Animais, meus próximos

Entre os muitos enigmas da condição humana, encontra-se o de suas relações com os demais seres do mundo, particularmente aqueles que consideramos como “vivos” e, dentre estes, com ainda mais premência, aqueles que são chamados em nossa cultura de “animais”.

Entre os muitos enigmas da condição humana, encontra-se o de suas relações com os demais seres do mundo

O humano, imerso como é nas conexões gerais da natureza, deve construir sistemas de significado em que sua continuidade e sua descontinuidade dentro delas sejam tematizadas, elaboradas, vivenciadas. Essa trama de sentido é a tarefa básica de cada cultura, a estrutura mais fundamental de toda visão de mundo, e assume formas muito diversas, com implicações fenomenológicas de imensa riqueza.

Em julho, durante a IX Reunião de Antropologia do Mercosul, no grupo de trabalho sobre antropologia e medicamentos (a que já me referi em coluna anterior), foi apresentada por Jean Segata, pesquisador do Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí, uma instigante etnografia de uma clínica veterinária de Rio do Sul, em Santa Catarina. Seu título é ‘Tristes amigos. A medicalização de animais de estimação’.

No estudo, Segata apresenta uma situação de intenso crescimento da demanda por atendimento terapêutico a animais domésticos, particularmente em relação a diagnósticos de depressão ou ansiedade canina. Descreve os processos socialmente aprendidos de reconhecimento dessa condição, em que novos roteiros terapêuticos se desenham, envolvendo a sociabilidade entre humano e animal, a alimentação, a sexualidade e – no limite – o consumo regular de medicamentos psicotrópicos.

Cão triste
Estudo realizado em Santa Catarina chama a atenção para o aumento do número de animais domésticos levados para receber atendimento terapêutico, especialmente para depressão e ansiedade canina. (foto: Gabriella Fabbri/ Sxc.hu)

É notável o paralelismo entre as perturbações psicológicas humanas e as caninas que se vai construindo na imaginação social, acompanhando um processo de antropomorfização dos animais de estimação já longamente reconhecido como característico das transformações modernas da família e da pessoa.

Essa antropomorfização é ainda mais notável porque a cultura ocidental moderna se caracteriza por uma cisão particularmente acentuada entre a humanidade e a animalidade, decorrente das transformações cosmológicas emergentes no início da modernidade, com a afirmação do caráter mecânico do universo, passível do tipo de conhecimento e intervenção que conhecemos sob a forma da ciência e da tecnologia.

Os animais, que tinham compartilhado com os humanos degraus próximos na criação, no modelo medieval da ‘grande cadeia dos seres’ (segundo o qual o mundo é apresentado como uma série contínua e progressiva de entes), foram os mais afetados por esse processo de cisão, relegados a uma posição distante dos portadores da razão iluminista – como máquinas movidas por cegos ‘instintos’.

Animais de estimação

Por outro lado, a concomitante incitação à privacidade e ao intimismo doméstico, associável à transição da vida na corte e da hegemonia aristocrática para o mundo burguês, ensejou a generalização da passagem dos animais domésticos (em que a proximidade afetiva ainda estava ligada a funções práticas ou de prestígio) a ‘animais de estimação’, importantes apenas pelo aconchego afetivo propiciado a seus donos.

Essa nova categoria vem assumindo notável importância em todas as sociedades modernas, o que é evidenciado pelos sinais de assimilação à condição humana, entre eles, o consumo dos mesmos medicamentos.

As demais espécies animais, longamente exploradas ou devastadas pela espécie humana, mereceram outro rumo imaginário, decorrente das denúncias românticas contra o império da razão mecanicista. A partir de meados do século 18, começaram a surgir as primeiras preocupações ecológicas e as primeiras inquietações com o desaparecimento de espécies e o abuso dos animais.

Cão preso
A partir do século 20, estruturou-se um movimento de proteção aos animais, que estende a eles os direitos de igualdade e liberdade atribuídos aos seres humanos. (foto: Erin Pettigrew/ Flickr – CC BY-2.0)

Mas foi apenas no século 20 que se estruturaram formas institucionais e legais de ‘proteção aos animais’, hoje muito generalizadas, como atesta a aprovação de uma Declaração Universal dos Direitos dos Animais, pela Unesco, em 1978.

Essa linha pública e oficial de proteção segue os moldes do universalismo ocidental moderno, estendendo os direitos de igualdade e liberdade aos seres que compartilham com os humanos sua condição vital, seja sob a forma de espécies ou de exemplares individuais.

A linha das experiências privadas, que envolve sobretudo os animais domésticos presentes nas residências dos habitantes das cidades, segue por outra direção, mais integrada, passível de elaborações ‘afetivas’ e de um regime de trocas considerado caloroso e enriquecedor.

Relações essenciais

Essa segunda vertente apresenta possibilidades de comparação muito interessantes, por se apresentar mais próxima, sob certos aspectos, do modo mais entranhado com que as outras culturas elaboram a relação dos humanos com os demais seres vivos.

Prevalecem nelas outros recortes e dinâmicas cosmológicas, com mudanças de estatuto extremamente complexas, metamorfoses e deslizamentos de múltipla ordem e fundamental importância. Lembremo-nos de nossos ‘contos de fadas’, que retêm sinais dessas outras visões de mundo, com princesas, anões e heróis deslocando-se entre formas relacionais de animalidade e de humanidade.

Há hoje diversas frentes de pesquisa e interesse antropológico nessa seara. Os estudos vão desde a descrição e análise das classificações culturais do mundo natural (as ‘etnociências’) até a discussão dos pressupostos epistemológicos e ontológicos (relativos à natureza do ser) que subjazem às nossas representações sobre realidade, natureza e animalidade.

O sonho de uma comunhão vital entre humanos e animais, libertada dasconstrições racionalistas de nossa cultura, permanece pulsante

O antropólogo francês Philippe Descola (1949-) chamou de “naturalista” o modo como se articula o modelo nativo do Ocidente, contrastável com uma série de outros modelos etnograficamente reconhecíveis, em que relações de reciprocidade, predação e dádiva podem prevalecer. Na visão de mundo naturalista, a natureza é uma dimensão da realidade, externa e independente do sentido, do interesse e da ação dos humanos, que com ela se relacionam de fora e à distância (mesmo em relação à parte de si mesmos que se considera ‘natural’ por ser ‘animal’).

O sonho de uma comunhão vital entre humanos e animais, libertada das constrições racionalistas de nossa cultura, permanece, porém, pulsante nessa fronteira tênue entre o processo da pesquisa etnográfica e a imaginação de nosso futuro.

“Assim como o indivíduo não está só dentro do grupo e cada sociedade não está só entre as demais, o homem também não está só no universo”, lembra o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), na última página de seu Tristes Trópicos. E evoca uma possibilidade de contemplação da “essência do seu ser”… “no piscar de olhos pesado de paciência, de serenidade e de perdão recíproco que um acordo involuntário permite às vezes trocar com um gato.”

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sugestões para leitura

Descola, Philippe. Estrutura ou sentimento: a relação com o animal na Amazônia. Mana. Estudos de Antropologia Social,  Rio de Janeiro,  v. 4,  n. 1, abril, 1998.

Ingold, Tim. Humanidade e Animalidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais 28: 16, 1995.

Lévi-Strauss, Claude. Tristes trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Kulick, Don. Animais gordos e a dissolução da fronteira entre as espécies. Mana. Estudos de Antropologia Social,  Rio de Janeiro,  v. 15,  n. 2, out., 2009.

Thomas, Keith. O homem e o mundo natural: mudanças de atitude em relação às plantas e os animais, 1500-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

Matéria publicada em 07.10.2011

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