A nova política da América Latina

 

Na posse da nova presidente do Chile, Michelle Bachelet, em 11 de março de 2006, encontraram-se alguns chefes de estado responsáveis por conformar um novo cenário político na América Latina. Na primeira fila, da esquerda para direita, Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Alejandro Toledo (Peru; ele será sucedido por Alán Garcia, eleito em junho), Néstor Kirchner (Argentina), Michelle Bachelet, Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) e Tabaré Váquez (Uruguai). (Foto: Presidência da Argentina)

Bolívia, Chile, Colômbia, México e Peru são alguns dos países latino-americanos que tiveram eleições presidenciais nos últimos meses. Junto com eles, as recentes sucessões no poder executivo de Brasil, Argentina, Uruguai, Venezuela e outros países ajudaram a conformar um novo panorama político na região, marcado por uma alternativa ao pensamento único hegemônico que emergiu após o fim do longo período de ditaduras e por um fortalecimento institucional. Esse novo cenário foi discutido por sociólogos e cientistas políticos em uma mesa-redonda na 58a reunião anual da SBPC.

O panorama político latino-americano que está emergindo deve ser enxergado à luz da história recente da região. No início do século 20, os países do continente viveram um período de modernização das estruturas políticas, sociais e culturais, marcado pela urbanização acelerada e pela emergência de líderes populistas de grande carisma, como o brasileiro Getúlio Vargas e o argentino Juan Domingo Perón.

A era do populismo foi seguida por um ciclo de ditaduras militares, que ocuparam o poder em boa parte dos países latino-americanos de meados dos anos 1960 ao início dos anos 1990. A transição gradual para a democracia se deu em um contexto de alta do petróleo e ameaça de hiperinflação. Para enfrentar a crise, muitos países da América Latina adotaram então políticas macroeconômicas de tendência neoliberal, caracterizadas por privatizações, contenção de gastos e corte de benefícios sociais.

As mudanças recentes no panorama político da América Latina oferecem justamente um contraponto a esse modelo, segundo a análise do cientista político Benedito Tadeu César, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e participante da mesa-redonda. “Vivemos um momento muito rico, que não é um retorno ao velho populismo nem o trilhar de uma esquerda tradicional”, avalia. “Trata-se da busca de uma alternativa a esse modelo hegemônico que nenhum de nós sabe ainda o que é.”

Segundo o cientista político, o panorama político atual é caracterizado ainda por um fortalecimento institucional no conjunto da América Latina, em graus variados em cada país. “Com todos os problemas, há um fortalecimento partidário e do poder legislativo, além de um processo de respeito às forças políticas contrárias, que não se via no período da hegemonia do neoliberalismo.”

Integração sul-americana
Na avaliação da cientista política Ingrid Sarti, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o novo cenário político configura o momento ideal para que se instaure a necessária integração do bloco da América do Sul. Segundo ela, essa união não deve se pautar por um sentimento anti-Estados Unidos. “Não somos anti-americanistas; somos sul-americanos. Como diz o peruano Alán Garcia, o que está em jogo é uma integração sul-americana livre de ideologias.”

Sarti considera a integração do continente fundamental neste contexto histórico em que temos um bloco hegemônico forte sem qualquer contraponto, ao contrário do que havia na época da Guerra Fria. “Neste momento do capitalismo em que o conhecimento é moeda forte, é absolutamente relevante que a América do Sul se afirme como bloco e que tenha como meta a autonomia dos nossos povos e a redução das profundas desigualdades que mantivemos até aqui”, afirma.

Voz dissonante
Uma interpretação diferente do cenário político latino-americano atual foi apresentada quando a mesa-redonda foi aberta ao debate. O especialista em relações internacionais Alcides Costa Vaz, professor da Universidade de Brasília (UnB), discordou da visão dos debatedores. “Os processos eleitorais recentes na América Latina confirmam uma fragmentação política na região, em vez de marcar um fortalecimento de forças progressistas”, considera. “O que delineia melhor a nossa região é uma cisão entre forças nacionalistas – em países como Argentina, Brasil, Uruguai, Bolívia, Venezuela e Cuba – e forças liberais – no Chile e em outros países.”

Segundo Vaz, a fragmentação política latino-americana é marcada por visões antagônicas sobre um projeto regional para o continente, sobre estratégias de desenvolvimento e prioridades políticas. “O que termina unindo a América Latina – ou mantendo algum grau de coexistência civilizada entre diferentes regimes políticos – é apenas um sentido de pragmatismo muito forte”, afirma ele. “É o pragmatismo, e não a ideologia, que dita a postura do Uribe com o Chávez, do Kirchner com o Chávez ou do Lula com o Uribe.”

Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line
19/07/2006