‘boca aberta cheia de dentes’

Imagine passar oito meses convivendo com a realidade pobre e faminta de uma favela, conhecendo de perto os medos e preocupações dos moradores. A experiência resultou na tese de doutorado da nutricionista Maria do Carmo Soares de Freitas, defendida na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e transformada no livro Agonia da fome . A comunidade escolhida foi o bairro do Péla, um dos principais redutos do tráfico em Salvador.

null O livro propõe uma revisão crítica das teorias já existentes sobre o tema. Para a autora, a visão clínica da fome como doença física decorrente da pobreza e a concepção do fenômeno como condição do processo histórico social são alternativas reducionistas. Na tentativa de formar uma “etnografia da fome”, Maria do Carmo buscou, na realidade do Péla, vasculhar a subjetividade dos famintos e desvendar as representações culturais daquele grupo social.

Para ilustrar essas representações, o livro é repleto de falas dos moradores que mostram como algumas imagens coletivas são criadas para dar sentido à realidade social, embora cada indivíduo sinta a fome crônica de uma maneira particular. A fome tem forma humana para os que vivem no bairro: “Quando falta comida, a pessoa vê um vulto. Aquele vulto de mulher. Dizem que ela tem uma boca aberta cheia de dente, eu nem gosto de ficar falando, ela anda como uma doida, com um vestido vermelho comprido, sem sapato, de pé no chão”, descreve um morador.

Nesse ambiente em que a fome é uma ameaça constante, são freqüentes as concepções do fenômeno como uma entidade exterior ao corpo, sentida como cheiros, pêlos que se arrepiam, impressões de vultos que passam ou sons de alguém que “bate na porta”. Curiosamente, não há referências ao paladar quando se fala da fome. Para a autora, essa é a forma encontrada pelos famintos para reduzir seu sofrimento.

Além disso, evitar pronunciar a palavra “fome” é o recurso mais usual para tentar fugir dela. Segundo Maria do Carmo, apenas os moradores que participam de movimentos sociais e têm mais escolaridade encaram o fenômeno como um produto da ausência de políticas sociais, enquanto os outros vêem a fome como uma “peste”.

O livro descreve ainda a relação da fome com outros aspectos do cotidiano do Péla, como a religiosidade, o tráfico de drogas e a violência. É quase impossível para alguém que não vive em situação de fome compreender todas as implicações do fenômeno. No entanto, Agonia da fome aproxima o leitor dessa realidade ao apresentar situações concretas como a de uma faminta que fazia sopa de papelão para alimentar os filhos pequenos.

A fala de tantos personagens da vida real fazem valer a leitura, embora a linguagem rebuscada própria de trabalhos acadêmicos e uma revisão descuidada dificultem a compreensão do texto em alguns trechos. A grande contribuição da pesquisa para a literatura científica é a conclusão de que “a fome não se manifesta apenas no plano biofísico e sócio-econômico, mas vai além destes, com construções simbólicas, independentes ou não, das necessidades nutricionais do organismo”.

Agonia da fome
Maria do Carmo Soares de Freitas
Rio de Janeiro, Editora Fiocruz (Fone: 21 3832-9039)
e Salvador, Editora da UFBA (Fone: 71 263-6164)
281 páginas – R$ 28,00

Catarina Chagas
Ciência Hoje On-line
28/05/04