Astrônomos identificam possíveis ‘primos’ da terra

Astrônomos de todo o mundo festejam a descoberta de dois novos planetas extra-solares. Encontrar astros como esses fora do Sistema Solar não é novidade: mais de 140 já foram identificados desde 1995. No entanto, tratava-se na maior parte de gigantes maiores do que Júpiter e gasosos como ele. Desta vez a coisa é diferente: astrônomos da agência espacial norte-americana (Nasa) anunciaram a observação de planetas com proporções similares às de Netuno.

Ilustração representa o planeta descoberto a 30 anos-luz da Terra, na órbita da estrela Gliese 436. Acredita-se que sua atmosfera seja
nebulosa e que sua temperatura gire em torno de 370o C (arte: Nasa)

Com massa de 10 a 20 vezes superior à da Terra, os novos astros são os menores já identificados e representam uma nova classe de planetas extra-solares. É possível que sejam formados por rochas, como a Terra, o que aumenta a esperança de se encontrar um planeta similar ao nosso num futuro próximo. “Astros como a Terra são nosso próximo destino”, garante Geoffrey Marcy, um dos autores da descoberta.

Um dos novos planetas foi identificado pela pesquisadora Barbara McArthur, da Universidade do Texas, na órbita da estrela 55 Cancri , em torno da qual já haviam sido encontrados outros três astros gigantes. Situado na constelação de Câncer, a 41 anos-luz da Terra, esse conjunto forma o primeiro sistema conhecido com pelo menos quatro planetas (além do nosso próprio).

Esse astro está localizado a 5,6 milhões de km da estrela, distância aproximadamente 26 vezes menor do que a que separa a Terra do Sol. Essa pequena distância faz com que sua órbita dure apenas três dias, enquanto os outros três planetas do mesmo sistema demoram 15, 44 e 4520 dias. “55 Cancri é um laboratório promissor para estudos de formação e evolução de sistemas planetários”, comemora McArthur.

 

Clique na imagem para assistir a uma animação (formato .mov; 1,3 MB) do sistema planetário da estrela 55 Cancri. Ela começa com o planeta mais distante (um gigante gasoso) e segue na direção do planeta recém-descoberto, que tem o tamanho de Netuno. (animação: Nasa/JPL)

Um segundo astro foi descoberto por Geoffrey Marcy e Paul Butler, ambos da Universidade da Califórnia, na órbita de uma pequena estrela chamada Gliese 436, situada na constelação de Leão, a 30 anos-luz da Terra. Localizado a 4,1 milhões de km da estrela, ele leva dois dias e meio para contorná-la. Trata-se do segundo planeta conhecido a girar em torno de uma estrela com massa pequena (equivalente a 40% da massa do Sol).

Os dois planetas descobertos pela Nasa vêm se juntar a um outro do mesmo tipo, com tamanho similar ao de Urano, identificado por astrônomos europeus no fim de agosto. Esse astro foi observado em órbita da estrela Mu Arae, situada a 50 anos-luz da Terra. A descoberta foi feita por uma equipe coordenada por Michael Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra, na Suíça.

Os novos planetas são bem menores que gigantes gasosos do Sistema Solar como Júpiter ou Saturno. Por isso, os pesquisadores acreditam na possibilidade de eles serem formados não por gás, mas sim por rocha ou rocha e gelo. Os novos astros podem ter se formado — como a Terra — pelo acúmulo de corpos rochosos que estavam em órbita da estrela. “Um planeta do tamanho de Netuno pode não ter massa suficiente para reter gases, mas não temos certeza disso”, explica Butler.

Os novos planetas extra-solares foram encontrados após uma cuidadosa observação de 950 estrelas em um telescópio no Havaí. Eles foram localizados a partir da uma técnica que detecta as oscilações que eles provocam na estrela que orbitam, devido a sua força gravitacional. Esse é o mesmo método usado para identificar a maior parte dos outros planetas extra-solares conhecidos.

Renata Moehlecke
Ciência Hoje On-line
02/09/04