Ciência no coração da antártica

O Brasil está prestes a dar o primeiro passo rumo à exploração científica do inóspito interior da Antártica. E o fará de modo sustentável. Em dezembro, será instalado no Polo Sul o Criosfera 1, um módulo autônomo de pesquisa avançada equipado com geradores de energia solar e eólica e aparelhos que irão coletar dados meteorológicos e medir a composição química da atmosfera da região.

O laboratório de meio milhão de reais, financiado pelo Programa Antártico Brasileiro (Proantar) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), será o primeiro do tipo instalado no interior antártico a funcionar 24 horas por dia, sem a presença de humanos e sem a necessidade de combustível fóssil.

O módulo funcionará 24 horas por dia, sem a presença de humanos e sem a necessidade de combustível fóssil

“É um projeto inédito, vamos fazer pesquisa full-time no coração da Antártica e provaremos que isso é possível de ser feito sem a emissão de qualquer forma de poluição”, diz o geocientista e coordenador de pesquisa atmosférica do projeto, Heitor Evangelista, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). 

Durante o primeiro ano de funcionamento do módulo de pesquisa, cientistas da Uerj, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) irão investigar as consequências climáticas da redução da camada de ozônio sobre o Polo Sul e o transporte atmosférico de poluentes para o ar da região. 

Testemunhos de gelo
Os pesquisadores brasileiros ficarão acampados por dois meses para instalar o módulo de pesquisa e perfurar camadas de gelo que revelam a composição do ar do passado. (imagem: Divulgação Proantar)

Em outro estudo previsto, os pesquisadores utilizarão os dados coletados sobre a composição atmosférica atual para validar as análises da técnica de ‘testemunhos de gelo’. 

Nessa técnica, o gelo superficial é perfurado com uma sonda que coleta amostras de diferentes camadas, correspondentes a diferentes épocas. Como o gelo aprisiona bolhas de ar do momento em que foi formado, a análise desse material revela a composição da atmosfera do passado.

O que os pesquisadores querem fazer é comparar os dados sobre a composição atmosférica obtidos com os equipamentos do novo módulo durante um ano inteiro, com as camadas de gelo que se acumularem nesse mesmo período. 

“Assim podemos inferir como o gelo de uma determinada região registra as alterações que ocorrem na atmosfera”, diz Evangelista. “É uma espécie de ‘calibração’ dos testemunhos de gelo que ainda não foi feita na Antártica devido à dificuldade de logística de se coletar informações por tempo tão longo.”

Condições extremas

Com mais sete pessoas, o pesquisador integrará o grupo que ficará acampado, de dezembro a janeiro, para preparar o módulo e perfurar as camadas de gelo, que poderão chegar a 150 metros de profundidade.

Segundo Evangelista, o módulo é feito com uma fibra especial que suporta baixas temperaturas e é capaz de funcionar por anos sem a presença de ninguém, apenas enviando os dados por satélite para os pesquisadores. Mesmo assim, nos primeiros anos serão feitas visitas de manutenção durante os verões.

“Teremos muito o que aprender, sobretudo sobre o funcionamento dos equipamentos em condições de temperatura tão extremas quanto às do Polo Sul”, diz o pesquisador. 

Mapa Antártica
Atualmente, as estações de pesquisa em atividade mais interioranas da Antártica são a russa Vostok, a 78°S, e a estadunidense Amundsen-Scott, a 90°S. O módulo Criosfera 1 ficará a 85°S, a 500 quilômetros do Polo Sul geográfico. (imagem: Sofia Moutinho)

O frio na região do módulo, a 85° de latitude sul, é bem maior do que na estação antártica brasileira Comandante Ferraz, que fica a 62° de latitude sul, na borda do continente. Enquanto na estação a média é de 2°C no verão e de -17ºC no inverno, no local do Criosfera 1 a média é de -19ºC no verão e de -45ºC no inverno.

O Brasil avançou muito nas pesquisas no limite do gelo marinho antártico, mas o manto de gelo antártico ainda persiste inexplorado

Depois do primeiro ano de experiência, o módulo deverá ter seu uso ampliado para outros tipos de pesquisa. Evangelista conta que já há astrônomos, astrofísicos e astrobiólogos interessados em usufruir da infraestrutura.

“O Brasil avançou muito nas pesquisas no limite do gelo marinho antártico, mas o manto de gelo antártico ainda persiste inexplorado para nós”, afirma o geocientista. “Agora, vamos dar um passo adiante e a nossa ideia é que, no futuro, outras áreas do conhecimento possam usar o módulo.”

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line