Física ‘mulherzinha’

“Minha filha, se você estudar ciência, não vai conseguir casar. Os rapazes não querem uma moça mais esperta que eles.” Foi o que disse a mãe de Deborah Berebichez, uma jovem da Cidade do México, quando a filha comentou seu interesse por ciência. “Mas por que você não escolhe uma profissão mais feminina?”, questionaram os professores da escola.

Hoje em dia, Debbie, que é PhD em física e apresenta um programa de ciência no National Geographic Channel, se dedica a inspirar meninas que, como ela, gostam de ciência, mas muitas vezes não têm o apoio necessário para se dedicar a essa carreira. “O que eu quero é encorajar as mulheres a pensar criticamente sobre o mundo, a fazer perguntas”, explica. “Onde cresci, eu era tratada como uma anomalia por me interessar por matemática e gostar de analisar as coisas.”

“Onde cresci, eu era tratada como uma anomalia por me interessar por matemática e gostar de analisar as coisas”

Debbie saiu do México para os Estados Unidos com uma bolsa para estudar filosofia, mas acabou conseguindo o que queria, se formar em física. Com ajuda de um tutor, ela estudou, em dois meses de férias, toda a matéria dos dois primeiros anos da graduação de física e conseguiu se formar nos dois cursos dentro do período de duração da sua bolsa.

“Me apaixonei pela física. Andava pelo campus à noite resolvendo problemas matemáticos na minha cabeça. Tudo à minha volta passou a ter um significado diferente, agora que eu sabia a razão por que as coisas aconteciam. Eu estudava ondas, ou mecânica, e toda vez que via crianças brincando num parque, ou escovava os dentes, ficava pensando na ação das moléculas, ou na força da gravidade.”

Depois disso, foi para a Universidade de Stanford, na Califórnia, onde obteve um PhD na área de reversão temporal, desenvolvendo uma técnica para localizar sinais de rede sem fio em pontos específicos de um prédio. Hoje, continua fazendo pesquisa. “Ainda trabalho com ondas, mas com a propagação de ondas em meios homogêneos. Estamos tentando descobrir maneiras de aprisionar luz, prendendo um laser em um cristal, por exemplo.”

Mensagem às meninas e à sociedade

Debbie é uma das apresentadoras do programa Humanly Impossible (humanamente impossível, em tradução livre para o português), do National Geographic Channel, em que explica a física por trás de façanhas espetaculares, como no caso do homem que foge de uma camisa de força debaixo d´água, entre outros.

Ela também trabalha em Wall Street, na área de análise de risco, aplicando em finanças os conhecimentos de matemática adquiridos estudando física. “É a maneira mais fácil de se conseguir um green card para ficar nos Estados Unidos; existem cerca de 2 mil físicos aqui”, se justifica.

“Em certas comunidades, as meninas nunca viram um cientista, muito menos uma mulher cientista”

O resto do tempo – “Resto?” eu pergunto. “Eu trabalho sem parar, nunca tenho férias”, é a resposta – ela passa viajando pelo mundo, dando palestras e conversando com estudantes. Recentemente, se apresentou no programa de palestras TED, nos EUA; no Instituto de Tecnologia Indiano de Kanpur, na Índia; e também foi a escolas nas Ilhas Virgens dos Estados Unidos, no Caribe.

“Em certas comunidades, as meninas nunca viram um cientista, muito menos uma mulher cientista”, observa. “Às vezes, no começo da palestra, elas estão rindo, mas, aos poucos, vão se interessando, e, no final, algumas vêm falar comigo, fascinadas.”

Com uma vasta cabeleira loira, roupas justas e maquiagem, ela não é exatamente o estereótipo da cientista. Usando o apelido de Sciencebabe, Deborah produziu uma série de vídeos sobre a ciência do dia a dia, sendo que o mais famoso deles explica a ciência por trás do salto alto – uma de suas peças ‘básicas’.

Assista ao vídeo mais famoso da Sciencebabe

“O vídeo chamou muita atenção na época; fui chamada para falar na Oprah, na CNN”, conta. Mas tem também o outro lado da moeda, que Deborah lamenta: “Infelizmente, já ouvi críticas dizendo que ‘sciencebabe’ não é um termo sério, e que falar sobre a ciência por trás do salto alto, ou a ciência na cozinha, é sexista. Acho uma pena que algumas pessoas interpretem dessa maneira, porque não é a intenção.”

A física rebate a crítica com uma questão realista: “Quase todos os livros de física são escritos por homens brancos de meia-idade, e todos os exemplos nesses livros se referem a coisas que fazem parte do dia a dia desses homens. Por que não usar outros exemplos, que fazem parte do universo das mulheres?”

E do cotidiano da sociedade de maneira mais ampla. “Muita gente pensa que a ciência é complicada, chata, que física se resume a equações em um quadro, que só gente muito inteligente consegue entender… Mas não é assim, se você olhar para outras coisas, vai perceber que a ciência está em todos os lugares.”

Barbara Axt
Especial para a CH On-line/ Londres

Matéria publicada em 10.02.2012

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