O sucesso de uma exposição

Uma exposição de alta qualidade que tem atraído o interesse do público. Assim se pode definir a mostra ‘Pterossauros – voo no tempo dos dinossauros’, que acaba de ser inaugurada no Museu Americano de História Natural (AMNH, na sigla em inglês), em Nova York, um dos principais museus do gênero em todo o mundo.

Como não podia deixar de ser, boa parte da mostra reúne material brasileiro, já que está em nosso país uma das regiões mais ricas do mundo nesse tipo de fósseis: a Bacia da Araripe. A área, na confluência dos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, possui dois depósitos paleontológicos formados há 115 e 110 milhões de anos, que estão entre os mais importantes do globo.

Um dos motivos que me levaram a escrever sobre o tema é a chance de revelar ao leitor os bastidores de um grande projeto, organizado por uma importante instituição científica de história natural. Tive essa oportunidade por ter sido co-curador da exposição, juntamente com o colega Mark Norell, do AMNH. A experiência foi extremamente positiva e mostra que o menos importante para o sucesso de uma iniciativa como essa talvez seja a questão financeira.

Assim nasce uma ideia

No início de 2013, estava em uma cidade do interior do Paraná e logo cedo, antes de sair para o trabalho de campo, examinei meus e-mails. Como estava no local havia dias sem acessar minha conta, imaginava receber dezenas de lembretes para resolver pendências (aliás, já notaram como trabalhamos mais depois que a internet passou a ser praticamente uma obrigação para todos?).

Entre as mensagens, uma era do vice-presidente para exposições do AMNH. Ele me convidava para colaborar em um projeto que queriam desenvolver: uma exposição sobre pterossauros.

Maior pterossauro
Elaboração de modelo do ‘Tropeognathus mesembrinus’, maior pterossauro encontrado no Brasil e na América do Sul. Sua envergadura, de um extremo ao outro das asas, superava 8 m. O exemplar foi encontrado na Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil, em rochas com 110 milhões de anos. (foto: AMNH/ R. Mickens)

Na realidade, Mark Norell já havia me contatado informalmente sobre a intenção do museu de fazer uma mostra temporária sobre esse grupo de répteis alados, os primeiros vertebrados a conquistar os céus.

Porém, como já havia passado um bom tempo desde a mensagem do Mark, imaginei que a ideia tivesse sido descartada, como tantas outras boas propostas que, por um motivo ou outro, ‘morrem’ em estágio embrionário…

Claro que topei. E veio o primeiro problema: queriam marcar uma reunião o mais rápido possível, em uma ou duas semanas. Acertadas as agendas, lá fui eu para Nova York. Quando cheguei, minha primeira surpresa: éramos mais de 12 pessoas em uma sala. 

Já na concepção da mostra estavam preocupados em fazer com que ela fosse itinerante

Feitas as apresentações, confesso que fiquei ainda mais admirado: profissionais responsáveis por textos, pela pesquisa, por questões relacionadas com design, interatividade etc. Havia profissionais para cada uma das atividades vinculadas à mostra, até representantes do Global Business Development, que, como soube depois, são responsáveis por fazer com que exposições temporárias possam circular por outras partes dos Estados Unidos e mesmo por diferentes países após seu encerramento no AMNH. Ou seja, já na concepção da mostra estavam preocupados em fazer com que ela fosse itinerante.

Nessa reunião quis saber como tinha sido o processo de escolha do tema. Aprendi que frequentemente eles fazem reuniões em que pesquisadores e profissionais do museu sugerem tópicos que podem ser tratados em exposições temporárias. Para isso, os interessados fazem uma rápida apresentação de 5 a 10 minutos, enfocando, além do tema, o motivo para desenvolvê-lo. 

No final, cerca de oito assuntos em potencial são escolhidos. Importante: todos são analisados quanto à relevância para a missão do museu. Ou seja, o AMNH não realiza exposições quaisquer, mesmo que possam atrair grande público à instituição ou que já tenham financiamento garantido. É um ponto essencial no complexo processo decisório.

Maior de todos
Elaboração de modelo do ‘Quetzalcoatlus northropi’, maior pterossauro de todos os tempos, procedente de rochas com 68 milhões de anos no Texas, Estados Unidos. A abertura alar estimada para esse réptil voador é de 11 m. (foto: AMNH/ R. Mickens)

Após a escolha, o curador deve enviar uma apresentação formal ao departamento de exposições, procurando delinear a temática com os tópicos que pretende abordar. Os profissionais desse departamento se preocupam em saber se houve outras exposições similares nos últimos anos, nos Estados Unidos ou outras partes do mundo, ou se existe alguma, com temática similar, sendo organizada. Também fazem uma enquete para conhecer o interesse do público pelo tema. 

De posse desses dados, uma nova reunião é marcada. Se houver concordância sobre a viabilidade e o interesse do público, elabora-se um relatório sobre diferentes possibilidades de exposições temporárias. O documento segue então para a direção do museu, que decide quais serão desenvolvidas. Detalhe: esse processo começa dois anos antes da inauguração de uma exposição.

O voo dos pterossauros

Após a decisão de que determinada exposição será realizada, o curador passa a pensar em possíveis colaboradores e auxiliares para organizá-la. Foi nesse momento que eu fui chamado. 

Na primeira reunião, todos, sobretudo Mark e eu, apresentamos tópicos mais específicos sobre os pterossauros. E as discussões, típicas de brainstormings, enfocaram se valeria a pena falar de assuntos como descobertas importantes, informações históricas sobre pesquisadores que trabalharam ou trabalham na área, histórias pitorescas de campo e características anatômicas, como as cristas presentes na cabeça, desenvolvimento de voo ativo etc.

Caça conjunta
Cena que poderia ter ocorrido há 110 milhões de anos no Nordeste brasileiro: dois ‘Thalassodromeus’ caçando peixes na laguna do Araripe. (foto: AMNH/ R. Mickens)

Após essa reunião, faz-se nova enquete com o público, para saber o que eles querem ver. A partir dos novos dados, elabora-se um roteiro preliminar e uma maquete da mostra. A direção da instituição é novamente ouvida, e discutem-se eventuais mudanças nos tópicos previstos. Nesse momento inicia-se a produção da exposição. Estamos há um ano da abertura oficial.

A partir desse momento, o contato entre equipe e curadores se intensifica. Detalhes mínimos são discutidos por e-mail, Skype ou telefonemas comuns. Vale lembrar que textos, esqueletos, reconstituições, suas cores e tamanhos, foram ‘revisados’ e não ‘elaborados’ pelos curadores. 

Essa é uma das grandes diferenças que vejo em iniciativas no nosso país, em que o coordenador de uma mostra deve fazer praticamente tudo, desde o texto até a escolha das cores e da melhor pose de um animal extinto. Sem falar na responsabilidade de buscar verbas, o que no AMNH é feito por outro departamento bem antes da fase de produção da mostra. Quando tudo está pronto, a exposição é revista pelos curadores em uma rodada final de consultas.

O(s) grande(s) dia(s)

Curiosamente, não existe um grande dia de inauguração da exposição: são vários. O departamento de comunicação do AMNH organiza uma coletiva de imprensa na semana da abertura da mostra (no caso da exposição dos pterossauros, foi no dia 1º de abril).

Depois são feitas ‘inaugurações’ para diferentes públicos: membros associados do museu (pessoas que se afiliaram como uma sociedade informal de amigos da instituição) e o staff, incluindo voluntários; autoridades e fornecedores; e outras mais, obedecendo a uma estratégia previamente concebida pela direção da instituição. A exposição foi oficialmente aberta ao público no dia 5 de abril. A visitação nessas primeiras semanas tem sido bem alta, e as críticas muito positivas.

Qual é a próxima?

Cabe mencionar a valorização dada pela instituição aos que participaram da exposição, principalmente técnicos e paleoartistas. Afinal, são eles que dão vida às ideias dos curadores e conclusões dos cientistas. Mike Novacek, um dos vice-diretores do museu, fez questão de registrar um elogio especial a todos. E terminou sua fala com o que ele mesmo definiu ser sua frase tradicional: what´s next

Museu
Estação de interatividade no Museu Americano de História Natural, onde o visitante pode ‘aprender a voar’ como um pterossauro. Ali são apresentadas as principais forças que atuam no voo. (foto: MNH/ D. Finnin)

Ou seja, o museu não pode parar de inovar e apresentar novas mostras. No caso do AMNH, esse trabalho faz parte de sua missão, como, aliás, deveria ser para todas as instituições que se julgam museus de história natural. O AMNH abre regularmente duas novas mostras temporárias por ano, que após algum tempo passam a viajar por até uma década para outras partes dos Estados Unidos e para o exterior.

Há muitos outros elementos relacionados com o sucesso de uma exposição do que a questão financeira. A palavra mágica é profissionalismo

Trata-se de uma estratégia que visa divulgar pesquisas de ciências naturais para o maior número possível de pessoas, com um produto de qualidade, propiciando aprendizagem ao visitante através de uma experiência agradável.

Como vemos, há muitos outros elementos relacionados com o sucesso de uma exposição do que a questão financeira. A palavra mágica é profissionalismo. Isso implica que cada um procure dar o melhor de si dentro da sua área de atuação. É o conjunto desse trabalho que poderá produzir bons resultados – o que passa necessariamente pela questão de gestão. Mas acho que todos sabemos isso, não é?

Confesso que adoraria ver essa exposição em nosso país. Não só por sua qualidade, mas também porque mostra muito material brasileiro. O AMNH também gostaria muito de que ela viesse para o Brasil. Agora só falta encontrar profissionais para realizar essa parte do trabalho. Alguma organização ou empresa se habilita?

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

Paleocurtas 

As últimas do mundo da paleontologia
(clique nos links sublinhados para mais detalhes)

David Hone (Queen Mary University of London, Londres) e Donald Henderson (Royal Tyrrell Museum of Paleontology, Drumheller, Canada) acabam de publicar na Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology estudo em que procuram estabelecer, com base nas estimativas de massa e em modelos computacionais, como os pterossauros (répteis alados) flutuariam dentro d’água.

Benjamin Bomfleur (Swedish Museum of Natural History, Suécia) e colegas acabam de anunciar a descoberta de uma samambaia de 180 milhões de anos extremamente bem preservada. E o mais interessante: com restos de cromossomos. O estudo foi publicado na Science.

Jonathan Geisler (New York Institute of Technology College of Osteopathic Medicine, Nova York) e colegas descreveram uma nova baleia fóssil da Carolina do Sul, Estados Unidos. Pertencente ao grupo Odontoceti (que reúne formas providas de dentes) Cotylocara macei foi encontrada em rochas formadas há cerca de 28 milhões de anos. A nova espécie apresenta as evidências mais antigas de ecolocalização nesse grupo de mamíferos. O estudo foi apresentado na Nature.

Acaba de sair na Acta Palaeontologica Polonica trabalho sobre a dentição dos Megalosauridae, grupo basal de dinossauros carnívoros. Christophe Hendrickx (Universidade de Lisboa) e colegas estabeleceram diversas características da dentição desses répteis, contribuindo para a identificação de dentes isolados de dinossauros encontrados em depósitos paleontológicos. 

A Revue de Micropaléontologie publicou estudo liderado por Patricia Krauspenhar (Unisinos, Rio Grande do Sul) sobre palinomorfos (grupo de microfósseis como pólens e esporos) encontrados em testemunhos de sondagens de depósitos cretáceos no Suriname. A pesquisa, que demonstrou maior diversidade de formas marinhas que continentais, contribui para um melhor entendimento da formação do oceano Atlântico.

 O 4° Congresso Internacional de Paleontologia será realizado em Mendoza, Argentina, de 28 de setembro a 3 de outubro de 2014. Entre os vários simpósios previstos, está o dos colegas Bernardo Gonzales Riga e Jorge Calvo, sobre os dinossauros saurópodes do Gondwana, que reúne alguns dos maiores vertebrados terrestres. Ainda há tempo para se inscrever e submeter trabalhos.

 

Matéria publicada em 25.04.2014

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