A origem dos grandes grupos de vertebrados é um dos tópicos mais atraentes da paleontologia. Um bom exemplo é o dos cetáceos, grupo que reúne baleias e golfinhos e inclui o maior vertebrado conhecido: a baleia azul, com 30 metros de comprimento. O surgimento desse grupo é um fascinante capítulo da evolução da vida, no qual os mamíferos terrestres passaram a ter hábitos aquáticos, como alguns de seus ancestrais.
Olhando para as baleias, é difícil entender como elas poderiam ter se desenvolvido de animais terrestres. Porém, novas descobertas confirmam o que os pesquisadores suspeitam há algum tempo: os cetáceos estão proximamente relacionados com os artiodáctilos (também chamados de mamíferos com cascos), o que é corroborado por estudos moleculares.
Muitas pesquisas sugerem que, dentro dos representantes atuais dos artiodáctilos, os cetáceos estariam mais proximamente aparentados com os animais do grupo dos hipopótamos. Essa relação de parentesco é estabelecida por diversas feições dentárias (por exemplo, ausência de paracônulos nos molares superiores) e também pela ausência de pêlos ou glândulas sebáceas.
Devido às óbvias diferenças entre os hipopótamos e as baleias, estava claro que deveria existir uma série de outros grupos fósseis mais proximamente relacionados aos cetáceos. Justamente a descoberta de fósseis desse tipo foi publicada pela Nature em dezembro de 2007 por pesquisadores de instituições norte-americanas e da Índia.
Fósseis mais completos
Liderados por J. Thewissen, da Escola de Medicina das Universidades do Nordeste do Ohio (Estados Unidos), os cientistas encontraram fósseis de um mamífero do grupo Artiodactyla chamado Indohyus. Antes disso, essa espécie era conhecida apenas por restos dentários, o que dificultava sua comparação com outros mamíferos do mesmo grupo e também com os mais primitivos membros dos cetáceos.
Os fósseis descritos pela equipe de Thewissen incluem, além de mais material dentário, restos do crânio e do restante do esqueleto. Todos os exemplares foram coletados em Sindkhatudi, na região de Kalakot, que fica na parte da Cachemira situada na Índia. A datação indica que os fósseis são do Eoceno médio (há cerca de 50 milhões de anos), de quando datam também os primeiros registros fósseis das baleias.
Comparações morfológicas mostraram que o Indohyus possui características intermediárias entre os cetáceos mais primitivos e os artiodáctilos. Entre elas, está o espessamento da parede óssea de parte da região auditiva, que, até então, era tida como uma característica exclusiva das baleias.
Outra característica descoberta pelos pesquisadores foi o espessamento da parede óssea de mais partes do esqueleto no Indohyus, em particular dos membros. Essa feição é típica de animais aquáticos como os hipopótamos e diversos grupos de répteis marinhos, e tem o objetivo de prover lastro para que esses animais se locomovam dentro da água.
Por isso, os autores concluíram que Indohyus era um animal que passava um bom tempo dentro da água. Estudos de isótopos estáveis realizados nos dentes desse mamífero também confirmaram esta interpretação.
Nova hipótese
Por fim, com base no estudo, os pesquisadores propuseram uma nova hipótese para a origem dos cetáceos. Segundo a nova teoria, os ancestrais das baleias eram animais do grupo dos artiodáctilos onívoros ou herbívoros, que se alimentavam possivelmente em terra firme. Em situações de perigo, esses mamíferos se refugiavam na água.
Com o passar do tempo, esses hábitos aquáticos foram aumentando em formas como o Indohyus, cuja alimentação podia ser mista e não necessariamente exclusivamente constituída de organismos aquáticos. No estágio seguinte, o ancestral diretamente ligado aos cetáceos teria mudado a sua alimentação para presas que viviam na água. Segundo os autores do estudo, essa mudança de hábito alimentar favoreceu mudanças na dentição e no crânio e foi determinante para o surgimento das primeiras baleias.
Ainda existem algumas questões em aberto em relação à origem dos cetáceos. De qualquer maneira, de uma forma geral, esta descoberta – ao lado de outras mais, realizadas na mesma área da Índia – parece indicar que as baleias se originaram nessa região e se espalharam pelos demais continentes.
Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
02/05/2008
Confira imagens da pesquisa
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