Caçando distorções

Astrônomos geralmente trabalham em grandes equipes, com dados de telescópios gigantescos e computadores potentes. Mas ainda assim há ocasiões em que precisam de uma ajudinha extra. É o caso do projeto Space Warps, que convoca o público a procurar por ‘distorções espaciais’ no universo.

A iniciativa reúne milhares de imagens do espaço em um site no qual o internauta pode ajudar a detectar as chamadas lentes gravitacionais, sistemas de objetos massivos que distorcem o espaço-tempo e funcionam como lentes que possibilitam ver mais de perto objetos distantes, como galáxias e exoplanetas.

Uma galáxia ou um conjunto de galáxias podem ser lentes gravitacionais. O funcionamento é simples e obedece a teoria da relatividade geral de Einstein. Objetos massivos desviam o espaço-tempo e a luz. Logo, se há algum corpo luminoso por trás deles, mesmo que muito distante, é possível detectá-lo pela sua luz desviada. Nas imagens do espaço, a luz do objeto escondido aparece como um círculo ao redor do objeto da frente, que faz as vezes de lente.

Lentes gravitacionais
As lentes gravitacionais são objetos massivos que desviam e revelam a luz de corpos escondidos. Na imagem, a lente é identificada por um círculo azul. (foto: reprodução)

Na página do projeto, qualquer um pode ajudar a encontrar as lentes gravitacionais em imagens obtidas pelo Telescópio CFHT, localizado no monte Mauna Kea, no Havaí. O site oferece a possibilidade de aumentar as imagens e marcar os candidatos a lentes gravitacionais. As marcações podem ser discutidas em um fórum on-line que aproxima usuários e especialistas.

Normalmente, os astrônomos usam programas de computador para analisar essas imagens em busca das lentes. Mas os programas nem sempre detectam todas as ocorrências. As identificações voluntárias podem ajudar os pesquisadores a melhorar os programas de detecção automática.

“Só precisamos que algumas pessoas vejam algo interessante em uma imagem para que valha a pena investigar mais a fundo”

“Mesmo que cada visitante passe apenas alguns minutos olhando para um grupo de 40 imagens ou menos, será de grande ajuda para nossa pesquisa”, diz o astrofísico colaborador do projeto Aprajita Verma, da Universidade de Oxford. “Só precisamos que algumas pessoas vejam algo interessante em uma imagem para que valha a pena investigar mais a fundo.”

Feedback

Além de ajudar os pesquisadores a encontrar objetos ainda desconhecidos, as detecções do público podem dar subsídio para os pesquisadores saberem mais sobre a matéria escura – matéria invisível cuja existência é inferida pela observação de objetos visíveis.

A partir da análise da luz desviada pelas lentes gravitacionais, os astrofísicos podem calcular a massa e a distribuição do objeto escondido. Com o mapeamento da matéria visível, é possível fazer o mapeamento da matéria escura.

O projeto Space Warps é do grupo de ciência cidadã Zoouniverse, que desde 2007 vem lançando sites de ciência colaborativa, como o Cyclone Center, para classificar ciclones tropicais por imagens de satélite, e Planet Hunters, para caçar exoplanetas.

Tarefa árdua
A iniciativa colaborativa é louvável, mas não é moleza. A repórter tentou detectar as lentes gravitacionais e comprovou que não é coisa que se faça rapidinho. As imagens nem sempre são nítidas e os objetos procurados nem sempre são evidentes. A empreitada também pode ser decepcionante, pois as lentes são fenômenos raros. Durante meu teste, não encontrei nenhuma. Apenas falsos positivos já identificados, como galáxias espirais. Mas vale o desafio!

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line