Admiráveis novos mundos

No final do século 15 e começo do século 16, audaciosos navegadores europeus lançavam embarcações a mares desconhecidos em busca do caminho para o outro lado do mundo: o oriente. O objetivo era conseguir trazer de lá especiarias e outros objetos que pudessem ser vendidos por muito dinheiro. Era uma viagem planetária que durava vários anos.

Naquela época, os principais exploradores eram os navegadores espanhóis, holandeses e portugueses. Vasco da Gama, o comandante português da esquadra que seguiu diretamente da Europa para a Índia entre julho de 1497 e maio de 1498, realizou a mais longa viagem oceânica feita até então. A distância que ele percorreu foi maior que uma volta completa ao redor do mundo pelo equador.

Vasco da Gama
Ilustração feita para a edição de 1880 da obra ‘Os Lusíadas’, de Luís de Camões, retratando a chegada do navegador português Vasco da Gama a Calicute, na Índia, em 1498 (arte: Ernesto Casanova).

Essa grande proeza foi imortalizada nos versos de Os Lusíadas, do poeta português Luís Vaz de Camões: “Trabalha por mostrar Vasco da Gama/ Que essas navegações que o mundo canta/ Não merecem tamanha glória e fama/ Como a sua, que o Céu e a Terra espanta”.

No final do século 20 e início do século 21, o homem continuou a fazer explorações planetárias, mas, dessa vez, no oceano cósmico. As iniciativas vão desde o lançamento do Sputinik – o primeiro satélite artificial da Terra – em outubro de 1957 até o envio das sondas planetárias que mais recentemente exploraram Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, passando pela descida da missão Apollo 11 na Lua em julho de 1969. A busca atual é por outro tipo de ‘especiaria’, muito mais valiosa do que a procurada pelos exploradores antigos. O produto especial hoje é o conhecimento.

As inúmeras missões espaciais para o planeta Marte, por exemplo, têm uma grande motivação de encontrar vida ou mostrar que, no passado, o planeta vermelho foi um mundo capaz de sustentar alguma forma de vida. Se ela existiu, provavelmente não foi na forma de grandes animais ou plantas, como ocorre aqui em nosso planeta, mas na forma microscópica.

Se, por acaso, ainda existir vida em Marte, ela estará bem escondida no solo, pois esse planeta possui uma atmosfera muito rarefeita e constituída basicamente de gás carbônico, o que leva à ocorrência de bruscas mudanças de temperatura entre o dia e a noite marcianos. Além disso, a atmosfera de Marte é pouco eficiente para proteger o planeta dos efeitos das radiações de alta energia que vêm do espaço.

Encontrar uma simples forma de vida em Marte será uma das maiores descobertas da humanidade

Entretanto, encontrar uma simples forma de vida em Marte, mesmo que seja uma bactéria, com certeza será uma das maiores descobertas da humanidade. As diferenças e semelhanças que existirão em comparação com a nossa biologia sem dúvida levarão a uma compreensão do fenômeno da vida que nunca antes tivemos.

Desafios espaciais

Assim como os navegadores antigos tinham que aperfeiçoar seus barcos e descobrir novas rotas para melhorar suas viagens, os exploradores planetários atuais, a cada missão, também desenvolvem novas tecnologias e inventam novas maneiras para atingir seus objetivos. A exploração espacial é sempre um desafio. Superar desafios é o que gera o progresso científico e tecnológico.

Nesta primeira década do século 21, foi descoberta uma enorme quantidade de planetas fora do Sistema Solar. Até a data de publicação desta coluna, 416 planetas extrassolares já haviam sido detectados. A grande maioria deles foi descoberta a partir da observação da perturbação provocada pela presença desses planetas no movimento da estrela que orbitam, ou seja, não foram feitas observações diretas. Por esse motivo, a maior parte dos planetas até agora detectados é composta por planetas gigantes – com tamanho semelhante ao de Júpiter e Saturno – e localiza-se a uma distância de dezenas a centenas de anos-luz (um ano-luz equivale a aproximadamente 10 trilhões de km) da Terra.

O telescópio espacial Kepler, lançado em 6 de março de 2009 pela Nasa (a agência espacial norte-americana), tem como principal objetivo detectar planetas rochosos com tamanho semelhante ao da Terra. Além disso, a detecção, na atmosfera de outro planeta, de elementos como o oxigênio molecular que respiramos aqui na Terra poderá ser uma indicação forte da existência de vida, já que, no caso da Terra, esse oxigênio é produzido pelas plantas.

Telescópio espacial Kepler
Representação artística do telescópio espacial Kepler (ilustração: Nasa).

Existe também a grande expectativa de se realizar ainda na primeira metade deste século uma missão tripulada a Marte. Esse será mais um grande feito para a humanidade. Mas, sem dúvida, terá custos astronômicos. Talvez seja possível aprender muito mais promovendo a sofisticação de missões não tripuladas, pois a presença do ser humano em ambientes tão hostis como o espaço e outros planetas tem um preço muito alto, tanto do ponto de vista financeiro quanto do psicológico. Mas com certeza não faltarão interessados em realizar esse desafio.

Se descobrirmos vida nos planetas do Sistema Solar ou em planetas extrassolares, sem dúvida todo o investimento feito até hoje na exploração espacial estará pago. Descobrir que não estamos sozinhos na imensidão do cosmos é algo que realmente não tem preço.

Por isso, é necessário ter paciência e não desistir da busca. Basta lembrar que, se os audaciosos navegadores europeus não tivessem se arriscado nas viagens em busca do caminho marítimo para as Índias, não teriam descoberto o continente americano, com toda a diversidade que eles sequer imaginavam. Da mesma maneira, as missões espaciais e as observações feitas pelos grandes telescópios aqui na Terra poderão encontrar coisas que estão além da nossa imaginação nesses admiráveis novos mundos.

 

Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos

Matéria publicada em 18.12.2009

COMENTÁRIOS

Os comentários estão fechados

CONTEÚDO RELACIONADO

A nova fera do Rio Grande do Sul

Alexander Kellner antecipa sua coluna deste mês para apresentar a fantástica descoberta de uma espécie de carnívoro primitivo com 220 milhões de anos feita por pesquisadores gaúchos.

Passado exposto pelo terremoto

Diante da parcialidade da maior parte das análises presentes na mídia sobre a catástrofe que atingiu o Haiti em janeiro deste ano, Keila Grinberg dedica sua coluna à avaliação das raízes históricas dessa nação marcada pelo racismo desde que ainda era colônia.

Abrir Chat