Agricultura variada e sustentável

O que japoneses, floresta amazônica, pimenta-do-reino, pequenos produtores e agroindústria têm em comum? Essa combinação inusitada está fazendo sucesso no pequeno município de Tomé-Açu, no Pará, onde uma cooperativa de produtores rurais descendentes de japoneses tem utilizado sistemas agroflorestais como forma de cultivo sustentável e lucrativa. A metodologia, que permite a criação de produtos mais saudáveis e renda o ano inteiro, pode ser replicada em outras áreas da Amazônia.

A ideia básica de um sistema agroflorestal é realizar o plantio integrado de diferentes espécies vegetais, de tamanho variado, juntas em uma mesma área, formando diversos ‘andares’ – o processo recebe justamente o nome de agricultura em andares.

Apesar de não haver um limite pré-definido de combinações, a maioria dos sistemas costuma integrar entre duas e quatro culturas. O conjunto cria uma vegetação densa que protege o solo e oferece sombra às espécies menores. A ideia não é nova – alguns grupos indígenas da Amazônia já a praticavam –, mas a discussão sobre sua utilização como alternativa para a agricultura da região é bastante atual.

Em Tomé-Açu, a instalação desse tipo de plantio começou após o declínio da monocultura da pimenta-do-reino na região, conforme contou o produtor rural Michinori Konagano, um dos diretores da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta), em mesa-redonda realizada na última quinta-feira (26/7), na Reunião Anual da SBPC em São Luís (MA).

Michinori Konagano
O produtor rural Michinori Konagano apresenta na reunião da SBPC o sistema agroflorestal implantado na década de 1970 em Tomé-Açu. O município paraense é referência nesse tipo de plantio e vem compartilhando sua experiência com as regiões vizinhas. (foto: M. Garcia)

Os imigrantes japoneses que chegaram ao município no fim da década de 1920 trabalharam até os anos 1970 no plantio da especiaria, quando a queda dos preços e epidemias nos pimentais abriram espaço para a entrada dos sistemas agroflorestais na região.

De lá para cá, o sistema foi aperfeiçoado na base da tentativa e do erro para a escolha das melhores combinações de espécies. Hoje, Tomé-Açu é referência nesse tipo de plantio e a cooperativa acumula diversos prêmios relacionados a empreendedorismo e sustentabilidade.

Em suas florestas-plantações, os cerca de 300 membros do grupo dedicam-se ao cultivo do cacau e da pimenta-do-reino, combinado com o de diversas outras espécies, como cupuaçu, mamão, açaí, coco, maracujá, castanha-do-pará, borracha natural e paricá.

Além disso, a Camta promove e orienta a adoção dos sistemas agroflorestais para agricultura familiar em municípios vizinhos e realiza a comercialização dessa produção, um projeto que atende cerca de mil famílias da região.

Segredo oriental?

O sistema agroflorestal oferece uma série de vantagens: como existe muita matéria orgânica no solo, há menos necessidade de adubos e agrotóxicos, o que gera alimentos mais saudáveis. “A cobertura vegetal abundante também retém a umidade da terra, protege as plantações do Sol e proporciona um ambiente mais agradável para o trabalho no campo”, listou Konagano. “Além disso, o plantio de diversas culturas ao mesmo tempo permite a produção continuada e gera renda durante o ano todo.”

“A cobertura vegetal abundante também retém a umidade da terra, protege as plantações do Sol e proporciona um ambiente mais agradável para o trabalho no campo”

O produtor rural explicou, no entanto, que o sucesso da Camta não pode ser explicado apenas pela forma de plantio. Ele aponta o desenvolvimento da agroindústria como essencial para a consolidação do sistema no município – a primeira fábrica do projeto foi estabelecida na década de 1980, com apoio do governo japonês. Hoje a cooperativa exporta artigos como óleos, geleias e polpas de fruta, o que agrega valor ao produto natural. Além disso, reutiliza os restos orgânicos como adubo para a plantação.

Apesar das vantagens do sistema agroflorestal e de existirem outros grupos que realizam esse tipo de cultura na região, ele está longe de ser o mais usual. Para Konagano, o maior gargalo é o escoamento da produção. “Uma iniciativa que pretenda incentivar o sistema deve se preocupar em conquistar acesso aos mercados consumidores”, avaliou. “Se o produtor não puder vender sua produção, passa a se dedicar a outras atividades que destroem a floresta, como a extração de madeira e a pecuária.”

Aspectos culturais e questões econômicas também dificultam a popularização do sistema. “Quando implementada, essa forma de agricultura pode demorar um pouco a dar lucro, pois algumas espécies precisam de mais tempo até a primeira colheita”, alertou. “Além disso, há certa resistência do produtor em abandonar a tradição da monocultura e é mais difícil obter recursos, devido à falta de conhecimento técnico nas instâncias financiadoras para avaliar o negócio”, ponderou.

“Temos orgulho de poder formar nosso próprio pessoal em Tomé-Açu e estamos abertos a receber interessados em aprender sobre a metodologia”

Para contornar essas dificuldades, Konagano ressaltou a necessidade de se observar a realidade dos agricultores. “É difícil modificar algo tradicional com muita rapidez; uma boa alternativa é compor o sistema agroflorestal com culturas já plantadas na região”, cogitou. “Mas é importante também estar atento ao mercado consumidor e às oportunidades. Por exemplo, hoje o Brasil importa cacau e borracha, então esses podem ser produtos mais lucrativos.”

O produtor ressaltou ainda a importância da formação de mão-de-obra especializada na área. “Temos orgulho de poder formar nosso próprio pessoal em Tomé-Açu e estamos abertos a receber interessados em aprender sobre a metodologia para aplicá-la em outras localidades”, disse. “Há pouco tempo recebemos produtores da Bolívia e do Amazonas, que passaram alguns dias no município e já começaram a implementar o sistema em suas comunidades. Estão todos convidados a fazer o mesmo.”

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line