Interação digital na telinha

Poderia ser um pronunciamento qualquer do presidente Lula na tela, não fosse o fato de que imagem e som eram transmitidos em combinações de ‘zeros’ e ‘uns’, comprimidos em formato MPEG-4. Foi assim que se deu, em dezembro passado, a primeira transmissão de TV digital no Brasil. Mas o novo padrão de difusão televisiva no país poderia ter sido inaugurado, por exemplo, com um videodocumentário sobre a caça à baleia produzido por alunos de uma escola pública do município de Imbituba (SC) sob orientação do jornalista Fernando Crocomo, do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Autor do livro TV digital e produção interativa: a comunidade manda notícias, Crocomo sugere uma experiência que daqui a algum tempo poderá se tornar corriqueira: a veiculação de conteúdo televisivo produzido pelos próprios telespectadores. “No caso do videodocumentário sobre a caça à baleia”, afirma Crocomo, “tenho certeza de que ao menos a população de Imbituba teria grande interesse em ver o programa”.

O documentário foi produzido em 2004, como parte do projeto de doutorado do jornalista, desenvolvido na UFSC. A proposta era experimentar um novo modelo de programa interativo para a TV digital, no qual a comunidade produzisse e veiculasse informações sobre sua realidade. Para Crocomo, as pessoas se sentem valorizadas quando se vêem na tela e terão, conseqüentemente, interesse em continuar produzindo conteúdo. (Mais informações sobre produção interativa para televisão podem ser encontradas em www.marint.ufsc.br e www.ntdi.ufsc.br .)

Do ponto de vista técnico, a TV digital permite três diferentes níveis de interação: busca de informações já transmitidas e armazenadas no terminal de acesso; possibilidade de resposta a uma mensagem recebida, não necessariamente em tempo real; troca de informações em tempo real, como em um chat. “O uso dos recursos disponíveis é que determina o tipo de interatividade que se terá”, diz Crocomo. “Quando tiverem banda larga acoplada à TV, as pessoas poderão enviar não só respostas, mas também programas inteiros.”

Para que o modelo proposto pelo autor se concretize, é preciso que a comunidade disponha – além de equipamentos – de conhecimento técnico. “É aí que as escolas podem entrar”, afirma o jornalista. Segundo ele, em geral a escola dispõe de espaço, professores, computadores e, em muitos casos, de uma câmera simples. Mas, para Crocomo, as emissoras também podem promover a inserção digital das comunidades. “Os convites para produção e interação devem partir das próprias emissoras”, opina.

A princípio, a iniciativa pode proceder de canais educativos e universitários. Mas Crocomo acredita que as emissoras comerciais, objetivando um diferencial competitivo, logo começarão a utilizar programas produzidos pelos próprios telespectadores. A produção em vídeo é, na sua opinião, apenas uma possibilidade entre tantas outras a serem exploradas. As pessoas poderiam, por exemplo, montar clipes a partir de fotos obtidas com câmeras digitais simples.

Decodificador
Além de apresentar um novo modelo de interatividade para a TV digital, o livro trata de conceitos técnicos e sociológicos sobre os modelos analógicos e digitais, que, segundo previsões, devem coexistir por pelo menos 10 anos. Traz também informações sobre o modelo brasileiro de TV digital. Na obra, é possível encontrar ainda discussões sobre interatividade e sobre a relação entre televisão e internet, da qual o padrão televisivo digital ‘toma emprestada’ a interface. Nas páginas finais, há um glossário de termos e expressões relacionados com o tema.

Dados apresentados no livro mostram que 91,4% dos domicílios brasileiros possuem aparelho de televisão. Mas, para ter acesso ao novo modelo de transmissão, o telespectador precisa de um decodificador, que, segundo Crocomo, deverá custar, com subsídios governamentais, entre R$200 e R$250. Para o autor, o aspecto crucial da questão são os diferentes modos de relacionamento das comunidades com a nova tecnologia, antes que ela chegue à casa dos brasileiros com pacotes de programação prontos e com um extenso cardápio de opções de compra.

TV digital e produção interativa: a comunidade manda notícias
Fernando Crocomo
Florianópolis, 2007, Editora da UFSC
178 páginas – R$ 30,00
(48) 3721-9408 / 3721-9686
À venda em www.editora.ufsc.br   

Leia também: Tecnologia nacional para a TV do futuro

Jaqueline Bartzen
Especial para a CH On-line / PR
17/01/2008

 

 

Matéria publicada em 17.01.2008

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