O acaso na ciência, na religião e na vida

Para um, o acaso é a falta de informações e de elementos contextuais para se entender determinada situação. Ele permeia o nosso cotidiano e saber interpretá-lo pode ser verdadeiramente útil em nossas vidas.

Para outro, é aquilo que está no lugar oculto, secreto; é uma parte da realidade que está implícita e que nunca poderá ser totalmente discernível. Ele depende de uma interpretação que não pode e não deve ser simplesmente racional.

Um é o físico estadunidense Leonard Mlodinow, professor do Instituto de Tecnologia da Califórnia (EUA) e autor de livros de divulgação científica. Entre eles, o de maior sucesso é O andar do bêbado, de 2009, em que trata dos princípios que governam o acaso. Também é roteirista de séries de TV – tem dedo seu por trás de episódios de MacGyver e Star Trek: the next generation, por exemplo.

O outro é o rabino brasileiro Nilton Bonder, da Congregação Judaica do Brasil. Já escreveu vários livros, a maioria relacionada ao judaísmo. Em dois deles, discute o acaso sob o prisma religioso: Fronteiras da inteligência, de 1998, e O segredo judaico de resolução de problemas, de 1995, reeditado em 2010.

Os dois dividiram o sofá do Café Literário na Bienal do Livro deste ano, no Rio de Janeiro, onde conversaram sobre o papel do acaso em nossas vidas.

Mania de padrões

É uma característica do ser humano querer enxergar finalidades e razões em tudo; assim como procurar padrões e ordem faz parte da vida em sociedade. Isso, inclusive, traz vantagens evolutivas. Daí, talvez, a dificuldade do homem em lidar com o acaso.

Bonder: “É preciso aprender a lidar com a realidade, pois ela não é o que gostaríamos que fosse; é o que se apresenta”

Bonder ilustrou essa dificuldade com sua experiência em enterros de jovens, situação em que as pessoas procuram sempre justificar a morte prematura. Para o rabino, a grande sabedoria humana talvez seja, mais do que prever os acontecimentos, resignar-se com o que está além da nossa compreensão. “É preciso aprender a lidar com a realidade, pois ela não é o que gostaríamos que fosse; é o que se apresenta.”

Mlodinow acrescentou: “Vivemos num mundo complexo onde uma série de coisas acontece e nós não entendemos bem por quê. Isto é o acaso e ele permeia a nossa vida.” Mais do que se resignar diante do aleatório, ele sugere atenção em sua interpretação, pois julgamentos equivocados podem levar a decisões ruins e a consequências desastrosas.

Em O andar do bêbado, o físico dá diversos exemplos de más interpretações, além de contar uma série de anedotas sobre o acaso na esperança de que o leitor passe a ter uma compreensão mais profunda do mundo cotidiano. Na Bienal, ele destacou o cuidado que se deve ter com as estatísticas na medicina. “Aqueles que acreditam nelas podem ter menos chances de sobreviver”, disse com seriedade, apesar dos risos do público.

'A ncessidade do acaso", Bienal do Livro 2011
O físico Leonard Mlodinow e o rabino Nilton Bonder debateram ‘A necessidade do acaso’, no Café Literário de 8 de setembro, na Bienal do Livro no Rio. Humor e cumplicidade deram o tom do bate-papo. (foto: Carla Almeida)

O acaso no esporte

Para Mlodinow, o esporte é um bom lugar para se estudar acasos porque há muito mais controle, mais regras, do que na vida real. Pois bem. O mediador do bate-papo, o jornalista da Piauí Bernardo Esteves, resolveu examinar a questão na prática. Num dado momento da conversa, quis saber do rabino alvinegro se o desempenho atual do Botafogo, “acima da média”, seria fruto do acaso.

Bonder, esbanjando humildade, respondeu: “Sendo botafoguense há muitas décadas, já tenho experiência para saber que este momento, mesmo com todo o carinho que tenho pelo Botafogo, é uma dimensão do acaso”, no que arrancou mais risos da plateia.

Mlodinow, com seus dotes probabilísticos, tentou consolar o seu colega de sofá: “Sou fã de um time de basebol americano chamado Chicago Cubs. A última vez que ele venceu o campeonato mundial foi em 1908… E não espero estar por aqui da próxima vez que ele ganhar.”

Ele explicou, ainda, que no esporte, as habilidades dos jogadores, apesar de muito visadas, não garantem o bom desempenho de uma equipe. “O sucesso é talento + acaso.”

Sem antagonismos clichês

Como se esperava num encontro de físico com rabino, o tema ciência e religião veio à tona. Mas, dessa vez, não houve as costumeiras divergências.

Na análise de Bonder, aqueles que buscam a espiritualidade não devem procurar nela respostas comprováveis, pois, nesse espaço, a interpretação subjetiva é via de regra. Mlodinow, que, embora não seja religioso, tem lá suas crenças, concordou e confessou: “Acredito em vida fora da Terra, o que não tem qualquer base científica ou evidência concreta.”

Mlodinow: “Não precisamos da religião para explicar a criação da vida e não precisamos da ciência para dizer como vivê-la”

Ele afirmou não ver conflito entre ciência e religião, mas deixou uma reflexão que alguns religiosos e alguns cientistas certamente contestariam: “Não precisamos da religião para explicar a criação da vida e não precisamos da ciência para dizer como vivê-la.”

Mlodinow é filho de judeus que sobreviveram às perseguições nazistas, “por pura sorte”. Ele próprio também pode ser considerado um sobrevivente, pois estava aos pés das torres gêmeas quando foram atingidas pelos aviões terroristas. Mas isso a imprensa toda já disse. Afinal, ele esteve no Brasil justamente para falar do acaso, bem no mês de setembro, quando se lembram os dez anos dos atentados terroristas aos Estados Unidos.

Carla Almeida
Ciência Hoje On-line

Matéria publicada em 14.09.2011

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