Prêmio de troia

O Nobel da Paz, anunciado na manhã de hoje pelo comitê norueguês do prêmio, é o primeiro da história dado a um chinês. Liu Xiaobo, um dos críticos mais conhecidos ao Partido Comunista Chinês (PCC) – único partido político do país.

Liu Xiaobo, de 59 anos, está preso desde o Natal do ano passado, por sua luta pela liberdade política e social de seu país. Ele foi condenado a 11 anos de reclusão.  A gota d’água para o governo da China – a segunda maior economia do mundo – foi um manifesto intitulado Charter 08 (em português, conhecido como Carta 08).

O ponto de discórdia entre Liu Xiaobo e o governo chinês: o pluripartidarismo exigido pelo dissidente

No texto, assinado por 350 pessoas, entre intelectuais e ativistas chineses, Liu Xiaobo pede mudanças na suposta democracia do país. O manifesto tem 19 reivindicações.

Entre elas, a garantia dos direitos humanos, a liberdade religiosa e de expressão e – o ponto de discórdia – o pluripartidarismo, uma decorrência natural das posições defendidas pela Carta.

“As liberdades civis têm se alargado de modo bastante importante nos últimos anos na China. Há críticos bem fortes ao governo, com apontamentos radicais, seja no ponto de vista ambiental ou político”, diz Isabela Nogueira de Morais, professora de política asiática do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.

“Pode-se questionar a corrupção e exigir reformas estruturais. Mas todos os intelectuais sabem que há limites na China que não se ultrapassam. Neste caso, o limite maior é o questionamento da legitimidade de um governo central”, completa Isabela, que foi pesquisadora visitante em 2009 (ano da prisão de Liu Xiaobo) de uma das maiores universidades da China, a Tsinghua, em Pequim.

Desde 1989

O Nobel da Paz estava presente no protesto na Praça da Paz Celestial, em 1989. À época, mais de cem mil estudantes e trabalhadores protestavam por reformas políticas e econômicas na China. O PCC reagiu e o evento ficou conhecido pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, onde milhares de pessoas morreram (o número nunca foi revelado ao certo).

Libertem Liu Xiaobo
O ganhador do Nobel da Paz de 2010 é um reconhecido crítico político em seu país. Aqui, a população pede sua libertação (foto: http://liuxiaobo.eu/).

Em decorrência desses protestos, Liu Xiaobo passou mais de um ano preso na década de 1990. Nada comparado, no entanto, aos 11 anos de cárcere ao qual foi submetido em 2009.

“Liu sabia que seria preso. O ato dele foi pensado. O que surpreendeu foi a sentença que lhe foi imposta. É muito tempo. Normalmente, os mecanismos de controle são muito mais sutis”, explica Isabela Nogueira de Morais.

Segundo a professora, as prisões com motivação política na China são de no máximo três, quatro anos. Ela destaca um fato marcante: os outros dissidentes que assinaram a Carta 08 não foram presos. Foram apenas “convidados para tomar um chá”. Ou seja, houve repreensão, mas não o cárcere.

“A repressão menos voraz é a forma mais inteligente de se manter um sistema autoritário por mais tempo. Você permite o debate, permite até pequenas manifestações, dá penas leves de prisão, mas controla, gera medo. No caso de Liu, os 11 anos de prisão soam como lição.”

Um intelectual

Liu Xiaobo é um típico intelectual. Formou-se em literatura pela Universidade de Pequim, onde também fez pós-graduação. É um dos fundadores, na China, da Pen, uma conhecida associação de escritores que  prega a liberdade de pensamento e existe em centenas de países. Hoje, a página principal da Pen celebra a vitória de Liu.

“Prenderam Liu no Natal, para que não houvesse alarde na comunidade internacional”

Condecorado com o Nobel por sua “luta longa e pacífica pelos direitos humanos na China”, a batalha de Liu ganhou amplitude aos olhos do mundo.

“Quando o prenderam, escolheram o Natal, uma data muito significativa para o mundo ocidental, mas não muito representativa na China. Claro que foi de propósito, para não haver alarde na comunidade internacional. Lembro de que eu mesma, que morava na China em 2009, fiquei sabendo da prisão dias depois”, conta Isabela, na época com 29 anos.

“O povo chinês odeia imposições vindas de outros governos. Odeia posições como as dos Estados Unidos, que exigem uma democracia representativa aos moldes ocidentais”, diz a professora.

“Mas o Nobel é interessante, não é normativo e é uma forma de a comunidade internacional protestar sem soar ultra-arrogante. A China vai ter lidar com essa nova situação“, conclui.

Assista a um vídeo (em inglês) produzido pela Pen em que Liu Xiaobo fala sobre liberdade de expressão


Thiago Camelo

Ciência Hoje On-line

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