O Brooklyn no Cantagalo

Quando Teju Cole entrou na sala, jovens rimavam em cima de uma das bases prediletas dele, uma batida ‘funkeada’ ouvida várias vezes no Brooklyn, distrito de Nova Iorque em que mora. Dessa vez, no entanto, a paisagem de onde vinha o som era diferente.

Cole: “Desde que estou no Brasil, falei em cinco debates públicos e este é o primeiro em que vejo pessoas parecidas comigo, negras”

O escritor, autor do celebrado Cidade aberta, romance que reflete uma Nova Iorque pós-11 de setembro, esteve no morro do Cantagalo, favela na zona sul do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (11/7). Ele participou da Flupp, a Festa Literária das Unidades de Polícia Pacificadora, que desde abril promove eventos literários em comunidades pacificadas e, em novembro, celebrará o seu próprio festival no morro dos Prazeres, em Santa Teresa, no centro do Rio.

Cole, que nasceu nos Estados Unidos, cresceu na Nigéria e voltou ao país da América do Norte aos 17 anos para estudar história da arte, estava visivelmente satisfeito.

“Desde que estou no Brasil, falei em cinco debates públicos e este é o primeiro em que vejo pessoas parecidas comigo, negras; estou muito honrado de estar aqui”, disse o escritor, voltando-se para a plateia, que, além do romancista de dupla nacionalidade, também foi ao local para assistir a outros autores que participaram da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e estiveram no Cantagalo naquele dia.

“Quando me perguntam como faço para me sentir em casa, respondo que a melhor maneira é gostar de várias coisas; aqui, ouvindo essa música de que tanto gosto e no meio de gente parecida comigo, estou em casa”, afirmou o escritor, sublinhando assim um dos eixos principais que guiam um evento como a Flupp: as fronteiras – emocionais, sociais ou espaciais – que podem aproximar ou separar as pessoas.

Mesa na Flupp
David Trueba (à dir.) fala com o mediador, o cineasta brasileiro Emílio Domingos, em mesa da Flupp. À esquerda, está Malcolm Barral. Além dos dois espanhóis, o estadunidense e nigeriano Teju Cole, a portuguesa Dulce Maria Cardoso, os brasileiros Luiz Eduardo Soares e Ana Maria Machado, o estadunidense Douglas Mayhew e o indiano Suketu Mehta participaram do evento. (foto: Thiago Camelo)

Flip e Flupp

A Flupp é – da sigla à intenção – uma provocação amistosa à Flip, festa que serve tanto de inspiração quanto de motivo para ao menos um questionamento: como divulgar os escritores da periferia, excluídos tanto do mercado editorial quanto de festivais como a própria Flip? Afinal, se há notória produção teatral, cinematográfica e musical nas comunidades, pouco se tem notícia da literatura feita nelas.

“Sabemos da importância de promover os escritores locais, por isso, além das palestras e da festa em novembro, promovemos um game literário com cerca de 100 autores, que fizeram textos sobre vários temas”, responde Ecio Salles, um dos organizadores do evento. “No fim do game, será lançado um livro com 15 textos de policiais das UPPs e outros 15 de moradores que vivem em comunidades pacificadas.”

Segundo o organizador, nem sempre o caminho desse game literário foi simples.

“Desde abril, diversos debates e oficinas foram realizados com esse grupo de 100 escritores e, em determinado momento, faltou dinheiro para pagar justamente os professores das oficinas; o que eles fizeram, de dar aula sem receber, foi por amor à causa e à literatura.”

Faz tudo, inclusive escrever

De fato, amor por literatura foi o que não faltou, seja por parte dos palestrantes ou dos ‘fluppenseiros’, carinhoso apelido atribuído aos novos escritores que participaram do concurso e estiveram presentes, entre alguns curiosos e muitos moradores da própria favela, no morro do Cantagalo.

Barbosa: “Existem mais de 15 grupos que se organizam e fazem literatura nas favelas, mas isso é pouco divulgado”

“Existem mais de 15 grupos que se organizam e fazem literatura nas favelas, mas isso é pouco divulgado, acho que esse é um grande mérito da Flupp”, explicou Bartolomeu Barbosa, um dos ‘fluppenseiros’ que foram ao evento na quarta-feira.

Barbosa conta que esteve em quase todos os 13 eventos promovidos pela Flupp até agora, mas daquela vez estava com medo. “Subi até aqui pelo meio da favela, que está pacificada, eu sei, mas era controlada por uma facção de traficantes rival à que atuava no lugar em que vivo; fico com receio.”

Atualmente, ele trabalha reformando livros usados. Mas escreve – e pinta – há mais de uma década. “Cara, no fundo eu faço de tudo, sou o típico ‘faz-tudo’, outro dia estava às 4 horas da manhã desmontando a estrutura de uma festa na zona sul”, conta.

Assim, no espírito de ‘faz-tudo’, Barbosa foi vendedor de rua por 15 anos. A mercadoria? “Livros, sempre livros; aprendi quais são as obras que viciam o leitor, quais são as que afastam, percebi, por exemplo, que nem sempre aquelas obras obrigatórias nas escolas são as que cativam de primeira”, explica, de modo bastante crítico à literatura predominante nas instituições de ensino.

Barbosa: “Nem sempre aquelas obras obrigatórias nas escolas são as que cativam de primeira”

Aos 45 anos, com curso técnico em agropecuária e passado de ativista dos direitos dos negros, Barbosa pode até não traduzir a trajetória da maioria ali – um pouco mais jovem que ele –, mas é um bom exemplo da diversidade de histórias que derivam de uma breve conversa com os participantes da oficina.

“Esse medo meu de subir a favela é um medo comum a todas as pessoas que já moraram numa comunidade controlada por traficantes, são medos comuns, vivências que têm a ver com pobreza, com humilhação; temos uma vontade muito grande de contar isso tudo”, diz Barbosa. “Mas não quero contar de um jeito óbvio, com armas, violência, isso eu já vi muito – quero contar de outra forma, mais poética talvez, o que vi e vivi.”

Bartolomeu
Bartolomeu Barbosa posa com um de seus desenhos: mais de uma década escrevendo e pintando. (foto: arquivo pessoal)

Diversas fronteiras

O escritor espanhol David Trueba e o editor, também espanhol, Malcolm Barral conversaram no Cantagalo sobre as dificuldades do mercado literário. Trueba falou sobre a sua infância pobre na Espanha e de como, ainda criança, discordava das obras que documentavam de forma degradante a dificuldade por que passava. “Eu me perguntava por que mostravam pessoas famintas se a comida da minha mãe era deliciosa, por que mostravam banheiros sujos se o da minha casa era limpo, eu me perguntava por que tinham que retratar aquilo como se fosse um cartão-postal da pobreza; não somos obrigados a ser o cartão-postal da pobreza.”

Trueba: “Não somos obrigados a ser o cartão-postal da pobreza”

Um homem, na parte de trás da plateia, levanta a mão para fazer um comentário. O homem é Barbosa: “Mas o grande problema é que se a gente pula o muro da periferia, resolve escrever da nossa maneira, acaba caindo no playground da elite.”

O playground da elite, diz, é constituído por quem controla o mercado editorial, quem aponta o que deve ou não ser lido e, em última análise, quem diz quem deve ou não participar de um festa literária como a Flip. “São fronteiras difíceis de atravessar, mas que temos que continuar tentando”, completa Barbosa.

Questões de fronteira

“Você veio pelo elevador ou pela favela, por onde você subiu para chegar até aqui?”, pergunta um dos ‘fluppenseiros’ ao repórter. “Se você veio pelo elevador, desça pela favela, é imperdível.”

Explica-se: para chegar ao Espaço Criança Esperança, onde aconteceu o evento no Cantagalo, há algumas opções. Uma delas é subir o morro pelo acesso em Copacabana e atravessar boa parte da favela a pé. Outra opção possível é pegar um elevador que sai do asfalto, em Ipanema, e se abre já dentro do ambiente, sem que seja necessário passar por dentro da comunidade.

Ao entrar no local, a vista à direita apresenta uma visão estupenda de vários cartões-postais da cidade, entre eles a lagoa Rodrigo de Freitas e as praias da zona sul carioca. À esquerda do salão principal, outro panorama da cidade: o mar de casas humildes – barracões – que configuram a favela do Cantagalo.

Espaço Criança Esperança
Espaço Criança Esperança no Cantagalo: duas visões da mesma cidade. (montagem: Thiago Camelo)

A cidade partida entre asfalto e morro já foi discutida e rediscutida, desde a obra seminal de Zuenir Ventura até outros livros que se propuseram a repensar a opinião do autor. Mas quando se é defrontado com tantas questões de fronteira atualmente –  na era das UPPs, pós-11 de setembro, pós-internet e pós-globalização –, vale a pergunta: elas ainda existem?

Cole: “Eu sou 100% nigeriano e 100% norte-americano”

Quem responde é Teju Cole ao ser indagado se seria 50% nigeriano e 50% norte-americano. “Não, eu sou 100% nigeriano e 100% norte-americano”, define o escritor, mais uma vez deixando implícito a todos ali que se ainda há divisões entre morro e asfalto, Flip e Flupp, Nigéria e Estados Unidos, já não se trata mais de uma coisa ou outra; para Cole, é a vez de uma coisa e outra.

Aparentemente, a Flupp se trata disso: de uma batida do Brooklyn no meio do Cantagalo, de um escritor 100% nigeriano e 100% estadunidense, de uma literatura de periferia que quer também dialogar com o mundo. Aguardemos o livro com os 30 autores e a festa principal, em novembro. 

Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

Este texto foi atualizado para incluir a seguinte alteração:
Ao contrário do que informamos, o apelido atribuído aos novos escritores que participaram das palestras e oficinas promovidas pela organização da Flupp não é ‘fluppeiros’. A expressão correta é ‘fluppenseiros’. Ela faz referência à Fluppensa, o nome desse ciclo de atividades que precedem o evento principal da Flupp, em novembro. (16/07/2012)

Matéria publicada em 14.07.2012

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