Antropologia na ch on-line

Antropologia na CH On-line
O antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte, do Museu Nacional/ UFRJ, é o titular da coluna Sentidos do mundo.

O sentido, o significado da experiência humana no mundo é a matéria da antropologia. O sentido das relações sociais, das instituições, dos sistemas de valores e crenças, das linguagens e dos códigos, das práticas simbólicas mais elaboradas às mais corriqueiras, tudo isso se apresenta como desafio a uma compreensão e interpretação integrada e coerente.

A antropologia, assim como as demais ciências humanas, se distingue tanto das grandes formas tradicionais de ordenação do sentido – como os sistemas religiosos, as teologias e as filosofias – quanto das ciências ditas ‘exatas’, que funcionam dentro de um regime específico de conhecimento: o da visão de mundo naturalista ocidental moderna. Seu recurso metodológico central é o da comparação intercultural.

A comparação cultural se desenvolve sobretudo por meio de uma técnica de imersão nas unidades de significação em estudo – conhecida como “observação participante” –, em situações de pesquisa de campo, com estratégias de objetivação que passam por uma minuciosa reflexão sobre as impressões subjetivas emergentes no contato com a vida alheia.

Antropologia moderna

Destaco três momentos cruciais de constituição do projeto antropológico moderno. O primeiro foi a defesa e descrição pelo filósofo alemão Johann Gottfried von Herder (1744-1803), nos anos 1770, da diferença entre as ‘culturas’ (o termo ainda não era esse) em oposição ao universalismo iluminista.

Tratava-se de uma das primeiras manifestações da filosofia romântica, que seria crucial para o desenvolvimento das ciências humanas. Mas era ainda uma proposta puramente abstrata, baseada na informação histórica disponível sobre a diversidade das culturas.

Também abstrata foi a primeira proposta de estudo dos “sistemas de parentesco”, ou seja, das formas extremamente complexas pelas quais as diferentes culturas definem as regras matrimoniais –  uma atividade crucial para a reprodução social.

A percepção da sistematicidade subjacente à variedade dessas regras foi levada adiante pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan (1818-1881) nos anos 1870. Ele usava material comparativo de segunda mão, mas já tinha uma experiência direta com a observação das culturas tribais da América do Norte.

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Os iroqueses, grupo nativo norte-americano que vivia em torno da região dos Grandes Lagos, foram observados de perto pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan, considerado um dos fundadores da antropologia moderna. (foto: Wikimedia Commons)

O desenvolvimento da linguística moderna foi outro patamar fundamental para o estabelecimento do método antropológico. O pesquisador alemão Guilherme de Humboldt (1767-1835) já tinha formulado a ideia de um “espírito da língua” no começo do século 19, mas foi só no século 20 que a linguística estrutural ofereceu um modelo mais nítido à antropologia.

O caráter inconsciente dos fatos linguísticos (todo mundo fala a sua língua, mas ignora as regras dessa fala) completou o modelo mais em voga para a interpretação do pensamento e do comportamento humano na passagem do século 20 para o 21.

Os sentidos da experiência humana

Tudo o que ocorre na experiência humana depende de certas condições de formulação e compartilhamento do seu sentido, e é, assim, passível de uma interpretação antropológica.

A política e a religião, a família e a moralidade, a alimentação e a saúde, o lazer e o trabalho, a arte e a guerra, tudo isso estará presente na coluna Sentidos do mundo, que será publicada na segunda sexta-feira de cada mês na CH On-line. A partir desta semana, pouco a pouco, mês a mês, esses temas serão abordados em um esforço de diálogo com as prioridades da atenção pública em cada momento.

Como se verá, o sentido do mundo não é coisa simples; pode ser óbvio, contraditório, ambíguo, obscuro, estranho, fugidio – e é isso que torna mais fascinante a pesquisa sobre seus meandros. Afinal de contas, é o sentido de nossa vida!

O autor estará à disposição dos leitores em [email protected]

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro