Carnaval: realidade e miragem, injustiça e prazer

O artigo a seguir foi originalmente publicado no site da
Assessoria de Comunicação da Universidade de Brasília

Aproximamo-nos hoje de mais um momento de euforia coletiva, de alegria e soltura, às vezes intensa e autêntica, às vezes densa e forçada, que atravessa os quatro cantos do país, vinte e quatro horas por dia. É possível pensar o Carnaval brasileiro como uma espécie de teste, uma prova dos nove do que foi a nossa sociedade ao longo do ano que acabou de passar.

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Foto: Lóris Machado (reprodução / CH 135)

Esse lugar privilegiado, de um discurso cultural que se apresenta como totalizador e ao qual todas as camadas sociais podem supostamente aderir e sentir-se expressadas, é uma fantasia altamente eficaz que foi sendo construída ao longo do século 20 e que alcançou de fato essa espessura há não muito mais do que três décadas. Acredito que o carnaval brasileiro atual, com essa dimensão avassaladora, somente se consolidou como a grande tradição nacional a partir da universalização dos televisores em todo o país na década de setenta do século passado.

Do século 19 até os anos sessenta do século 20, ocorreu uma expansão crescente e uma intensificação das festas carnavalescas realizadas pelas várias classes e segmentos sociais do país. Cresceu o carnaval de salão, na sua versão para a classe média e na sua versão para a elite. Em ambos os casos, sempre dentro de um clima de segregação racial intensa.

Tanto nas capitais como nas cidades do interior, os clubes sociais tidos como “melhores” excluíam os negros e os pobres, que festejavam o carnaval nas ruas e em clubes humildes, em geral situados nas periferias e nos bairros populares.

Essa estrutura de segregação racial e social transformou-se externamente nas últimas décadas, assumindo agora um perfil explícito de segregação por poder aquisitivo: em princípio, todos são iguais, porém alguns possuem mais dinheiro do que os outros e são os que podem pagar mais que se juntarão para realizar a fantasia da festa sem barreiras.

Duas dimensões conflitantes se apresentam então ao mesmo tempo: a estratificação inexorável pela classe (a qual coincidentemente e na contramão do discurso da democracia racial é mais branca na mesma medida em que é mais rica), que tende a tornar os ambientes do carnaval cada vez mais setorizados e homogêneos; e a suposta falta de limites, que é ainda considerada como essência última, ainda que raramente praticada, da festa de Momo.

O que veremos nos próximos dias é o jogo sedutor e deslumbrante de tentar resolver esse dilema por definição insolúvel: integrar o que tem de ser separado; homogeneizar o que se baseia na heterogeneidade; igualar o que só pode acontecer porque existe desigualdade.

Mencionei antes a dimensão televisiva do Carnaval porque a criatividade dos desfiles depende do fato de que a TV faz parte do cotidiano da vida das pessoas como nunca em toda a história desse meio de comunicação. Em um plano, então, a TV iguala os carnavalescos e os espectadores, já que ambos se alternam, uns para os outros, no exercício mútuo do encantamento e da fusão fantasiada de corpos que encontram seu prazer individual e coletivamente.

A inversão de papéis que permite a auto-sedução por meio da sedução alheia só é possível pela intimidade virtual e real da televisão. E não é por acaso que o Brasil, possuidor de um dos carnavais mais espetaculares do mundo, conta também com um sistema de mídia televisiva dos mais refinados tecnicamente. Afinal, para que quer uma atriz global desfilar como destaque de uma escola de samba se não for para que ela mesma se veja, pela TV, desfilando na multidão da passarela para os presentes e para os televidentes?

O Carnaval fixou-se agora, na sua pretensão de integrador de todas as classes, uma hierarquia social e racial que vai das estrelas (preferivelmente louras) no alto das alegorias às passistas e aos percussionistas (negros todos) que evoluem com os pés no chão; passando pelos demais destaques que recheiam os degraus intermediários da escada vertical da fama e do prestígio social.

É com essa fórmula, recheada de uma estética musical, coreográfica e dramática magnífica, que o Carnaval brasileiro consegue passar a ilusão de comunhão e integração sobre a base de uma desigualdade social e racial explícita e que é constitutiva do evento. Sonhar com um mundo integrado não é prerrogativa apenas das comunidades que fazem as festas carnavalescas, visto que o carnaval já existe tanto para o turista quanto para os participantes locais.

Racismo e arte grandiosa, desigualdade e gozo intenso, exibicionismo e integração comunitária, consumismo histérico e dádiva total. Quem sabe os dilemas humanos colocados pelo nosso carnaval (os dilemas, repito, e não a solução proposta, que apenas reintroduz as dificuldades acima comentadas) são dilemas gerais de um mundo que ainda não foi capaz de superar injustiças atrozes e que ao mesmo tempo ainda sonha com a integração da humanidade através da alegria e do prazer.

José Jorge de Carvalho
Departamento de Antropologia
Universidade de Brasília
Fevereiro/2004