Prudência e conhecimento efetivo

De Aristóteles até o final do século 18, a prudência foi vista, por muitos filósofos políticos, como uma das qualidades mais importantes que os seres humanos deveriam ter para orientar sua ação e para intervir num mundo dominado pelas contingências. No pensamento político de Maquiavel, a prudência tem um lugar central, embora nem sempre reconhecido pelos intérpretes da obra do florentino. Ela é, ao mesmo tempo, uma qualidade necessária à ação política e à análise da política. Na prudência, ação e análise convergem em um só princípio.

Em O príncipe, Maquiavel expõe seu “entendimento das ações dos grandes homens”, ou seja, tudo o que aprendeu na “longa experiência das coisas modernas e no estudo contínuo das antigas”. O que ele apresenta é exatamente sua prudência, ou seja, sua capacidade de analisar e interpretar a realidade. E também de intervir nela, se for o caso. 

A prudência, para o secretário florentino, é precisamente essa qualidade intelectual que permite transformar o estudo das coisas antigas e a experiência das coisas modernas em conhecimento efetivo da realidade. Ou, para empregar um termo que ele utiliza no capítulo 15 de O príncipe, em “verità effetualle della cosa”, um tipo de saber político muito diferente do conhecimento abstrato, associado ao estudo de “repúblicas e principados que nunca se viram nem se verificaram na realidade”.

Distância do conceito humanista

Maquiavel distancia-se das formas de examinar a política próprias do pensamento político dos humanistas do seu tempo. É possível notar, em seus escritos, uma mudança de procedimento analítico, embora não haja uma mudança na palavra utilizada para caracterizar esse procedimento: tanto o secretário como os humanistas reconheciam na prudência a qualidade intelectual que alguém deveria ter para o trato correto dos assuntos públicos.

Mas o que o secretário entende por prudência distancia-se em grande medida do seu conceito humanista. Ela não está submetida à justiça, por exemplo, ou a preceitos religiosos, especificamente cristãos, o que se pode perceber nas seguintes passagens de O príncipe, assim como em outros momentos de sua obra: “O príncipe, se for prudente, não deverá importar-se com a pecha de miserável”; “um soberano prudente não pode nem deve manter a palavra quando tal observância se reverta contra ele e já não existam motivos que o levaram a empenhá-la”.

Em Maquiavel, a efetividade analítica está diretamente associada à capacidade de formular um juízo correto com velocidade, de identificar um problema em seu nascimento, de antever os efeitos das possíveis ações realizadas por reis, príncipes, embaixadores e Repúblicas

Mas não se pode entender o alcance do conceito de prudência em Maquiavel apenas pela negativa. O mais importante nesse deslocamento em relação ao quadro tradicional das virtudes são as novas possibilidades que ele abre tanto para o exame da política como para a ação. Como o princípio da efetividade analítica é alçado ao primeiro plano, em detrimento da subordinação abstrata da análise política aos preceitos morais das tradições filosóficas da Antiguidade e do cristianismo, a interpretação da realidade dependerá exclusivamente da habilidade do intérprete, de sua capacidade de discernir nas “coisas do mundo” os princípios adequados para a ação.

Em Maquiavel, a efetividade analítica está diretamente associada à capacidade de formular um juízo correto com velocidade, de identificar um problema em seu nascimento, de antever os efeitos das possíveis ações realizadas por reis, príncipes, embaixadores e Repúblicas. 

Ninguém deve “se concentrar”, escreve em O príncipe, “apenas nos distúrbios presentes, mas também nos futuros, fazendo de tudo para evitá-los, pois com a prevenção é possível remediá-los mais facilmente, ao passo que, quando se espera demasiado, o tratamento não chega a tempo, porque a doença já se tornou incurável; é como a tísica, que, segundo os médicos, a princípio é fácil de tratar e difícil de diagnosticar, mas, com o passar do tempo, não tendo sido diagnosticada nem tratada precocemente, se torna fácil de reconhecer e difícil de curar. É o que acontece com os assuntos de Estado: reconhecendo à distância os males que medram nele — o que só é dado ao homem prudente —, é possível saná-los de pronto; porém, se por imprevidência os deixarem crescer a ponto de se tornarem visíveis aos olhos de todos, não haverá mais remédio”.

Prudência em Maquiavel
Segundo Maquiavel, o príncipe prudente não pode prescindir do reconhecimento público. (foto: Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)

Mas a prudência, em Maquiavel, não possui uma dimensão apenas calculativa, associada ao exame dos modos de intervenção política que podem produzir resultados consistentes. Ela é também performativa, ou seja, é domínio da prudência encontrar os meios adequados de persuasão. O cálculo sem eloquência é inútil. 

É o que diz Maquiavel na seguinte passagem dos Discursos: “Desse tipo de homem”, o prudente, “é fácil que nunca surja nenhum em dada cidade, e, mesmo que surgisse, pode ser que nunca persuadisse os outros daquilo que pretendesse”. A prudência não se reduz à reflexão, ao processo de ajuizamento, mas envolve também a escolha de estratégias adequadas de composição textual e de expressão. A prudência não pode prescindir do reconhecimento público. Sem a unidade entre pensamento e expressão, não há verdades efetivas.

Felipe Charbel
Instituto de História
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 27.11.2013

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

CONTEÚDO RELACIONADO

Inovação no ensino de bioquímica

Livro resultante de um projeto que reúne pesquisadores de cinco países, entre eles o Brasil, usa uma abordagem inovadora para ensinar bioquímica a alunos de nível superior na área de saúde.

Parceria contra câncer e bactérias patogênicas

Resultados de estudos sobre os mecanismos de entrada das proteínas virais nas células, feitos por pesquisadores brasileiros e portugueses, deram origem a um projeto para o desenvolvimento de fármacos para o combate de diversas doenças.

Open chat