Alerta em abrolhos

A biodiversidade do arquipélago de Abrolhos, o complexo de recifes mais importante do Atlântico Sul, localizado no litoral da Bahia, está ameaçada por bactérias marinhas. Esse é o alerta do oceanólogo Fabiano Thompson, do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por meio da análise do DNA de vários organismos presentes na água e nos recifes da região, foram identificadas bactérias que causam o branqueamento dos corais e podem levá-los à morte.

Segundo Thompson, a degradação mais intensa é observada nos recifes com maior quantidade de microrganismos patogênicos. Uma das espécies de corais mais ameaçadas é a Mussismilia braziliensis. “Os estudos do nosso grupo mostram que, se nada for feito, essa espécie poderá ser extinta em menos de cem anos”, alerta.

Os pesquisadores descobriram uma nova espécie de bactéria, que provoca o branqueamento e a necrose dos corais

Durante o estudo, os pesquisadores descobriram uma nova espécie de bactéria, a Vibrio coralliilyticus, amplamente distribuída no meio marinho – inclusive no banco de Abrolhos. Ela provoca doenças infecciosas cujo principal sintoma é o branqueamento e a necrose dos corais.

O oceanólogo explica que o branqueamento dos corais é consequência da atividade das bactérias quando a temperatura dos oceanos e os nutrientes presentes no meio aumentam. “O aquecimento global intensifica a secreção de toxinas pelas bactérias, o que causa doenças nos corais, como a praga branca e a necrose tecidual”, diz.

Na chamada praga branca, os corais perdem tecido e zooxantelas – tipo de protozoário que vive em interação mutuamente benéfica com os corais e responde por sua coloração. O esqueleto exposto faz com que o coral pareça branco.

Banco de recifes de Abrolhos
A região de Abrolhos, densamente coberta por corais no fundo do mar, é um verdadeiro berçário da vida marinha (foto: Alex Gabiru – CC BY 2.0).

Excesso de nutrientes

O oceanólogo explica que as bactérias são encontradas principalmente na água do mar e no intestino de peixes e moluscos. “O desequilíbrio do ecossistema ocorre quando a água recebe nutrientes em excesso, o que propicia uma proliferação de bactérias maior do que o normal”, afirma.

O desequilíbrio do ecossistema ocorre em parte por causa da poluição que sai do continente em direção ao banco de recifes de Abrolhos

Esse aumento de nutrientes na água deve-se em parte à poluição que sai do continente em direção ao banco de recifes de Abrolhos. Os pesquisadores agora investigam a origem dessa poluição, que pode ser esgoto.

Outra causa apontada por Thompson para o aumento de nutrientes é a reprodução vertiginosa de algas. “À medida que o número de algas aumenta, encontramos mais nutrientes e, consequentemente, mais bactérias patogênicas.”

Segundo o oceanólogo, essa situação é decorrente da pesca predatória. “Os peixes que deveriam ser os predadores dessas algas estão sendo pescados de maneira imprópria, o que provoca o desequilíbrio da cadeia alimentar”, conta o pesquisador, ressaltando que mais de 90% do banco de recifes não são protegidos da pesca.

Thompson destaca que o resultado da pesquisa serve como um alerta para o risco de extinção em Abrolhos, uma região de extrema importância para a preservação da biodiversidade brasileira. “Esse banco recifal é um verdadeiro berçário da vida marinha, que abriga recifes com cerca 10 mil anos”, pondera. E completa: “As áreas marinhas protegidas por lei precisam ser expandidas no papel e na prática.”

Bruna Ventura
Ciência Hoje On-line