessa adesão incondicional ao preto e branco? “A gente retira os enfeites da cor para privilegiar o conteúdo e a composição”, responde.

Ainda hoje, Damm sempre carrega consigo uma discreta Leica M2 com lente normal de 50 mm, oculta sob o paletó. Não busca mais o fato diário, como na época d’O Cruzeiro, mas o motivo inusitado – “a minha notícia”, diz, revelando admiração e afinidade com o fotógrafo mexicano Manuel Álvarez Bravo, que afirmava que o surreal está presente no cotidiano.

Um dos oito fotógrafos brasileiros bressonianos destacados por Eder Chiodetto, curador de fotografia do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Damm não faz cortes em suas imagens, usa apenas luz ambiente (nunca iluminação artificial), e rejeita as teleobjetivas. A estas (“perigosíssimas”, diz), prefere a lente normal, cuja abertura corresponde aos 45 graus da visão humana. Com essa lente, consegue passar despercebido das pessoas visadas. “Quando sinto que a pessoa vai notar, não tiro a foto, porque nesse caso desmancha a cena; normalmente me aproximo como um gato e fujo como um rato”, conta.

Como bom bressoniano, Damm persegue o “momento decisivo” – aquele da foto que, entre as tantas tiradas, ficará valendo. “Uma, e só uma – a boa.” Em alusão ao suporte ainda usado por muitos fotógrafos, ele enumera o seu “tripé fundamental”, o da boa fotografia. “É preciso ter a sorte de encontrar o assunto, paciência para esperar seu melhor momento e talento, que é uma consequência da aprendizagem, no instante do clique. Esse é o tripé que eu pratico.”

A foto que valeu

A pedido do sobreCultura, Flávio Damm selecionou três fotos suas que, premiadas, tiveram grande repercussão. A seguir, seus comentários sobre cada uma delas:

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Um cândido pintor Portinari

“Quando estava para nascer sua neta, Candido Portinari planejou fazer – como fez – 24 retratos da menina. Como bebê chora, dorme, tem dor de barriga etc., ele achou que seria uma boa ideia fazer os retratos de Denise a partir de fotos. Seu assistente, o pintor Enrico Bianco, me chamou para fazer essas fotos. Comecei antes mesmo do nascimento da criança. Uma foto de Portinari pintando a balança que serviria para pesar a neta acabou sendo publicada, em quatro colunas, na primeira página do Jornal do Brasil. Como havia muito tempo ocioso entre uma foto e outra, pedi permissão para fotografar o pintor enquanto trabalhava. Ele fazia na ocasião uma série de painéis para o Banco de Boston. Ficava tão absorto no trabalho que se esquecia da minha presença. Acompanhei seus últimos dois anos de vida e nos tornamos amigos. Fiz 800 negativos. Quando completaram-se dez anos de sua morte, publiquei Um cândido pintor Portinari, com fotos e texto também de minha autoria, livro hoje esgotado.”
JK1958

JK, o presidente voador
“Essa foto foi tirada para O Cruzeiro, no início da construção de Brasília. Não lembro precisamente o ano, foi entre 1956 e 1958. Juscelino Kubitschek viajava com muita frequência, pois a sede do governo ainda era o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Daí surgiu o seu apelido de presidente voador. Juca Chaves até fez uma música sobre o fato. Para facilitar sua movimentação entre o palácio e o aeroporto, a Força Aérea Brasileira criou um heliporto na cobertura do prédio do palácio, onde há oito imensas esculturas de águias. Fui pautado pela revista para a inauguração do heliporto e o primeiro voo do presidente dali para o Palácio das Laranjeiras. Enquanto o helicóptero era preparado, propus fazer seu retrato na cobertura e o conduzi até que seu corpo e cabeça coincidissem com a águia, de modo que as asas parecessem pertencer a ele. Não é do meu feitio armar uma situação, mas nesse caso foi uma maneira de transformar o cotidiano em surreal. Uma cópia gigante dessa fotografia está hoje no Memorial JK, em Brasília.”

Praça Camões

Praça Camões, Lisboa
“Surgiu uma boa chance quando vi essa imagem numa parede no Largo Camões, em Lisboa. Henri Cartier-Bresson dizia que nas paredes estão os desafios para boas fotos. Em uma obra em construção, fiquei parado uns 40 minutos diante dessa curiosa e intrigante figura de um homem correndo para apanhar um guarda-chuva voador. Como se vê, o perfil do homem pintado na parede é em tudo igual – sapatos, chapéu, estatura e sobretudo – à figura do passante. Antes, fotografei muitas pessoas passando, não sabia o que podia acontecer, até que houve um momento em que vi essa figura repetida, o que eu precisava para uma foto surreal. Foi ali o meu momento, o momento do tripé ‘sorte+paciência+talento’.”


Sheila Kaplan

Ciência Hoje/ RJ