Civilização complexa na Amazônia pré-colombiana

Gigantescas trincheiras cavadas na terra na região do Acre reforçam a hipótese de que a Amazônia abrigava sociedades desenvolvidas antes da chegada dos colonizadores. As estruturas, feitas entre o início da era Cristã e o ano de 1300, formavam espaços geométricos precisos conectados por estradas retas e perpendiculares a eles. O estudo das figuras encontradas, chamadas geoglifos, foi publicado na última edição da revista Antiquity por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Acre e Instituto Iberoamericnao da Finlândia.

As esculturas geométricas têm, em média, entre 90 e 350 metros de diâmetro e são formadas por sulcos com 11 metros de largura e um a três metros de profundidade. Por terem dimensões tão grandes, os geoglifos são vistos melhor do alto, por meio de sobrevoo, por exemplo. Para o estudo, além da pesquisa em campo, foram usadas imagens do Google Earth, programa que disponibiliza fotos de satélite de vários pontos da Terra e do universo.

Hoje, já são conhecidos 260 geoglifos

A análise em laboratório de uma amostra de carbono coletada em um dos geoglifos indica a provável data em que ele foi construído: 1283 depois de Cristo. Os pesquisadores acreditam que outros podem ter sido feitos na mesma data. Mas há também estruturas que remontam a 2 mil anos atrás. Segundo eles, as áreas delimitadas pelos geoglifos podem ter sido fortalezas ou centros cerimoniais.

“Esses geoglifos começaram a ser descobertos na década de 1970, por causa da intensificação do desmatamento”, conta uma das autoras do artigo, a arqueóloga brasileira Denise Schaan, da UFPA. “E a tendência é encontrar cada vez mais”, afirma. Hoje, já são conhecidos 260 geoglifos.

Se, por um lado, o desmatamento evidenciou a existência desses desenhos, por outro, a agricultura e a pecuária extensiva na Amazônia ameaçam a conservação desses tesouros arqueológicos. “Quando encontramos os geoglifos, eles já estão em processo de deterioração”, lamenta Schaan. “Acredito que eles já tenham perdido 50 centímetros de seus depósitos superiores”, diz.

População numerosa

Os pesquisadores estimam que seriam necessárias 80 pessoas para construir um único geoglifo. Levando em conta que nessas sociedades também deveria haver indivíduos responsáveis pelo preparo de alimentos e pela execução de trabalhos domésticos, entre outras atividades, a população seria de, no mínimo, 300 pessoas. Em uma escala regional, a equipe acredita que poderia até existir uma sociedade com 60 mil habitantes nativos, já que os geoglifos estão próximos uns dos outros.

A equipe acredita que poderia até existir uma sociedade com 60 mil habitantes nativos

Vestígios de complexos semelhantes já foram descobertos em outras partes da Amazônia pré-colombiana. Nas terras do alto Xingu, ao norte do estado do Mato Grosso, outros pesquisadores, entre eles o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também encontraram estruturas de terra, como fortificações e caminhos, mas essas obras não são tão geométricas como as do Acre. Além disso, a equipe de outro antropólogo, Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida (EUA), registrou na região vilas com construções como praças centrais, estradas e até pontes.

Até então, acreditava-se que os nativos que habitavam a região amazônica nos séculos 13 e 14 compunham tribos primitivas, pequenas e igualitárias, já que a floresta tropical favorece pouco a formação de sistemas sociopolíticos elaborados.

Segundo Schaan, ao que tudo indica, o desenvolvimento das sociedades pré-colombianas amazônicas aconteceu separadamente do das andinas (que têm na civilização Inca seu exemplo mais famoso). Os materiais usados nas construções, por exemplo, são diferentes: as amazônicas usavam terra, madeira e palha; as andinas, pedra. Além disso, ainda não há evidências que indiquem claramente que houve contato entre essas sociedades. “Mas essa possibilidade não deve ser descartada”, diz a pesquisadora. “Podem ter acontecido trocas culturais entre esses povos”, completa.

 

Raquel Oliveira
Ciência Hoje On-line