Males que vêm para o bem

Com 23 Nobel e quase 600 jovens cientistas selecionados por instituições de pesquisa internacionais, Lindau, no sul da Alemanha, concentra esta semana um considerável QI por metro quadrado.

Desde domingo (26/6) até sexta-feira (1/7), a cidade sedia o 61º Encontro de Prêmios Nobel, cuja intenção é colocar os cientistas mais prestigiosos do mundo em contato com a nova geração de pesquisadores e oferecer uma oportunidade única para a troca de experiências, ideias e estímulos.

Oliver Smithies
O geneticista estadunidense Oliver Smithies, ganhador do Nobel de Medicina/Fisiologia de 2007, durante o Encontro de Prêmios Nobels em Lindau realizado em 2010. (foto: Markus Pössel/ CC BY-SA 3.0)

Se a atração da cerimônia de abertura foi Bill Gates, no primeiro dia da programação científica, as atenções se dividiram entre seis Nobel convidados: Elizabeth H. Blackburn (Medicina, 2009), Oliver Smithies (Medicina, 2007), Harald zur Hausen (Medicina, 2008), Erwin Neher (Medicina, 1991), Ada Yonath (Química, 2009) e Hamilton O. Smith (Medicina, 1978).

Mais do que apresentar novidades – para a frustração de alguns jornalistas –, os laureados usaram os seus parcos 30 minutos (britânicos, ou melhor, alemães) para falar sobre o caminho que percorreram até chegar aonde chegaram. Um caminho cheio de convicções, dificuldades, perseverança, sorte e equívocos. Sim, Nobel também erram!

Inclusive, um dos momentos mais divertidos do dia deve-se a Oliver Smithies. Com mais de 60 anos de carreira e senso de humor acurado, o estadunidense nascido no Reino Unido falou sobre as diversas interpretações erradas que pontuaram sua trajetória científica, coroada em 2007 com o Nobel por suas descobertas – em conjunto com Mario R. Capecchi e Martin J. Evans – sobre o uso de células-tronco embrionárias na manipulação genética de camundongos.

Em sua pesquisa de doutorado, realizada no início da década de 1950 na Universidade de Oxford (Reino Unido), Smithies mediu a pressão osmótica de misturas de proteínas do sangue (albumina e globulina) para tentar compreender um fenômeno “estranho” de dissociação que havia observado em laboratório.

“Sem entrar em detalhes, devo dizer logo de cara que minha hipótese estava completamente errada. Minha tese se baseou em um mito.”

Ao mostrar suas cuidadosas e detalhadas anotações da época, defendeu ter feito um bom trabalho, se não do ponto de vista experimental, pelo menos do ponto de vista teórico.

“Eu aprendi a fazer boa ciência e não interessa muito o que eu fiz quando estava aprendendo a fazer boa ciência”

“Eu fiquei bem orgulhoso desse trabalho e publiquei-o com bastante prazer”, ressaltou, sem deixar de mencionar, para o deleite do público, o que considera um recorde em relação ao feito: “O artigo publicado nunca foi citado.” E ninguém mais usou o método ali proposto, nem o próprio Smithies.

Mesmo assim, o cientista vê um sentido importante nessa passagem de sua história: “Eu aprendi a fazer boa ciência e não interessa muito o que eu fiz quando estava aprendendo a fazer boa ciência.”

Ao contar o caso, emendou uma recomendação aos jovens cientistas da plateia: no início, mais vale gostar do que está fazendo do que o que está fazendo. “Se vocês não gostarem do que estão fazendo, peçam a seus orientadores para fazer outra coisa. Se ele não deixar, há outra solução: mudar de orientador.”

Ainda do pacote de anedotas, o Nobel tirou a história que o levou a desenvolver o seu famoso gel, com o qual criou uma nova técnica (eletroforese em gel, justamente) para a separação de moléculas.

Gel de eletroforese
O gel de eletroforese desenvolvido por Oliver Smithies permite visualizar as moléculas de um composto após sua separação. (foto: Wikimedia Commons/ Mnolf – GFDL e CC BY-SA 2.0)

Em seu primeiro emprego em Toronto (Canadá), ainda na década de 1950, buscava uma forma de estudar o movimento das moléculas da insulina. Após tentar usar um tipo de papel – que se mostrou ineficaz por absorver a insulina –, Smithies pensou em utilizar o leito úmido de grãos de amido.

Mas, para determinar até onde a proteína se deslocava, teria que cortar o amido em 40 fatias e estudar o conteúdo proteico de cada uma delas, usando diversas lâminas e fazendo uma grande bagunça.

“Por pura preguiça, acabei inventando o gel de eletroforese”

Para contornar o problema, criou uma ferramenta usada até hoje na biologia molecular. “Por pura preguiça, acabei inventando o gel de eletroforese”, brincou. Com ele, Smithies descobriu as variantes genéticas das proteínas do sangue e ainda hoje o usa em suas pesquisas com nanopartículas de ouro no Departamento de Patologia e Medicina Laboratorial da Universidade da Carolina do Norte (Estados Unidos).

Em sua conferência em Lindau, o Nobel falou ainda sobre como ele próprio e seus colegas serviram diversas vezes de “cobaias” em seus próprios experimentos, sobre como suas pipetas automáticas foram patenteadas por outros, sobre ainda gostar de trabalhar na bancada e aos sábados, sobre sua mulher, sobre pilotar aviões mesmo sendo daltônico e sobre as páginas ainda a serem preenchidas em seu caprichado bloco de notas.

Enfim, um prato cheio de entusiasmo e inspiração para a nova geração de jovens cientistas e um belo trabalho de divulgação científica para qualquer um.

Carla Almeida *
Ciência Hoje On-line

* A jornalista viajou para a Alemanha a convite do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).

Matéria publicada em 28.06.2011

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