Para repensar os índios e a amazônia

  Tema A intelectualidade do Brasil manifesta uma grande ignorância e descaso em relação aos povos indígenas que vivem em nosso território. Historicamente à margem da grande mídia brasileira, aos poucos os índios começam a ter voz, mas apenas após terem sido valorizados no exterior. “A Amazônia precisou passar pela Europa para se tornar visível do litoral do Brasil.”

Eduardo Viveiros de Castro recebeu o Prêmio Érico Vannucci
Mendes na Reunião Anual da SBPC (foto: Bernardo Esteves)

Quem defende essa argumentação é o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O pesquisador apresentou seu ponto de vista na conferência em que recebeu o prêmio Érico Vannucci Mendes 2004, entregue na Reunião Anual da SBPC.

Na conferência, Viveiros de Castro fez um balanço de sua carreira, explicou sua opção pela antropologia e apresentou resumidamente aspectos das pesquisas que desenvolveu entre os Yawalapíti, no Mato Grosso, e os Araweté, no Pará. Na parte final de sua fala, o antropólogo denunciou a maneira como a sociedade brasileira concebe os povos indígenas e a Amazônia.

Viveiros de Castro criticou especialmente a forma como a maioria dos ambientalistas enxerga nos índios os detentores de “segredos da floresta” desconhecidos pela ciência ocidental. “As culturas indígenas são valorizadas por se constituírem em um reservatório de tecnologias úteis para a exploração adequada da Amazônia”, avalia. Viveiros de Castro considera essa postura “uma atitude utilitarista e etnocêntrica, que parece só admitir o direito à existência dos outros se estes servirem a algo para nós”.

O pesquisador enxerga também um “erro grosseiro” na forma como muitos concebem a floresta amazônica como uma mata virgem, um vazio demográfico à espera da ocupação humana. Viveiros de Castro enumerou uma série de argumentos para refutar esse equívoco: “boa parte da cobertura vegetal amazônica é fruto de milênios de intervenção humana; a maioria das plantas úteis da região proliferaram em função das técnicas indígenas de aproveitamento do território”.

Para que se desfaçam esses equívocos históricos, Viveiros de Castro recomenda que abandonemos a perspectiva antropocêntrica e revejamos a forma como pensamos os conceitos de natureza e cultura e as relações entre eles. “O que chamamos de ’natureza’ é parte e resultado de uma longa história cultural”, denuncia. “A floresta amazônica condicionou tanto a vida humana quanto foi condicionada por esta.”

Segundo Viveiros de Castro, essa é a maior lição que os antropólogos tiraram do contato com os índios — em vez de simplesmente aprender a respeitar a natureza, como quer o ingênuo senso comum. E é justamente essa nova perspectiva a maior contribuição da antropologia para que repensemos o discurso importado da ecologia que caracteriza o ambientalismo brasileiro. Para tanto, o pesquisador recomenda que os movimentos ambientalistas integrem mais antropólogos em seus quadros. “Cada sociedade tem a natureza que merece”, conclui. “Cabe-nos decidir qual é a nossa.”

Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line
20/07/04