TBT: contaminação em humanos?

Certo: a comunidade científica é resoluta em dizer que o tributilestanho (TBT) é um notório vilão para o equilíbrio da fauna aquática. Mas que efeitos esse contaminante traz aos seres humanos?

“Poucos são os estudos que avaliam essa relação”, contextualiza o biólogo Ítalo Braga, da Universidade Federal de Rio Grande (Furg). A ciência ainda não tem respostas. Há, entretanto, indícios dignos de ponderação.

Pode existir risco de contaminação para populações – como caiçaras – que consomem mexilhões com frequência

No Brasil, existem apenas dois trabalhos científicos dedicados a evidenciar o risco que o TBT oferece ao homem. O primeiro foi publicado em 2005, quando o grupo liderado pelo oceanógrafo Marcos Fernandez, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), analisou mexilhões (Perna perna) na baía de Guanabara (RJ). A equipe verificou que, de fato, pode existir risco de contaminação para populações – como caiçaras – que consomem esses animais com frequência. “O estudo também mostrou o quanto faltavam, e ainda faltam, informações vitais sobre esse aspecto da saúde pública em nosso país”, comenta Fernandez.

O segundo trabalho a se debruçar sobre o tema foi a pesquisa de mestrado da química Vanda Artifon, apresentada na Furg em 2013. Ela chegou a uma conclusão semelhante: o consumo de mexilhões sururu (Mytella guayanensis) coletados em determinadas regiões da baía de Todos os Santos (BA) pode contaminar populações humanas que dependem desse alimento para subsistência. “A concentração de TBT que estimamos para as populações do entorno é de aproximadamente 400 nanogramas por quilo ao dia (ng kg-1/dia); são valores acima do limite máximo estabelecido pela Autoridade Europeia de Saúde Alimentar (EFSA), que é de 250 ng kg-1/dia”, alerta Artifon.

Mexilhão Mytella guyanensis
Mexilhão ‘Mytella guyanensis’, amplamente consumido no Brasil. Nesses animais, foram aferidos índices de TBT que preocupam a comunidade científica. (foto: www.femorale.com)

De acordo com a química, os dados são no mínimo preocupantes. Pois o sururu é um dos moluscos bivalves mais consumidos não só pelas comunidades que sobrevivem da pesca na região, mas pela população brasileira em geral.

Segundo Artifon, se todos os dias uma pessoa de 70 kg comer uma porção de 150 g do mexilhão, ela estará teoricamente em risco – pois seu organismo terá índices de TBT superiores aos recomendados pelas autoridades de saúde pública. “E algumas populações que habitam regiões costeiras consomem bem mais que 150 g diárias de sururu”, lembra a pesquisadora da Furg.

Globalização do veneno

Mesmo no exterior, não são numerosos os estudos a colocar sob escrutínio o impacto do TBT em humanos. Entretanto, no ano de 2002, veio à tona uma pesquisa que verificou, nas regiões costeiras de Taiwan, elevada concentração do contaminante em ostras – indicando risco às populações humanas que desses animais se alimentam.

Em 2002, veio à tona uma pesquisa que verificou, nas regiões costeiras de Taiwan, elevada concentração de TBT em ostras – indicando risco às populações humanas que desses animais se alimentam

Ainda que do outro lado do globo, os resultados assemelham-se aos encontrados por Artifon na baía de Todos os Santos dez anos depois: índices superiores ao limite seguro estipulado pela EFSA.

E vêm dos Estados Unidos alguns lembretes que amplificam preocupações. A Rede de Extensão em Toxicologia (Extoxnet, na sigla em inglês), mantida pelas universidades da Califórnia, Oregon, Michigan, Cornell e Idaho, traz as seguintes informações: “Apesar de os efeitos em humanos ainda não serem claramente conhecidos, vários incidentes já foram reportados; trabalhadores do setor naval expostos ao TBT desenvolveram problemas respiratórios, dores de cabeça, irritação na pele, fadiga e problemas de estômago”, lê-se na página virtual do grupo. “Exposição crônica pode comprometer fígado e rins”, completa o site.

Artifon acrescenta: “Já foram encontrados níveis de TBT em análise de sangue de voluntários nos Estados Unidos.” As quantidades foram variáveis. Mas, em alguns casos, beiravam 85 nanogramas por mililitro (85 ng/ml). É um valor abaixo dos limites de segurança estabelecidos para alimentos – mas é suficientemente elevado para incitar um olhar mais atento. “Essas são concentrações comparáveis àquelas que revelaram efeitos imunotóxicos em experiências in vitro com células sanguíneas.”

Efeitos imunotóxicos? A pesquisadora da Furg elenca alguns deles: imunossupressão, neurotoxicidade, alterações na atividade enzimática, irritação na pele e nos olhos, inflamação respiratória, desordens intestinais, alterações hormonais, efeito teratogênico e possivelmente atividade carcinogênica.

Embarcações
É improvável que navios de grande porte ainda usem TBT em seus sistemas anti-incrustantes, pois a fiscalização sobre eles tende a ser rigorosa. Quanto a pequenas embarcações de lazer e apoio, entretanto, a história pode ser outra. (foto: IMO)

“É preciso notar, entretanto, que o quociente de risco para as populações norte-americanas ainda é muito menor do que os obtidos no Brasil ou em Taiwan”, pondera Fernandez. “Pois, nos Estados Unidos, o uso do TBT foi restrito ainda em 1988; a fiscalização é rígida; e as concentrações do contaminante na biota são baixas se comparadas àquelas verificadas em nossos estudos.”

Quebra-cabeça sistêmico

Ainda que preocupantes, tais análises dividem um ponto fraco em comum: elas não são suficientemente conclusivas. “Se há alguma doença humana causada diretamente pelo TBT? Apesar dos indícios, a resposta é simplesmente ‘não sabemos’”, considera Artifon.

A ciência ainda não conseguiu estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre essa substância e o organismo humano. Trata-se de um clássico impasse toxicológico: contaminantes ambientais são geralmente difusos, e, em doses ‘homeopáticas’, acumulam-se nos ecossistemas e reagem com milhares de substâncias outras.

Tal dinamismo cria atrozes dificuldades metodológicas para pesquisadores desejosos de rastrear, com precisão, a toxicidade de um composto específico.

Apesar dos indícios, ao TBT não pode ser reputada nenhuma culpa direta por males humanos quaisquer que sejam

Por isso, ao TBT não pode ser reputada nenhuma culpa direta por males humanos quaisquer que sejam – mesmo que os indícios todos induzam à crença, bem embasada, de que ele deve ser mais temido do que realmente é.

Interessados no impasse apreciarão a leitura do artigo de revisão elaborado pela toxicologista Blanca Antizar-Ladislao, da Universidade de Edimburgo (Escócia). Publicado em 2008 – ano do banimento internacional do TBT –, o trabalho analisa o impacto da substância no organismo humano.

“Mesmo que não saibamos se há uma relação direta de causalidade, as elevadas concentrações dessa substância detectadas em alimentos marinhos provenientes das diferentes regiões do mundo evidenciam que, de fato, os seres humanos estão expostos à contaminação por TBT”, preocupa-se Artifon.

Boa notícia?
Se tal cenário toxicológico dá margem a certo alarmismo, uma notícia pode talvez arrefecer alguns ânimos. Se ela é boa ou ruim, caberá ao leitor decidir: “Amostras de frutos do mar coletadas em mercados asiáticos, europeus e estadunidenses mostraram que, sim, o TBT estava presente nos organismos – mas em concentrações abaixo do limite estabelecido pela EFSA”, conta a pesquisadora da Furg. É aquela história: populações estão a ingerir um perigoso contaminante; mas em quantidade tão diminuta que talvez, segundo alguns, não valha a pena esquentar a cabeça. Se os otimistas estiverem certos, essas quantias devem ser reduzidas ao longo do tempo – uma vez que o TBT foi banido em 2008.

 

Este é o terceiro texto da série especial ‘Oceanos envenenados’, publicada esta semana na CH On-line. Confira!

Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Matéria publicada em 12.02.2014

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