Movimento e duração

Um dos focos mais importantes do início das ciências sociais modernas foi o projeto da chamada Escola Sociológica Francesa de explorar os modos de construção social das grandes categorias da filosofia ocidental.

Inspirados em sugestões do neokantismo francês do final do século 19, os sociólogos franceses Émile Durkheim (1858-1917) e Marcel Mauss (1872-1950) – e seus discípulos – dedicaram-se à análise de material etnográfico sobre temas como a “causalidade”, o “espaço”, o “tempo”, a “ordem” e a “pessoa”, ampliando enormemente as possibilidades interpretativas do sentido do mundo.

André Dumans Guedes, em recente tese (O trecho, as mães e os papéis. Movimentos e durações no norte de Goiás, Museu Nacional, UFRJ) sobre uma população de atingidos por barragens no município goiano de Minaçu, contribui finamente para uma antropologia do espaço.

Guedes descreve o valor imaginário atribuído ao permanecer ou ao movimentar-se por essa gente deslocada de diversos pontos do país, tresmalhada de variadas redes sociais, arrebanhada por garimpos ou grandes projetos (como a abertura de estradas e de barragens), temporariamente ancorada em uma pequena cidade decadente, inquieta sobre seu futuro.

Duas imagens fortes emergem reiteradamente no horizonte dos moradores da região: a do cativeiro e a dos bandeirantes. A primeira, negativa, recorrentemente detectada na cultura popular do Norte do Brasil, parece recolher a memória dos tempos reais da escravidão, elaborada pelo filtro das notícias bíblicas dos cativeiros históricos de Babilônia e do Egito.

Boa parte dessa gente se vê destituída dos meios de reprodução que as sucessivas barragens do rio Tocantins lhes foram roubando

A segunda, positiva, associa os movimentos contemporâneos em busca de uma vida melhor à saga bandeirante, à sua ousadia no enfrentamento da natureza pujante e dos “bugres”. Traços concretos de sua passagem pontuam as paisagens goianas, apontando para antigos veios de garimpagem em que a esperança do ganho ainda rebrilha.

Boa parte dessa gente se vê destituída dos meios de reprodução que as sucessivas barragens do rio Tocantins lhes foram roubando: pecuária, pequena agricultura, pequeno comércio e – sobretudo – o pequeno garimpo fluvial. Embora algo da mobilidade da pecuária e do comércio tinja o imaginário do deslocamento aí tão vívido, é a memória do garimpo que catalisa o sentimento de perda de autonomia e ameaça de cativeiro.

Encontra-se aí alguma coisa que eu mesmo encontrei muito ativa também no imaginário da pesca estudado em Jurujuba (Rio de Janeiro): o valor do movimento no trabalho, de um deslocamento aventuroso e desafiador, capaz de trazer grandes ganhos súbitos, tanto quanto repetidas desilusões.

Jurujuba
Em Jurujuba (RJ), o movimento sedutor dos barcos de pesca se rende à estabilidade da terra, da casa e do feminino. (foto: Decio Almo Fotógrafo/ CC BY NC-ND 3.0)

A condição fortemente masculina dessa disposição parece reiterar as relações ideológicas muito profundas entre a ancoragem feminina na casa e a dispersão masculina na “rua”, no “mundo”, na “farra”.

Representações e origens históricas

Essa correlação é culturalmente muito generalizada, tendo merecido uma brilhante análise do antropólogo francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007), no contexto das representações sobre espaço e movimento na Grécia clássica.

Os deuses Hermes e Héstia representavam dois polos opostos. As asinhas nos pés que caracterizam a iconografia do primeiro denotam sua condição de andarilho, de mensageiro, de comunicador entre os diferentes níveis do cosmo, patrono do comércio, dos ladrões e dos diplomatas. Sua efígie sumária, em meio-corpo, era disposta em diversos pontos ao longo dos caminhos e até hoje está presente nos jardins públicos – suportando outros bustos.

Hermes e Héstia
O imaginário de Hermes (à esquerda), deus do movimento e da comunicação entre todos os entes, e de Héstia (à direita), deusa da estabilidade da família. (imagens: Carol Highsmith/ Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos; e Wikimedia Commons/ Greensleeves – CC BY-SA 3.0)

Héstia, ao contrário, é a deusa dos vínculos familiares e do fogo da lareira. As chamas de seu culto animavam o coração das habitações e dos templos da polis. O mundo dependia evidentemente da oposição e complementariedade entre esses princípios de duração e movimento.

Mas não se trata apenas de ficar ou sair do lugar, qualidade de qualquer animal; trata-se dos valores que se aloca ou associa a cada uma dessas condições. A cultura ocidental moderna é herdeira de uma longa tradição de inquietação a esse respeito.

O Antigo Testamento porta os sinais de resistência de uma cultura pastoril, de fundamental compromisso com o nomadismo, às portentosas e sedentárias muralhas das cidades dos impérios “asiáticos” – resistência essa concentrada justamente na lamentação dos cativeiros do Egito e de Babilônia. A própria figura do pastor e de suas ovelhas veio a ser fundamental no imaginário do cristianismo.

Foram os ideólogos do liberalismo político e econômico, a partir do século 17, que desenharam a imagem oposta: a da libertação dos vínculos tradicionais à terra e ao “sangue” pela generalização do comércio e da circulação do capital.

O mercado – lugar de Hermes – se sobrepunha à gleba, ao feudo, à servidão. O filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) operou fundamentalmente nesse registro, de representação da história moderna como uma superação da estase pelo movimento, da imobilidade pela circulação.

Tensões da modernidade

As implicações dessa nova ênfase cosmológica nos cercam por toda parte; sobretudo no que concerne à construção de nós mesmos. Devemos sair do lugar social de onde emergimos para nos constituirmos como sujeitos livres e autônomos. Seja pela via do burguês acumulador e de seu “progresso”, seja pela via do artista criador e de sua “vanguarda”, esse é o mandamento hegemônico das camadas letradas de nossas sociedades contemporâneas.

O que é notável – e a tese de Guedes sublinha com clareza – é que, nos meios populares, a tensão mais tradicional, de valorização de uma mobilidade originária em detrimento de uma eventual estabilização, pode prevalecer sobre a valorização de uma mobilidade adquirida, sinal de acesso à condição de “rico” e letrado.

Garimpo fluvial em Minaçu
O trabalho no garimpo fluvial está presente hoje apenas no registro fotográfico e na memória da população de Minaçu, o que desperta um sentimento de perda de autonomia. (foto: Dimas Guedes)

Na verdade, há uma enorme complexidade no jogo das duas tensões, que podem frequentemente operar em um regime de complementaridade hierárquica – como acentua Guedes.

Em um extremo, há um enorme apelo imaginário dos veículos que a cultura urbana introduziu em Minaçu, sobretudo os grandes utilitários capazes de enfrentar as piores estradas, mas também as motos ou mesmo as bicicletas. São o símbolo ideal de uma capacidade de movimento, de autonomia e de masculinidade.

O sonho das pepitas de ouro se esgotou, e com ele voam os fragmentos deuma vasta trama social, antes fervilhante, hoje ameaçada de humilhanteestagnação

No outro extremo, há a valorização do estudo, da capacidade de enfrentar o mundo dos documentos e papéis, que, por excelência, é o reino da perpetuação do Estado.  É a condição admirada sobretudo nos militantes dos movimentos de populações atingidas, cujo saber letrado permite alguma organização política reivindicatória local.

O sonho das pepitas de ouro se esgotou, e com ele voam os fragmentos de uma vasta trama social, antes fervilhante, hoje ameaçada de humilhante estagnação. Esse é o rastro das intervenções autoritárias do Estado, buscando construir suas babilônicas muralhas sobre os escombros da microscópica vida pulsante do povo. Um novo capítulo ameaça se iniciar agora com o rio Xingu estancado, represado, em Belo Monte!

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sugestões para leitura

Da Matta, Roberto. A casa & a rua – Espaço, cidadania, mulher emorte no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. 140 p.

Mauss, Marcel. Ensaio sobre as Variações Sazonais da SociedadeEsquimó. In: Mauss, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: CosacNaify, 2003. pp. 425-505.

Velho, Otávio. Besta-Fera. Recriação do Mundo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995. 250 p.

Vernant, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os Gregos: estudos de psicologia histórica. São Paulo: DIFEL/EDUSP, 1973. 324 p.

Matéria publicada em 01.07.2011

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