Retratos da mistura entre oriente e ocidente

O escritor turco Orhan Pamuk, ganhador do Nobel de literatura em 2006. (Foto: M. Euler/Scanpix).

A Academia Sueca de Línguas premiou pela primeira vez um escritor turco com o Nobel de literatura: Orhan Pamuk foi o ganhador de 2006. O autor, natural de Istambul, foi escolhido por tratar em suas obras da mistura de culturas entre o Ocidente e o Oriente e também da convivência entre os valores tradicionais do Islamismo e os do mundo europeu contemporâneo. Seus romances têm forte caráter social, baseado nos conflitos existentes na Turquia, fronteira entre a Europa e a Ásia. Pamuk já esteve no Brasil, quando participou da Festa Literária de Paraty (Rio de Janeiro), no ano passado. Apenas seus romances ‘O Castelo Branco’ e ‘Meu nome é vermelho’ foram lançados no país, mas, em breve, a obra ‘Neve’ também deve chegar às livrarias.

A premiação de Orhan Pamuk aponta uma recente tendência na escolha do laureado da categoria. Em 2005, o escritor foi processado pelo governo turco depois de ter afirmado, para um jornal suíço, que 30 mil curdos e um milhão de americanos foram mortos na Turquia, em um massacre durante a Primeira Guerra Mundial. A acusação, de ofensa ao país, gerou protesto internacional e não seguiu adiante. Os dois últimos ganhadores do prêmio Nobel de literatura, coincidentemente ou não, também estavam em conflito com seus respectivos governos: Harold Pinter, inglês contrário à participação da Inglaterra na guerra do Iraque, vencedor em 2005; e Elfriede Jelinek, grande crítica da direita da Áustria, laureada em 2004.

A cidade de Istambul, onde Pamuk viveu a maior parte de sua vida, foi uma das influências mais profundas nas obras do autor. A dupla identidade do lugar, tanto européia quanto asiática, fez dele um escritor bastante popular na Turquia, por reunir em seus livros aspectos das duas culturas. “Minha cidade é uma mistura de várias origens. Istambul, na verdade, e o meu trabalho, são o testemunho de que o leste e o oeste caminham juntos no âmbito da cultura, algumas vezes perfeitamente, outras vezes de um jeito caótico”, afirmou o autor, em entrevista concedida por telefone ao site do prêmio Nobel.

As obras
Pamuk escreveu sua primeira obra em 1982, uma crônica familiar chamada Cevdet Bey Ve Oğulları (sem tradução), em que descreve o crescimento de uma família durante três gerações, a estilo de Thomas Mann, vencedor do Nobel de 1929. Já no seu segundo romance, o escritor usa cinco perspectivas diferentes para descrever um encontro de família durante a guerra civil da Turquia. A discussão política dos netos revela o caos social e a visão extremista de organizações que buscavam o poder naquela época.

Mas o grande sucesso só foi alcançado no seu terceiro livro, ‘O Castelo Branco’. Ambientada na Istambul do século 17, a história trata da venda de um veneziano como escravo para um otomano conhecido por Hodja. Diferentemente do imaginado, Hodja deseja saber tudo sobre o outro lado do mundo e acaba encontrando no escravo sua própria reflexão. Dessa forma, o autor mostra que crescemos ouvindo histórias e ficções de outras classes sociais, mas, na verdade, a personalidade das pessoas é uma construção variável.

‘Meu nome é vermelho’, escrito em 1998, é também um dos romances mais famosos de Pamuk e vendeu 85 mil exemplares em apenas três semanas na Turquia. Nele, os narradores variam de um capítulo para o outro, incluindo um cachorro, uma árvore, um homem morto e seu assassino. O último livro do escritor é ‘Neve’, que revela a situação política e religiosa que caracteriza a sociedade turca atualmente. Pamuk receberá o prêmio de 1,1 milhão de Euros, o equivalente a cerca de três milhões de Reais.

Mariana Benjamin
Ciência Hoje On-line
13/10/2006